14 Julho 2009

Novo blog... Nova vida...

Não voltei

Vim apenas confirmar a minha nova morada
ou se quiserem chamar-lhe o meu novo canto, onde se aloja o meu novo "eu"
ou simplesmente, o meu novo blog
aos amigos, inimigos, conhecidos, desconhecidos e outros

para me visitarem agora
vão a www.marta-luis.blogspot.com

Ninguém gosta de estar sozinho por muito tempo!

10 Julho 2009

entreguei-me e não me devolveram

Ninguém é dono da tua felicidade,
por isso não entregues a tua alegria,
a tua paz,
a tua vida nas mãos de ninguém,
absolutamente ninguém.

(Aristóteles)

Sei que aqui virás pelo menos uma vez, e saberás, porque nunca mais eu voltarei...

Porque foi essa a tua vontade, porque preferiste silênciar-me e dar as tuas palavras a outras pessoas que agora admiras, e continuar a dar a outras pessoas que já antes amavas...

Com o tempo e espaço que livremente arranjaste para os outros deixou de haver tempo e espaço forçado para mim aqui, de onde leváste tudo o que era teu e deitáste fora sem devolver uma única palavra...

Devolvo-te as lágrimas. As que dizes que alguma vez choraste, por sentir quem sabe saudade de mim, e encerro este blog...

Até depois da morte de tudo o que me fizeste sentir... até lá nada mais me chama aqui.

Depois de muitas reticências e ponderação "fecho a porta a onde não mais quero entrar" onde tudo o que me faz lembrar de ti me fere com a mentira que foste até hoje, e abro uma nova janela... porque depois de ti ainda sobra muito de mim...
Mas nunca mais aqui...nunca mais pra ti...

08 Julho 2009

Pus o meu sonho num navío

navío fantasma


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo meu sonho,
dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.


Tu és "Catarina"

imagem do ciclone catarina

A estranha forma que tomam
as nossas atitudes,
quando não pensamos
ou achamos que pensámos tudo.

Esqueci-me que existe uma pessoa
e um coração que talvez não perdoe,
esqueci-me que gostava de ti como amiga
porque eras assim,
fria como um icebergue à deriva num oceano de gente,
meiga como uma pessoa carente,
eras previsível sem o saberes
mas eu gostava de tudo isso.

Mas depois de me enjaulares
e depois de me mentires
eu não conseguia estar contigo,
não porque te odiasse
nem porque quisesse estar longe de ti,
mas porque esperava que as minhas despedidas
te levassem à procura de algo
que te levassem a perceber o errado
que tudo isto estava.

Mesmo que errado,
mesmo que estúpido.

Não aconteceu,
em ti continuou a existir uma pessoa fria
de ti vieram exigências,
quiseste transformar algo
numa farça fútil, como não mais amigos,
mas como estranhos que só dizem “olá”,
mas um “olá” bonito,
como se essa fosse uma categoria
de pessoas que te preenchem
logo a seguir às pessoas a quem dizes um “olá” simples,
quiseste que todos pudessem apreciar
a nossa troca de vulgares “olás”.

- ‘Deixei de te procurar, depois de me “enjaulares”.’
- ‘Estás bem com isso?’
- ‘Estou.’
- ‘Eu também.’

E depois um adeus que ditou um inicio,
não se criou um ódio só que tu és Catarina.

E hoje só o destino nos encontra,
enquanto tu te mergulhas na podridão
dessas pessoas, perdão desses tristes,
que escolheste para te rodearem,
tal qual rainha que na ausência de um rei
escolhe, moribunda e cega, uma corte cheia de caprichos.

Flávio Pinheiro

07 Julho 2009

...Confirmo com pesar...


Há sensivelmente um ano atrás ou talvez um pouco mais que isso... deixei aqui um texto de Artur da Távola que subscrevo desde que o conheço e, isso é há bem mais tempo atrás... aliás, sempre foi um dos pensadores que me chamou a atenção em muitos aspectos, fases ou temas da vida... e neste tema, dos relacionamentos, sempre o considerei um mestre, apesar de que, confesso, não sou nada nada nada boa aluna...

E se há um ano o partilhei, foi porque achei que, poderia ajudar, na matéria em que só para os outros olhamos, e em nós nunca vimos defeitos, nessa matéria basicamente universal que é o amor entre duas pessoas e a fórmula para o vingar...

Dei-lhe o nome, a esse post: ...amar não basta... lembras-te?

Passado este tempo, o que também é irrelevante, porque o tempo não conta nesta matéria, onde ou se sente ou não se sente, ou se ama e está disposto a viver o amor, ou não se ama, e estamos indiferentes ao ficar sem esse amor, volto a reler o mesmo, não por activação da minha veia masoquista, mas porque se sempre insisti nisto, é porque, achava que valia a pena.

Hoje, confirmo com pesar que não valeu a pena, nenhuma das lágrimas, nenhuma das vezes em que tentei recuperar o irrecuperável, tentei forçar a existir o inexistente, tentei que, como hoje te disse as palavras me fizessem acordar do pesadelo de não estares aqui, para acreditar no sonho de um destes dias vires a estar...

E para mim, basta de me negares até as palavras, e de me tentares calar com os teus silêncios, basta de me dizeres que o que tivemos foi pouco, quando queria ouvir-te dizer que o que temos é tudo, basta de me dizeres que só te faço mal, quando não tentas nenhum bem me fazer...

"Amar não basta", e confirmo com pesar, que tudo o que tinha para te dar, não foi o bastante para ti... consequentemente tudo o que sentia por ti, não basta agora para te amar.

Se bem que quem manda é o coração e, não será hoje que eu possa dizer-te que deixei de te amar, nem num hoje que eu consiga imaginar, nem de longe nem de perto, só para não usar a palavra nunca.

Mas ambos sabemos, que não basta.

Era preciso que ambos, quiséssemos caminhar juntos, alimentar juntos, emocionar juntos, e seduzir juntos esse sentimento que dizíamos sentir um pelo outro... porque como disse Távola, ..."Tem que saber que o amor pode ser bom pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado. O amor é grande, mas não são dois. Tem que saber se aquele amor faz bem ou não, se não fizer bem, não é amor. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta."

E o meu amor, está esgotado de se sentir sozinho, não fisicamente se é que é preciso explicar-te, mas emocionalmente...

