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07/10/2010

... caderno ...

«Eu, segurando o caderno e anotando frases,
limitei-me a registar as mudanças.

Fui uma sombra ocupada a registar sombras.

Mas como conseguir agora,
sem um eu,
sem peso e sem ilusões,
num mundo sem ilusões e sem peso?»
Palavras de Bernard
in As Ondas de
Virginia Woolf

23/04/2010

...andorinha ferida...


Porque andas tu tão alegre quando eu me sinto triste, desesperadamente triste? Custa tanto ser desprezada quando se tem a consciência imaculada, como um arminho que coisa alguma fosse capaz de manchar! Custa tanto! Passo as noites e os dias na mesma ânsia febril, na mesma indecisão de farrapo ao vento, no mesmo não saber o que quero, o que hei-de pensar, o que hei-de, o que devo fazer. Tenho um culto pela minha dignidade de mulher, tenho o orgulho, o santo orgulho de ser sempre a mesma criatura que a vida, tão cheia de lama, não conseguiu salpicar. E assim, tudo em mim são sombras, indecisões, murmúrios, coisas que não entendo bem, que não distingo bem. Amigo, compreende-me e sente que eu não estou, que eu não posso estar alegre. Olha a minh'alma como se ela fosse uma pobre andorinha ferida que batesse as asas desesperadamente. Tenho medo, medo do futuro, medo do mundo, medo da vida que foi sempre má para mim. Tenho visto sempre a felicidade correr-me por entre os dedos como água límpida que coisa alguma sustém; tenho visto passar tudo, morrer tudo em volta de mim, como fantasmas que passassem ao longe, numa estrada cheia de sombras. E era tão bom ser feliz! Se eu pudesse algum dia ser um bocadinho feliz! Encostar a minha cabeça ao teu ombro, sorrir-te com os meus olhos que têm sido sempre tão tristes! Contar-te tudo, dizer-te tudo, mostrar-te o meu coração aberto de par em par como uma janela enorme que o luar iluminasse, que o luar vestisse de branco! Sentir-te os passos e correr para ti, com as loucas saudades dumas horas que tivessem sido anos! Tudo isto, tudo isto eu queria enfim, toda esta ternura eu queria enfim que me envolvesse como um perfume violento que me embriagasse. Tu andas contente e andas contente porquê?! Tu não vês, não sentes que não é possível a felicidade assim completa, absoluta como nós a queremos? A vida não é a imaginação, não é a fantasia, não é o sonho, a vida tem coisas a que nós temos de olhar e que são tão feias e tão más! Faz-me mal, às vezes, a tua alegria, como se ela fosse um sacrilégio. Ampara-me, ensina-me a crer, a ter confiança, diz a verdade mas a verdade que seja boa que me não faça chorar como esta verdade que eu trago dentro de mim como uma chaga a doer sempre. Entremos na vida e não sonhemos. Vamos os dois encarar de frente sem medo e sem cobardias a vida tal qual ela é para nós. Não façamos, pelo amor de Deus, castelos no ar que eles caem sempre e eu sou, infelizmente, da natureza das heras que se agarram com ânsia a todas as ruínas por tristes e escuras que sejam. Não me digas nada que não tenhas a certeza, a absoluta certeza de poder realizar, na minha, na nossa vida.

 
Florbela Espanca,
in "Correspondência (1920)"

24/03/2010

...o amor é ter medo e querer morrer...




"fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer... o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos... o amor é ter medo e querer morrer."

de, José Luís Peixoto
in A Criança em Ruínas

(ainda bem que alguém consegue escrever o que eu por mais que o faça não consigo exprimir... é desconcertante, ler e identificarmo-nos tanto com o que ali está... por isso sou menos que fã, e mais que admiradora... sou peixoto inteira... obrigado josé luis por partilhares o que a tua alma tem de comum com a minha. sinto-me menos desigual quando te leio...)

01/03/2010

... Como Te Tens Lembrado Hoje de Mim? ...


