12/06/2009

...cara dor...


Queria dizer que te amo como quem escreve uma notícia. Que. Te. Amo. Concisa e telegraficamente, como um óbito de pé de página, uma errata que pedisse desculpa, onde se lê deve ler-se, ou os resultados do totoloto. Queria contar a nossa história em duas linhas ou três, sem descrições polissilábicas ou excessos adverbiais; sem modo, lugar nem quando (até porque o nós somos só eu, sempre sem sair do lugar). Umas vírgulas, um ponto final e nada de exclamações, pois nunca o meu amor alguma vez te surpreendeu. Queria despachar-nos em três penadas, nuns rabiscos, num rascunho, com o traço grosso e grosseiro e, com o mínimo indispensável, subentender-te o sujeito, sem complementos nem predicados. Queria dizer que te amo sob a forma de uma ressalva, uma nota de rodapé, uma remissão para o índice ou uma nota do tradutor. E centrifugar as palavras, que são as muletas linguísticas que me amparam o sentimento, espremendo-lhes a adjectivação, os floreados e as figuras de estilo. Queria dizer que te amo e fazer, a propósito e quanto muito, analogias simples com elementos campestres, belos e unívocos, aligeirando assim o peso lexical que carrego e que disfarça o facto de a dor não carecer de outra explicação que o não te poder tocar. A dor traduz-se em poucas palavras e às vezes em nenhuma: quando se basta com um suspiro, com uns olhos que vagueiam por cima das coisas, mareando, ou com um nó górdio à boca do estômago. Mas a minha, como um herói do futebol moderno ou uma cantora pimba, é fiteira, chorona e queixinhas, enfeita-se com brilhos de mau gosto, gosta de dar nas vistas e faz-se pagar cara.

escrito por a. n` um amor atrevido

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