E não basta dizeres-me : "então está bem...basta!" para eu te perdoar não me teres amado o bastante, para preferires amar, com tudo o que o verdadeiro sentido da palavra implica...
Não basta dizeres-me que "lamentas muito" porque, lamentar não basta para apagar...nem o amor, nem a dor...
Não basta vires aqui ou até mesmo a outro qualquer lugar, dizer que não queres magoar-me mais, para o não fazeres...
Não basta dizeres: "então vive a tua vida", para eu viver...
Não basta afastares-te ou afastar-me, para sarar a ferida da ausência de nós em nós...

Era preciso que nunca mais (nem hoje nem em qualquer outro hoje a seguir que consigamos imaginar) estivéssemos separados. E mesmo assim, poderíamos dizer que não seria o bastante porque nada recupera os dias que tenho vivido sem mim ou os dias que tenho morrido sem ti.

Basta de estares longe de mim (não fisicamente se é que é preciso explicar-te - mas emocionalmente). Basta de me condenares, à distância, à estática e muda reacção e à indiferença, do que sinto e do que escrevo porque não me ouves...
Se o amor que te tenho não basta... então basta desse amor que não me tens...

Não basta querer amar-te, é preciso deixares-me sentir que me amas, mesmo quando não me deixas amar-te... Não basta que me ames, é preciso sentires que te amo, mesmo quando deixas morrer o nosso amor...

E só depois disso, se me disseres que basta,
é que te direi que mesmo assim, não basta meu amor!!!

...Princípios...


Podíamos saber um pouco mais
da morte.
Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais depressa.

Podíamos saber um pouco mais da vida.
Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais do amor.
Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

06 Julho 2009

...os sinos...

os sinos do mosteiro de alcobaça
de regresso após recuperação
imagem de 2004 no fotolog de jhricardo
Num domingo manso à hora mate do lanche venho a este bazar para decorar a nostalgia. Para te encontrar por acaso, no acaso onde ambos sabemos que nada acontece por acaso. E neste instante não penso em nada, penso em nós.
Choveu esta manhã e parece que se me lavou a memória. Mas não...
Tocam os sinos do mosteiro e, de cada vez que os ouço, é meio dia. É como se me beliscasses e me dissesses que afinal foste real. O tocar dos sinos materializa-se num vestigio mais da tua passagem pela minha vida, em que sempre recordo o início daquela tarde glaciar debaixo de um calor abrasador, pois tremo não sei se de frio ou pavor, sempre que me dizes adeus.
Como me custou que descolasses os teus lábios dos meus. Amarga-me engolir em seco a tua ausência, seca-me a boca e o sangue ao evocar o beijo perdido.
Também seria bom, se me aparecesses agora, com a saudade pronta a morrer numa mão, e o desejo que tenho de te ver na outra, e me puchasses para o teu abraço. Tanto como custa que não estejas aqui.

05 Julho 2009

...parede de papel...

Areal da Praia do Salgado, com Nazaré ao fundo (foto de alan1)

Encostada à parede de papel deste jardim suspenso entre a serra e o mar, sinto a areia quente pelos meus pés gelar-me a alma, o sol do ar queimar-me a presença que se faz parecer a ti, aqui a meu lado agora. Não sonho já. Não desespero. Alimento este cenário improvável de nós dois, e a minha sobrevivência de migalhas de doces memórias, e já morri de fome da realidade.
Estarei eu ainda viva, ou esse meu amor?
Tanto queria andar, seguir, sair deste lugar, que fiquei presa a esses caminhos por onde me levaste e já não sei ir, ou ficar, sem ser por aqui, encostada a uma parede de papel, que tento não deixar cair. Mesmo queimada do sol do esquecimento, tombada do vento das incertezas, encharcada do dilúvio da distância, continua aqui leve e solta como a paz quando estás comigo, firme e robusta como a inequívoca força do saber que te pertenço ou que me pertences.
Mas mesmo assim, foste para longe há tempo demais, e sem culpa! E pergunto-me: será que vais fazer todo esse trajecto de volta? Pelo menos tentaste vir ao meu encontro, tentarás? Lembras-te de quando em vez, ouves quando te chamo ? Provavelmente...
Envolta em um misto de raiva de não estares aqui e uma alegria sã de te saber sempre aqui, volto sempre a pensar em nós e em como nos amámos uma vez ou outra desafiando a lei dos descrentes, e deixo de ser uma pessoa vazia à beira do vazio, intercalando o cansaço de te esperar com a felicidade de te amar.

malu

04 Julho 2009

...O Verão sem ti...

Este Verão assim dá-me o tempo que não quero. Sobra-me em desperdícios de momentos que não vivo contigo, quando não estás.Tenho até tempo para ler, e comprar livros e, até já me deixei de ler na net (apenas) e, vou apanhar ar e, visito a feira e, compro apenas os livros que ao tocar me lembram de nós.

Assim aconteceu com este, que de uma só rajada li, esta tarde...custou-me 1€ e valeu a pena: Trata-se de um curto (115pags.) mas excelente romance de 1996, de nome "Haldred", de Patrick Besson que se passeia pela Festa de Mojeström e pelos combates, pelas orgias e os insólitos ancestrais desta tradição nórdica, e assim conta a história de um amor louco, que me comoveu, e me invejou... (engraçado que o casal amoroso se encontrou num restaurante português, de nome "pescador" naquele lugar, na Noruega)

Logo na contracapa, o primeiro parágrafo do primeiro capítulo prendeu-me, e agarrei-o logo ali pra trazer comigo...
"O Verão começou naquela tarde, depois de um quarto de hora de Primavera, aproximadamente. Perguntei a Erika se queria casar comigo. Respondeu-me que Haldred nunca lhe daria o divórcio."
Abri, e li o segundo parágrafo...
"Amava-a de uma forma desalmada mas não lhe podia querer mal, disse ela, pois tinha feito tudo para isso."
Bastou pra me convencer... e já tinha outros na mão, que ficaram pra trás, na lista de prioridades de leitura...

Estas passagens que te deixo, poderão dizer-te porquê, levei hoje menos de uma hora a lêr este livro, e volto a ler e a reler, enquanto não me apetecer passar ao próximo: "Amores que atam" que também escolhi por nós:
"-Um amor como o nosso diz Erika, tanto pode continuar como acabar. Que importa? O importante é que tenha existido. Se fossemos imortais desejaria que o nosso amor também o fosse, mas como não é o caso..."
"Não, eu não queria dormir com ela. Foi sem dúvida essa a razão que fez com que ela depois me amasse tanto. por uma vez um homem não quisera dormir com ela."
"Perguntou-me se eu pensava muitas vezes nela. O que as feministas têm de aborrecido é que querem tanto estar em pé de igualdade com os homens que estes deixam de poder comunicar com elas, porque comunicar consiste justamente em dominar, ser dominado, usar de todas as artimanhas, violar, esmagar, oferecer-se, abandonar-se. A comunicação não é inofensiva, é amor, e no amor é preciso ser fraco."