Nós, pobres mulheres, apesar do nosso imenso e frágil orgulho, não somos, afinal, mais do que argila que as mãos deles moldam a seu belo capricho. Feliz da argila que, no seu caminho, encontra, como eu, o estatuário que a vai moldando a acariciá-la! Gosto tanto de ti que me não revolto, eu, a eterna revoltada, aquela que teve sempre por coração um oceano imenso a que ninguém jamais descobrira o fundo. Como te tens lembrado hoje de mim? Com saudades? Com desejos de me beijar? Com tristeza? Como? Gostava tanto, tanto de saber a cor dos teus pensamentos quando são meus! Queria que eles fossem roxos, como os lilases, ou cor-de-rosa como os beijos que eu te dou. Tenho saudades, saudades, saudades. Reparei agora para uma coisa: é curioso como eu não sou capaz de vestir um vestido alegre quando tu não vens. Já segunda-feira vesti o vestido preto e hoje sem pensar fui vesti-lo outra vez. E é verdade que eu ando de luto, de luto por uns beijos que trago e que se não dão e que morrem de frio longe da tua boca; queres luto mais triste? Meu amigo, tu és muito mau que me não quiseste hoje ao pé de ti.

Florbela Espanca,
in "Correspondência (1920)"

16/12/2009

...está tudo gasto...



E eu gastei as horas e os tempos em volta, gastei os espaços que preenchemos com beijos, gastei tudo e tive tudo em tão grande número que me perdi a contar-te em cada canto por onde ainda caminho.

E gastei-te a ti nas vezes em olhava a tua fotografia, gastei a boca a beijar-te nos espaços ocos e vazios, gastei-te os olhos a olhar-te nos sonhos presentes que me preenchem, gastei-te as mãos nas minhas, aquecendo-as e mantendo-as sempre seguras.
Gastei tudo amor, não sobrou nada e tudo o que eu gastei uma charada que o meu pobre coração não soube decifrar, depois de tudo eis que me encontro agora, olhando o espelho vejo-me a outra face já negra e gasta por medos e desânimos.
Que mundo é este amor? Que tempo me pertence agora? Nem os meus sonhos são o presente que julgava, nem um futuro, nem um dia de amanhã que seja, apenas a permanente loucura de me saber viva sem ti, com o corpo abandonado e sem esperança, com o rosto cravado pelo pecado de te amar tanto mesmo depois de te ter gasto.
E porque te amo deste amor tão grande faço de conta que te tenho ainda, rasgo o silêncio e perco-me em gritos da alma dados pela boca desta face que chora. O choro é o meu ponto de encontro contigo e com a vida, no choro percorro o meu destino mesmo com o corpo nu rasgado de ausências e distâncias.
Cubro os meus medos com os dias felizes que vivemos, com os sorrisos maravilhados e doces, com o rosto coberto de alegria, com tudo o que era e agora é nada, absolutamente nada onde me agarrar, para me ser na totalidade.
E como dói, meu amor, ter-te ainda em mim e não ter forças para me erguer, porque me pesa no lugar do coração todo o amor que deixou de ser, dói tudo o que já não é e não dói nada.
Gastei tudo amor, gastei tudo com as palavras e os silêncios que não te dei, gastei tudo, até o amor que te tenho tanto que faz com que me odeie assim de uma forma tamanha por não ter sido capaz de me manter em ti.

fez-me lembrar de nós, e não só, também do adeus de eugénio de andrade este texto da

25/09/2009

... mais uma vez ...


Sim... o criminoso volta sempre ao local do crime... e nunca conseguiria ficar muito tempo, longe de mim...