"A questão de fazer ou não fazer amor não se coloca quando se deseja assim.(...)Mais do que fazer amor vivemos no interior do sexo como os leões vivem na selva. Entrámos no sexo e ele fechou a aporta atrás de nós e demo-nos então conta de que não era no sexo que nos encontrávamos mas no paraíso."

"O que é bom, quando acariciamos a mulher que amamos é que temos toda a eternidade à nossa frente."
"A voz é metade de uma mulher. Como se toda a vida nos fôssemos preparando para sermos cegos, guiamo-nos pelo som. A primeira coisa que fazemos não é olhar para uma mulher, mas ouvi-la. E só se a flauta de Pan que tem no lugar da boca nos encanta, é que começamos a olhar para ela. Aquilo que me seria mais difícil separar, se algum dia a Erika me deixasse, seria da sua voz."

"Tantas vezes a beleza zombou de nós que no dia em que ela nos contempla só somos capazes de pensar que não se trata com certeza de beleza."

"Em matéria de amor não há encontros, há apenas reencontros."
" O ser humano tem muitos vícios, disse Erika, mas deixar-se amar por alguém que não se ama é o pior de todos, e é precisamente esse o meu."

"Dois rios que se entrelaçam. Peixes correndo uns para os outros. Espuma. O nosso repouso, como se já antes tivéssemos partilhado o leito de cem noites. Começámos por não ter nada a dizer um ao outro - antes que as suas palavras e as minhas se fundissem umas nas outras. Fusão através do verbo que desabrocha como nunca antes. As nossas histórias que, para se encadearem, revolvem o passado no desejo de encontrarem laços. O que fizemos a dois quando ainda nem sequer nos conhecíamos."
Mais valia ler- te o livro inteiro não?!...
Mas não... transcrevi tudo, letra por letra...
Porque me soube muito bem ler-nos aqui, e dar-te a ler, a ti...
Assim preencho o Verão...sem ti...

01 Julho 2009

...horas sem tempo...


Nestas horas sem tempo que não passam
Tento deslindar de que massa és tu feito...
Serás a minha metade boa ou má, sendo que,
metade de mim é amor, e a outra metade...amor...?
Serás a dor que sinto?...
Serás igual a mim, pra mim,
ou apenas um desejo de mim, que nunca existiu...?!

Espererei uma palavra...um toque, um sinal
e as lágrimas voltam a dizer-me que te amo
mesmo não vindo
mesmo não te tendo...
e doi mais do mesmo "não falando"

E nestas páginas amarrotadas dos dias e noites desinquietos
em que tento curar esse abismo do meu sentir
em que tento arranjar uma razão para sorrir
quando me dizes pra viver...(sem ti)

Morro... porque te vejo desistir
e destruo-me quando me/te culpo por não mais teres forças
pra me levar
pra me amar

E insisto... fervendo de raiva de não saber por onde andas...
Pior; de descobrir que não te interessa por onde ando...
E odeio-te por não me amares mais...
Porque não abro mão do meu querer...
Porque acredito no meu amor...
Mesmo nestas horas sem tempo que não passam...

...Diz-me...


E se não mais te dirigisse a palavra?
Se não mais te dissesse que estou viva
ou que vives em mim, mesmo que me mate?

E se não mais soubesses de mim
Nunca mais me visses
Não mais me ouvisses
mesmo os gritos mudos
entre os silêncios que nos repelem

Abrandaria a tua dor?
Acalmaria teu coração?
Viverias melhor?
Insistes tanto em afastares-te, desculpando-te comigo
Será então mais fácil para ti desistir, do que amar... ?
Será... e eu ainda não vi?
Diz-me!

Se preferes que eu me apague de vez da tua vida,
Diz-me!
Custaria muito menos esta ausência, este fim,
se ao menos um de nós fosse menos infeliz...
Mas tens razão:
Eu tanto peço -
Diz-me,
e tu dizes ou não dizes sempre o mesmo,
que provávelmente
só e ainda eu é que acredito...
ou ainda espero...
que tenhas algo diferente a dizer-me...
Diz-me...
malu

(mais) Silêncio (ainda)

vitrola dos ausentes



Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.


Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra"
Tradução de Luis Pignatelli

...morte aos laços...


Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Que se sonhasse a chorar...

Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que a sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...

Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois ver vir a morte
Despedaçar esses laços!...

...É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!
Florbela Espanca

...não contes...


não contes as vezes que não te disse: amo-te
lembra-te apenas das que te sentiste amado
não te peço que me queiras bem
esperava que me amasses
tantas vezes como as que disseste
seriam o bastante pra me fazer feliz
e não me sinto

...fácil de entender...?!?...

Talvez por não saber falar de cor, imaginei
Talvez por saber o que não será melhor, aproximei
Meu corpo é o teu corpo, o desejo entregue a nós...
sei lá eu o que queres dizer.
Despedir-me de ti,
"Adeus, um dia, voltarei a ser feliz."

Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor
não sei o que é sentir.
Se por falar, falei, pensei que se falasse
era fácil de entender.

Talvez por não saber falar de cor, imaginei.
Triste é o virar de costas, o último adeus
sabe Deus o que quero dizer.
Obrigado por saberes cuidar de mim,
tratar de mim, olhar para mim...
Escutar quem sou
e se ao menos tudo fosse igual a ti...

Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor
não sei o que é sentir.
Se por falar, falei, pensei que se falasse
era fácil de entender.

Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor
não sei o que é sentir.
Se por falar, falei, pensei que se falasse
era fácil de entender.

É o amor que chega ao fim.
Um final assim, assim é mais fácil de entender...

Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor
não sei o que é sentir.
Se por falar, falei, pensei que se falasse
é mais fácil de entender.

Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor
não sei o que é sentir.
Se por falar, falei, pensei que se falasse
era fácil de entender.

...Seja onde for...

imagem in wordpress.com

Qualquer dia, qualquer hora
Agente se encontra
Seja aonde for, pra falar de amor

Qualquer dia, qualquer hora
Agente se encontra
Seja aonde for, pra falar de amor

Pra matar a saudade,
Da felicidade
Dos instantes que juntos passamos
E promessas juramos

Reviver os momentos
De sonho e de paixão
Das palavras loucas
Vindas do coração

Meu amor
Ah se eu pudesse te abraçar agora
Poder parar o tempo nessa hora
Prá nunca mais eu ver você partir
Meu amor...

Meu amor
Ah se eu pudesse te abraçar agora
Poder parar o tempo nessa hora
Prá nunca mais eu ver você partir

(Meu amor)

Música: Os Amantes (1977)
Autoria: Sidney da Conceição / Lourenço / Augusto Cesar
Interpretação: Luiz Ayrão

29 Junho 2009

...qualquer coisa...


Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei-de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.
Alberto Caeiro

...para que servem?!...


Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem as imagens?

Preciso habituar-me a substituir-te
pelo vento, que está em toda a parte
e cuja direcção é igualmente passageira e verídica.

Preciso habituar-me
ao eco dos teus passos numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te, e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te, e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens assim como posso passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho

...Diz-lhes...

rich frederick - method of breaking heart

Isso. Fala sobre tudo. Diz-lhes que te amo. Ao sol. Á lua. Ao vento. Que não consigo viver sem ti. Da pressa de estar a teu lado. Todas as horas. Agora. Hoje. Fala-lhes que depositei a minha fé em ti. Conta como foi amor à primeira vista. Daquele momento. Das danças a meio da noite. Dos bancos de jardim. Das horas calmas quando estamos na sala entre almofadas. Da nossa sintonia entre bater de corações. Do meu fascínio quando te vejo. Do meu gosto pela tua camisola de malha. Da maneira simples e desatenta como bebes o café. Das nossas almas que andam por aí à noite. Da minha que não descansa enquanto não adormeceres. Explica-lhes que é amor. Verdadeiro. Da sincronia de pensamentos. Comprova a todos a importância que tens na minha vida. Declara que somos únicos em qualquer pormenor igualado. Da alegria nas fotos é natural. Que não gosto de ir à tua procura. Prefiro que estejas sempre a meu lado. E que és o meu orgulho.

Diz a toda a gente que a minha vida...és tu.

... como posso ?! ...


Como posso eu, continuar aqui, assim?!

Como posso eu, aguentar mais, sem mim?!
Já não estou sem ti... Não estás comigo...
Já não entendes o que te peço... Não estás pra isso...

De cada vez que te disse sim... disseste-me não
De cada vez que te pedi amor...deste-me solidão
De cada vez que te pedi alento...negaste-mo e pronto...
Com a desculpa de que, eu estou cansada...eu não quero mais...

Nunca nada me prometeste... Nada te cobro
Apenas me levaste contigo... e por isso sobro
Sobro aqui, e em qualquer lado onde não estás...
Onde não queres estar... eu fiquei sem lugar

Como posso eu, esquecer-me da dor de te não ter ?!
Como posso eu, aceitar que preferes estar sem mim do que me ter?!
Como posso eu, continuar aqui, assim?!
malu

28 Junho 2009

...Stonebol...

"Cenas de violência na Academia de Alcochete motivaram interrupção do Sporting-Benfica." Uma vergonha...!!! (ver o caos )

(última foto que tirei antes d`arrumar a máquina e pôr-me alerta)
Adeptos com problemas mal resolvidos entre si, quiseram estragar a festa...e conseguiram.

Tanto os do Benfica que ainda antes de chegarem à academia já tinham feito "porcaria" como os do Sporting que não souberam "não descer ao mesmo nível" e com a permanência no campo, depois da invasão, levaram à suspensão do jogo, e os "miúdos" é que pagam...sem culpa alguma destas guerras sujas entre "claques" ou aquilo a que agora chamam de "grupos de adeptos organizados" e que em vez de ajudarem à festa, vieram detonar a ordem...

Fui eu (e mais 3 mil) logo de manhã para Alcochete...para ver uma equipa ser campeã (fosse ela qual fosse ficaria feliz por lá ter estado) e, dei-me no meio de uma cambada de selvagens que, até crianças apedrejaram...sem olhar a quem...

Não havia necessidade!!!

É noticia de hoje em todas as capas dos jornais nacionais...desportivos e outros, e mesmo de abertura nos telejornais de ontem... (ver vídeo aqui)

Mas violência à parte, foi um dia fantástico:

O meu afilhado, o Ruben, estava em campo, e a madrinha babada, convidada, foi ver o derby... Antes das pedras, das garrafas a voar, dos carros destruidos e seres iguais ofendidos gratuitamente, tiros, gritos, dos empurrões, das cargas e da merda toda, houve muita festa... a festa bonita do Futebol, e eu estava lá...E o mais importante disto tudo, pelo que nunca vamos esquecer este dia, é que, o Ruben fez 18 anos ontem... E...mesmo que não fosse campeão, que não foi, mas há-de ser, iamos também festejar os seus 18 aninhos feitos precisamente ontem... Mas com tudo isto, nem sequer pode sair da academia. (conseguiram estragar a festa)

Está lindo este menino de ouro do meu coração... e grande... como o tempo passa... (eu tinha 18 anos, quando ele nasceu hihihi) ... Parabéns !!!

26 Junho 2009

...heaven can(`t) wait...

Michael Jackson morreu, aos 50 anos... Poderiamos ser ou não fãs... mas em tempos fomos, e em tempos mais recentes desencantámo-nos com as "taras e manias" dele, não foi...!?

Mas, antes de ser um emplastro...nojento... por tudo o que as noticias a si associadas marcaram ou mancharam, Michael Jackson foi um SENHOR, génio da música pop, por isso merece uma atenção...

Centenas, milhares, assim que a noticia se espalhou se concentraram à sua porta...num adeus ferido como quem perde um pedaço, um amigo...e isto quer dizer alguma coisa boa, não má, porque realmente o povo é assim: Por mais diabólicamente más que sejam as pessoas (o que não é uma acusação, mas uma constatação) não esquecem os exitos, e as canções, e o estrelado deste homem, e hoje, esquecem à sua morte e em sua homenagem, todas as acusações ou constatações, ou nublosas dúvidas que pudessem ter existido acerca da sua pseudo-pedofilia, ou do seu excêntrico modo ou mania de estar ou não estar na vida...

Faleceu esta quinta-feira, de acordo com a versão oficial, na sequência de um ataque cardio-respiratório, num hospital de Los Angeles, Estados Unidos...
Era uma das estrelas do mundo da música mais adoradas e mais controversas....(pudera)

Uma internacional reconhecida figura pública que se auto-abafou em 2005 apesar de absolvido na altura do julgamento em que era acusado de ter abusado sexualmente de uma adolescente.

Já fora anunciado em Março que, o cantor cinquentenário ia regressar aos palcos, num concerto em Londres, este Verão...faltavam semanas apenas...mas...
Não chegou a tempo...ou não lhe chegou o tempo...
Descanse agora...