Este blog, sou eu, por mais negro ou deprimente que nos posts anteriores se tenha tornado, reflecte-me e sinto saudades... Não faz sentido mostrar uma fachada "cor-de-rosa" quando não está fácil... e como toda a minha vida as reticências me acompanharam, é nas reticências que quero estar.
O `depois de tudo´... continuará... se tiver que ser... assim como todas as histórias deste ou outro lugar qualquer onde more o meu estado de espírito, só andarão em mim ou me acompanharão cá ou lá, se ainda não tiverem acabado... se ainda não tivesse sido este o fim...
Não sei... tenho sérias dúvidas... mas raramente acerto, e mais dizem que é cego esse sentimento, e posso ter andado vesga de todo, ou não... Por isso, seja, o que o Amor quiser!!!
Voltei porque aqui pertenço, e por mais ausente que me encontre, tenho que ter um posto de acolhimento fiável.
Obrigado a todos os que mantêm esta casa minha "arejada" ... Por mais que as bata, quem me conhece sabe que, todas as minhas portas ficam entreabertas, para quem realmente me merece...

04/02/2009

Que fazer...



Que fazer...

Quando olhas à tua volta
e não vês mais que nada?

Quando as tuas opções são tudo,
menos aquilo que tu realmente queres?

Quando o que te é sedutor,
é também o que te está vetado?

Que fazer...
Quando olhas à tua volta
e só sentes vontade de entrar onde ninguém te encontre
e permanecer ali para sempre?

Quando queres fugir,
mas sabes que aquilo de que foges
acabará por chegar devastadora, terrível?...

Quando a dor já faz parte integrante de ti,
que já lhe conheces todas as fases?

Que fazer...
Quando sabes que a única saída é escrever,
e não consegues fazer mais que juntar palavras desconexas,
que nem sentido têm?


Ib - Poema ao acaso


23/04/2008

...desaprender...

Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a... desaprender. E para quê e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega às mãos, não exclame, satisfeito ou enfastiado: «- Cá está ele!».
Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.
Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado.

Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza «dossiers» com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios.
É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e por que não?, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia a dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.
Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor.
Pedra campal sobre o assunto.

Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim" é o autor desta reflexão, que me alimenta hoje

sim, sei que escrevo quando estou "mal"
sei que faz-me mal escrever...

então porque escreves, perguntas-me tu...?!
porque sim, porque me sai...

por isso, vou parar uns tempos...
o tempo que for preciso para desaprender de tanto sofrer...
tenho que viver, sentir, algo de mais luminoso, para poder voltar... e escrever, em paz...

até breve
malu

14/02/2006

Porquê escrever ?!

Escrevo hoje, na certeza de que longe dia, irei reencontrar-me. Sim, por isso escrevo. Não para mostrar ao mundo palavras gastas como diria o poeta, não para receber de volta frases feitas, mas sim, escrevo para criar uma ponte entre o que fui, o que sou e o que serei. Brevemente, porque todas as nossas vidas são breves demais, irei estar de volta, e quero um portal, para que a afinidade persista, com esse alguém que nessa altura direi ou não, se já não fui...

O que fica neste blog, é realmente solitário, é nada mais nada menos, do que exclusivamente para mim... Como um passe, uma senha para o reconhecimento que aguardo e loucamente procuro, de patamar em patamar, de história em história, dessas minhas tantas vidas que se atropelam, que se cruzam, que se castigam, que se destroem, que se admiram incondicionalmente entre si.
Para mim, e para os poucos que talvez admitam que conseguiram tocar um pouco da minha pessoa, numa destas breves passagens, por breves instantes, momentos que partilhámos.

E aqui, venho escrever, não mais do que silêncios e palavras.
Enfim...reticencias...em reflexões, em pensamentos.

(...invariavelmente, sempre em construção, esta casa das minhas reticências...)

13/02/2006

...Reticências...

Este é um lugar pessoal. Está na rede por ser este o meio mais fiável de não me perder, permitindo-me um ponto de encontro especial. Como nem sempre sou transparente, apenas o sinto quando escrevo... aos poucos irei escavando, e desenterrando outra face de mim, a interior que se reflete no que a vida me tem transformado, num remoinho de emoções, numa frase: uma constante revolução em forma de vida...
Mesmo que mais ninguém leia, ou que a mais ninguém nada diga, este é o meu cantinho e sendo assim cuidarei dele, para mim, e partilho, porque não sou egoista de todo, e quem sabe?... talvêz me faça bem!