Tell the angels no,
I don’t wanna leave my baby alone
I don’t want nobody else to hold you

That’s a chance I’ll take
Baby I’ll stay,
Heaven can wait

No, if the angels took me from this earth
I would tell them bring me back to herIt’s a chance
I’ll take, maybe I’ll stay
Heaven can wait

You’re beautiful
Each moment spent with you is simply wonderful
This love I have for you girl it’s incredible
And I don’t know hat I’d do,if I can’t be with you
The world could not go on so every night I pray
If the Lord should come for me before I wake
I wouldn’t wanna go if
I can’t see your face, can’t hold you close
What good would Heaven be
If the angels came for me
I’d tell them no
Unthinkable
Me sitting up in the clouds and you are all alone
The time might come around
when you’d be moving on
I’d turn it all around and try to get
back down to my baby girl
Can’t stand to see nobody kissing, touching her
Couldn’t take nobody loving you the way we were
What good would Heaven be
If the angels come for me
I’d tell them no

Oh no, can’t be without my baby
Won’t go, without her I’d go crazy
Oh no, guess Heaven will be waiting
OohOh no, can’t be without my baby
Won’t go, without her I’d go crazy
Oh no, guess Heaven will be waiting
Ooh
Just leave us alone,
leave us alone
Please leave us alone
Michael Jackson

25 Junho 2009

...até ao fim do fim...


Então está tudo dito meu amor
Por favor não penses mais em mim
O que é eterno acabou connosco
É este é o princípio do fim

Mas sempre que te vir eu vou sofrer
E sempre que te ouvir eu vou calar
Cada vez que chegares eu vou fugir
Mas mesmo assim amor eu vou-te amar

Até ao fim do fim eu vou-te amar

Então está tudo dito meu amor
Acaba aqui o que não tinha fim
P'ra ser eterno tudo o que pensamos
Precisava que pensasses mais em mim

P'ra ti pensar a dois é uma prisão
P'ra mim é a única forma de voar
Precisas de agradar a muita gente
Eu por mim só a ti queria agradar

Mas sempre que te vir eu vou sofrer
E sempre que te ouvir eu vou calar
Cada vez que chegares eu vou fugir
Mas mesmo assim amor eu vou-te amar

Até ao fim do fim eu vou-te amar

Fado com Letra de Tozé Brito,

...deixai-me chorar...


...Não tenho conseguido descodificar os dias. Movo-me por instinto e fico à espera que as horas acabem por se cansar mais do que eu e decidam deixar de existir.Sento-me sozinha em espaços que ainda têm pedaços de nós e dou por mim a pedir que me deixem chorar. Só mais um bocadinho... Para ver se acordo ou se passa a culpa por não ter sabido desenhar um sorriso feliz no teu rosto todos os dias...

conversas com c.

...o sítio...

girassóis de sylvio paiva


Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?

Aquela hora certa aquele lugar?

À força de o pensar penso que não

(...)

ruy belo

...Vou dormir...

Ouviste esse barulhinho minimal, essa queda compassadamente morna, desse soluço impávido, que já me não cansa, quase, me embala, de tanto ter já decorado a melodia deste meu pranto?

Sentiste esta atracção gravítica directa ao chão que se me falta, como se fora um tiro fortemente disparado no matrix... em lenta progressão... ferindo esse espaço entre os meus olhos que se apagam ardidos, e os meus pés, que se rendem anestesiados, cansados de rodopiar em voltas absurdas por aí, mudas de te não ter, não te encontrar em qualquer nenhum lugar?

Seguiste o trajecto dessa lágrima, outra, e mais outra, cegas, já secas, num fio esgotado, que de tão grande me arrepiou os pelos, me ensopou as unhas, as contornou, e continuou, como quem procurava desesperadamente uma saída, naquela junta entre estes velhos tacos?

Viste hoje, como acabou mais um dia... sem ti?
Já me não doem os olhos... doí-me tudo...
E agora lembro-me;
São assim, todos os meus dias!
Como queres então que agradeça à vida,
o largar-me a mim, sem estorno, sem medida?!

Vou dormir... sim,
acho que só me resta levitar,
já não acredito que volte a sonhar!

Quem dera, fosse comigo,
e quem sabe em sonhos,
eu reaprendesse a voar... a cá estar!

Quem dera, sonhasses tu comigo,
e quem sabe nos teus sonhos,
eu amanhecesse a acreditar...

E nesse amanhã, que "é outro dia",
eu adormecesse a amar,
e pudesse então... cá ficar!


24 Junho 2009

a oferenda

imagem na net


Aquele tempo em que te procurava...
Por isso
Tanto andei,
Tanto vagueei,
Tanto esforço para encaixar o grande no pequeno,
E o quadrado no redondo.
Esculpindo artes bonitas,
Cópias de um sonho
Que não chegaram jamais à veracidade...
Já me contentava com o congénere,
Quando finalmente nos encontramos.
Meu olhar brilhou e passou
A iluminar nosso caminho.
Meu coração bateu forte,
Seguiu, ritmado, nossos passos.
Nenhuma ameaça existia,
Mas nós nos incumbimos de produzi-la.
As conquistas passaram a ter
Conotação rotineira.
O belo tornou-se vulgar,
As diferenças, interessantes na discrepância,
Foram crescendo e incomodando.
Não te quero mais...
Não com a distância
Nos confundindo
Vou buscar outra promessa,
Que eu possa amar
E que este amor
Produza ameaças
Fabrique certezas
Na oferenda de um corpo se abrindo

...meu anjo...

posso não estar bem
posso morrer de amor
posso morrer de sufoco de estar aqui
sem nada mais poder desatar nesta não vida que me consome

posso querer que tudo exploda
que tudo acabe de uma vez só
de tanto desespero
de tanto que não quero
o que me faz tão mal
ao viver assim

mas tenho ainda um anjo
que olha por mim

só este meu anjo
me consegue fazer sorrir
nestes meus dias que estacionaram
tão longe do meu posto de combustível

só por ele
continuo a viagem
mesmo com o para...arranca...para...
cá vamos indo
ás vezes voando
outras arrastando
e de quando em vez...sorrindo

...pouco...


De você não quero uma única palavra
por menor que seja
destas que cabem num bolso interno
de casaco de inverno
não quero um adjetivo
destes que compram o sorriso
não quero um pronome
dos que anunciam:
pronto
lá vem meu nome
deslizando lingua abaixo

não quero um verbo,
muito menos conjugado no futuro
acenando com o eterno

quero só a esperança prometida no olhar
[se derretendo mudo]
de dias divinos
com trombetas, anjos, fadas querubins,
e você ao centro, nu
dançando só pra mim
Elza Fraga

23 Junho 2009

...amor, amor, amor...


Vou fechar os olhos
e viajar contigo,
em rios e mares
ainda não navegados.

Vou voltar no tempo
e pensar um amor visceral,
poderoso,
que diga de sangue
e de flores.

Flores ensangüentadas
da paixão,
amor terrível,
que perfume o inferno
e peque no paraíso.

Um amor cavalheiresco,
para uma dama que arrisca
tudo, pelo momento maior,
sem dúvidas.

Se necessário, atravessar
os portais da morte,
sem medo,
unos,
para eternizar o indefinido,
pujante,
no amor e na dor,
sem reticências.

Até ao fim,
amor, amor, amor...

E, depois, quero morrer
bêbedo dessas lembranças,
que é melhor
do que nunca tê-las
vivido...
João Costa Filho

...assim é a saudade...


Sempre que a noite chega,
a solidão vem me falar de ti.
E a saudade penetra em meu coração
como um pouco de luar
dentro de minha noite imensa.
Vai deixando aos poucos seu toque magnífico
de beleza e suavidade.
Vai deitando prata nos recantos mais sombrios.
Vai enfeitando de luz as flores mais singelas.
Assim é a saudade.
Consegue transformar em beleza
a tristeza infinita do presente...
porque traz para mim o encanto
das horas mortas do passado.

Alexandre de Sousa

22 Junho 2009

...memória...


A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.

...Suspiro...

Voai, brandos meninos tentadores

Filhos de Vénus, deuses da ternura,
Adoçai-me a saudade amarga e dura,
Levai-me este suspiro aos meus amores:

Dizei-lhe que nasceu dos dissabores

Que influi nos corações a formosura;
Dizei-lhe que é penhor da fé mais pura,
Porção do mais leal dos amadores:

Se o fado para mim sempre mesquinho,
A outro of'rece o bem de que me afasta,
E em ais lhe envia Ulina o seu carinho:

Quando um deles soltar na esfera vasta,
Trazei-o a mim, torcendo-lhe o caminho;
Eu sou tão infeliz, que isso me basta.

...choro e rio...

Coitado! que em um tempo choro e rio
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Duma cousa confio e desconfio.

Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.

Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;

Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!

imagem : desapego de monicaurzuaytier

...este inferno de amar...

"Romance in red" de Alfred Gockel

Este inferno de amar - como eu amo!
-Quem mo pôs n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói
-Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho
-Em que paz tão serena dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

...gaivota...

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
morreria no meu peito
morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill

Amália recuperada
no projecto Hoje
sem dúvida alguma a canção do ano
parabéns à sónia, ao nuno, aos gift e a alcobaça

...já não consigo...


"...já não consigo disfarçar, perante as pessoas sorrir e por dentro vazia pela tua ausência, já não consigo, já não quero mentir, sim estou triste, e não o vou esconder, dói tanto esta tua ausência que nem forças tenho para manter o meu sorriso..."

O que (não) queres...


"...o universo não entende as negações ... se pensares o que não queres atrái-lo da mesma forma que pensares no que queres..."
Segredo

"Metade de mim é amor e a outra metade também"

Oswaldo Montenegro

...A tua ausência sufoca-me...
je

...esperamos...

"Quando se ama alguém, tem-se sempre tempo para essa pessoa.
E se ela não vem ter connosco, nós esperamos.
O verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar.
A vida transforma-se numa estação de comboios e o vento anuncia-nos a chegada antes do alcance do olhar.

O amor não espera... ensina-nos a ver o futuro, a desejá-lo, a organizar tudo para que ele seja possível.

É mais fácil esperar do que desistir.
É mais fácil desejar do que esquecer.
É mais fácil sonhar do que perder.
E para quem vive a sonhar, é muito mais fácil viver.”


In Diário da Tua Ausência
Margarida Rebelo Pinto

21 Junho 2009

apenas um sinal...


Pega a minha mão e leva-me contigo para lá dos olhos,
Segura em mim e atira-me para além do corpo,
Enrola-me nos teus braços e ensina-me a fugir para além de mim...

Diz-me, amor, como se esventra o silêncio que não nos deixa ouvir mais nada,
Diz-me como se percorre o mundo quando não se sabe da estrada,
Diz-me como se bebe o fundo de um retorno que coalha e azeda,
Transformando as recordações brancas numa mancha negra...

Ensina-me a apanhar da beira da estrada as flores murchas.
Ensina-me a extrair delas o aroma que lhes resta.
Ensina-me a esquecer que um dia não foram turvas
As lágrimas que hoje viraram arestas
De um qualquer cubo que já foi esfera
A transbordar de luar...

Lembra-me, amor, que as pétalas de uma pequena flor
Podem ser leito, chama ou até simples odor
Mas que delas emergiu, um dia, a luz, a magia e o amor...
Lembra-me que já deitaste nos meus sonhos
E tocaste as mãos, os lábios, a pele e os ombros
Num vagar de quem só tem pressa de demorar
Para sorver cada lugar de um corpo que se esquece do pudor
e se abandona no espaço de um verbo que ensina a amar...

Agarra-me agora, meu amor, e lança-me por terra,
Trespassa a minha alma num som de guerra...
Ensina-me até a lamentar a vida,
Mas dá-me um sinal, apenas um sinal
Que me deixe erguer a bandeira ou lançar a luz,
Que me deixe gritar que fiquei perdida!...

...tanto de ti...

"A noite não tem braços
Que te impeçam de partir,
Nas sombras do meu quarto
Há mil sonhos por cumprir.

Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento onde te invento, assim.

Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,

Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,

Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti…"

Pedro Abrunhosa

falar de amor

Sabes, tenho medo.
Tenho medo, que um dia destes, alguém tenha a ousadia de me vir falar de amor.
Aquele amor banalizado, de príncipes e princesas, de castelos, tranças e cavalos brancos. Aquele Amor com que toda a gente sonha um dia, e que nunca acontece, mas que grande parte das pessoas, pensa que sim.
Tenho medo que este tiquetaque, em tom de bomba-relógio que em mim escondo, rebente, e te deixe escapar por entre as minhas sílabas danadas, sem ordem, principio nem fim e acorde aí, umas tantas consciências desenganadas pelas arritmias do coração.

Ousar falar-me de amor, depois de ti, parece-me impossível.
Faz-me sentir que, ninguém o conhece como eu.
Que ninguém o viveu como eu.
Que mais ninguém teve o mesmo privilégio que eu tive.
Eu tive-o. E eu tenho-o e guardo-o dentro de mim, quando outros se julgam capazes de saltar fora dele, para dele poderem falar.

Eu não te consigo falar deste amor.
Não consigo saltar fora e racionalizá-lo, nem descrevê-lo na distância de ti.
Parece-me humanamente impossível.
Este amor, não tem outra forma de expressão, que não seja a nossa.
E eu, nem dessa forma consigo falar.
Não o quero dissecar com adjectivos comuns.
Acho que não o merece.
É demasiadamente pouco para este TANTO.

O mais engraçado é que, no fundo, acho que toda a gente que diz que ama, pensa como eu. E no entanto, isso, não deixa de me parecer, simplesmente, IMPOSSÍVEL de ser verdade. Mas as verdades são assim mesmo.
Relativas.
Tal como o Amor.

...como o tempo...

praia de maresias - juliano sodré da nóbrega
Este amor
Tão violento
Tão frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Belo como o dia
E mau como o tempo

Jacques Prévert

20 Junho 2009

...sorri...

a coruja das torres não sabe sorrir
imagem no olhares foto de nuno martinho


Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz...
Charles Chaplin

19 Junho 2009

400


pela 400ª vez, vou clicar aqui, em "publicar mensagem"

desde que por aqui paro
estou talvez, um pouco menos "analfabeta"

pelo menos
de coração
e de alma
vou-me alimentando dos pedaços ocos e recheados de sentimentos
de todos os que vos mostro
além de mim
e que identifico também como se de mim

o que começou por ser um blog-diário, onde vinha apenas registar
pra não me perder, de todos os meus pensamentos poéticos, veio mais tarde a transformar-se num abrigo que me acolhe por inteiro, e onde trago para guardar ou mesmo para me e vos mostrar "coisas" não escritas por mim, mas que me tocam ao ponto de assim o querer...

e pelo meio, apanhei o amor, e neste blog o vou curando...
é a única doença, de que admito morrer
é a única dor que todos os dias (quase todos) e ás vezes aqui (principalmente aqui) me ressuscita

vazia do que amo
vou amando o que me preenche
em recantos que vou descobrindo e partilhando...
e noutros momentos
faço da etiqueta "palavras minhas" este o "meu" espaço, onde me reencontro
apesar do abuso das reticências...

obrigados
a todos os que me fazem continuar a escrever, e a ler

malu

foto de joão dias

...do outro lado...

A voz dele chegou-lhe suave do outro lado da linha.
Do outro lado do amor...
Foi no dia da mesma manhã em que a água lhe pareceu mais fria. Mais áspera a cair na pele nua que as suas mãos apertam na tentativa de reencontrar a sensação das dele. As dele. Que tacteiam agora coisas diferentes, coisas que ela não conhece. Do outro lado da paixão.

A voz dele fez com que ela percorresse outra vez todos os caminhos interiores que conduzem inevitavelmente aquela ternura tão forte que faz chorar. Aquela ternura que se sente poucas vezes numa vida. Do mesmo lado do amor.

Roteiros interiores de estradas humedecidas por lágrimas que ela já não sabe chorar. As que chora agora são diferentes. Não chegam a secar. Ele não está lá para as afastar.
Mas mesmo do outro lado da linha ela sente-lhe o carinho no olhar.
Quase adivinha o sorriso sincero no encontro das duas vozes. Aquele sorriso que gostava de poder guardar em qualquer sítio mais especial do que a simples memória. Do outro lado da vida.

Ela não conseguiu dizer-lhe tudo. Tentou, mas sabe que nunca se consegue dizer tudo.
Ás vezes, como uma criança, atira-se para cima da cama ao som de uma música antiga, e deixa-se ficar a imaginar que ele sabe. Que ele sabe tudo o que ela sente. E que acredita. Do outro lado do sonho.

Custou-lhe lembrar-se que a voz dele ia continuar depois de pousar o auscultador. Não para ela. Mas do outro lado da linha...


...cemitério dos poetas...

















Há pessoas que põem palavras nos nossos sentimentos. Parecem-se com os poetas. Mas, depois de surpresa, abandonam os nossos sonhos pé ante pé ou de pantufas. Não sei... Na verdade, decepcionam-nos (devagarinho) e, quando damos por isso, apagam-se dentro de nós. Deixam de ser preciosas e, por tudo o que valeram, não podem voltar a ser só nossas amigas. Partem, portanto, para uma terra de ninguém, muito distante (...)

Este não sei para onde (eu sei que, dito assim, custa só de pensar) é uma espécie de cemitério de poetas dentro de nós. Um lugar de silêncio que convida a espreitar para o que sentimos. Com surpresa e com dor, ao descobrirmos que, ao contrário do que sempre desejámos, há relações - luminosas - que foram morrendo para nós.

Às vezes, assusta. Afinal, não é simpático descobrirmos que mora em nós alguém que, não sendo o Capitão Gancho, tenha ajudado a morrer (de inanição, por exemplo) quem trouxe poesia, ou luz, ou um insustentável rebuliço ao que sentimos...
Ás vezes, atormenta. Porque magoa descobrirmos que - mesmo quando nos imaginamos a dar a sala mais espaçosa do nosso coração - também nós, dentro de algumas, vivemos sem viver, errantes, nesse não sei onde de alguém, entre os seus amigos e os seus amores.
Ás vezes ainda, somos tocados pelos galenteios da vida e, levados pelo entusiasmo, imaginamos que, se desejarmos com muita força, algumas das pessoas que guardamos no nosso cemitério de poetas ressuscitam e regressam, cheias de luz (...)

Eu sei que também entre as pessoas há quem pareça mágico mas intocável. Como eles. Mas não se esqueça: esse é o cais de embarque que, de surpresa, nos pode levar (sem volta) para o cemitério dos poetas.

...não podes?...

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.

Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação estática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.

Vinicius de Moraes
mensagem à poesia

...chuva de Verão...


Chove torrencialmente no meu pensamento. Chuva azul que lava tudo, pelo menos o mais superficial... E todas cores são intensificadas com água fria, e mudam a cada instante numa infinidade de tonalidades muito parecidas. Não há estrelas visíveis de dia e nem sol de noite que inunde a madrugada do pensamento e apague estas cores de água fria. O brilho de ontem a arder por cima dos nossos corpos esquecidos num qualquer fim de manhã ou tarde... Continuam as imagens a passarem cada vez mais rapidamente, a música, as vozes, a tua voz e a minha antes de se voltarem a perder no vazio. E continua o Iggy Pop insistentemente "...lust for life"... a dar ao longe mas podia ser outra música qualquer. De que se pode fugir se já está tudo dentro de nós? Mesmo antes de sabermos e então depois... Volto a dizer que se ficasses só mais um instante, o seguinte, por exemplo podia contar-te aonde leva esta tortuosa estrada de pensamentos. O fim é sempre muito mais interessante, mesmo que o início da história se tenha perdido algures, numa outra antes desta. Ou terá sido depois??
Quantos instantes iguais a este seriam precisos para preencher o universo de ilusão do qual é feito tão cuidadosamente o tempo??
É preciso que não te percas agora. Nem eu. O horizonte está a tornar-se finalmente mais claro. Chegaremos a tempo? A chuva parou, o pensamento está a tornar-se aos poucos mais nítido.
Um beijo para ti.

...relatividade...

Às vezes criamos pequenos sonhos
em cima de grandes pessoas...
com o passar do tempo descobrimos que ...
grandes são os sonhos e pequenas demais as pessoas ...

...algures...


...algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que eu não posso tocar de tão próximas que estão...
E.E. Cummings

...talvez...



Talvez o mar remasse
melhor os nossos barcos
e o sonho fosse uma noite
de lua-cheia
se a lonjura
consentisse náufragos

Talvez o mar remasse
melhor esta branda tempestade
no desamor incontido de arder
em pleno voo

Eufrázio Filipe
A Linguagem dos Espelhos

...o que dói...


O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos

O que dói
É o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos

O que dói
É tudo mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos
Daniel Faria

...a claridade...


Tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,que eu amava,
quando imaginava que amava.
Era a tua voz que dizia as palavras da vida.

Era o teu rosto, era a tua pele, antes de te conhecer.
Existia nas árvores, nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
José Luís Peixoto

...é tarde...



É um adeus...
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus...

Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.

De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,

Só o pode vencer a humanidade
Da nossa lucidez desencantada.

Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de líquido pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada.

Miguel Torga

...ainda a fome de ti...

Aqui,
onde a mão não alcança o interruptor da vida,
aqui

só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

Aqui,
onde a brancura dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui

a solidão não brilha,
apenas se estorce.

A fome fala através das feridas.
Luís Miguel Nava
Vulcão

La nuit

chagall

La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puis que je le die
Puis que je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.


Paul Eluard

Derniers poèmes d'amour

...imensas e nocturnas...



Portas,

imensas e nocturnas portas,

quando o que desejamos é

um rasgão luminoso.



Mário Rui de Oliveira

O Vento de Noite

...a luz que não sou...


Queria ser luz para poder sentir
a tua alma sôfrega bebê-la...
Queria ser luz para poder dormir
vibrando e ardendo como aquela estrela...
Se eu fosse luz iria descobrir
mais oceano ainda a cada vela;
como os olhos das águias a fulgir
seguiria nas noites de procela...
Ser luz para doirar toda a miséria,
talhar em jóias as pedras dos caminhos,
florir as almas, acordar os ninhos...
Quando beijo a chorar a noite etérea
do teu olhar, amor, a minha cruz
é esta sede imensa de ser luz!
António Patrício
Poesia Completa

18 Junho 2009

...Premonição...

e...se eu pudesse escrever-te assim ...

Durante muito tempo, vim aqui para falar de Amor , um imenso , puro e imperdivel Amor.

Falei dele com carinho, com doçura , muitas vezes com dor e desespero . A situação que durante quase 3 anos vivi , não foi uma opção como muitos poderão pensar , julgando-me. Foi uma inevitabilidade . Existem pessoas , existem amores de que não se pode fugir . Existem momentos na vida que de alguma maneira nos esperam , que esperam que façamos o melhor possível . Existem momentos , amores, pessoas que podem mudar a vida inteira . Que estão lá para isso mesmo .

Fiz o melhor que pude , que soube. Ele fez o mesmo . Apenas existia uma certeza incontornável : Não nos podíamos perder . O resto, era um mistério , era esperar que a vida ou Deus , fizessem o melhor possível por nós .
Vivi uma situação condenável ? Sim, mas nunca maldosa, de má fé, nunca suja . Amei este homem com todas as minhas forças e acreditei , com muito medo de acreditar , que o Amor poderia vencer todos os medos . Chorei muito . Quantas vezes adormeci exausta pelas lágrimas.

Posso hoje dizer que fui muito amada . Que amei em igual medida . Que mil vezes me questionei acerca do que estava a pedir a este homem . Do que ele próprio estava a pedir à vida . Teria eu o direito ? Teria ele o direito? No fim, ambos fizemos o que sentimos .

Não foi um processo pacifico . Foi antes uma sucessão de acontecimentos extremamente penosa e ninguém deu pulos de alegria quando tudo se consumou . Se vim aqui escrever que o Amor venceu foi só porque o senti verdadeiramente . Mas o Amor teve um árduo percurso de lágrimas, de medo , de um tormento que poucos saberão avaliar . No fim, sim , venceu . Aliás , está a vencer todos os dias …

Devagar, muito devagar , o amor foi como uma brisa, um vento muito quieto , que se apoderou de lugares e tempos , que foi abrindo janelas e portas tão fechadas e deixou entrar a VIDA.
Devagar , fomos criando a certeza de que o único caminho era este , de que a única alternativa era a escolha séria e definitiva de uma outra vida e de todos os sonhos . Não grandes sonhos , apenas este de estar aqui a escrever e ao meu lado sentir a respiração serena do homem que amo , de estender a mão e tocar-lhe , de saber que nos lábios dele se desenha imediatamente o mais lindo sorriso .

Olho para ele e penso em tudo o que deixou para estar aqui . Não se apaga uma vida inteira , não se fecha uma porta e se esquece o que fica do lado de lá . Quando veio para mim, existiam tantos destroços que temi perder-me , existiam tantas lágrimas no seu rosto que achei que não poderia estar à altura de tantas perdas. Não sabia o que fazer senão amá-lo, abraçá-lo, pedir-lhe que me deixasse amá-lo …

O Amor venceu por muitas razões . Não só porque eu existia . Eu era uma destino mas entre esse destino e todos os acontecimentos dos últimos tempos , muitas razões se diluíram para hoje estarmos juntos . Por vezes, um casamento é apenas o nome que se dá a duas pessoas que já nem falam , que já não se conhecem, onde o Amor já faliu há muito tempo , onde nem um único gesto de carinho ou de reconhecimento é feito em direcção ao outro . Por vezes um casamento é apenas o suceder vazio dos dias ou o barulho a rodear um silencio incomodo . Hoje sei que mesmo que eu não existisse , o fim viria . Não o digo para me inocentar ou para me sentir melhor. Este homem que amo infinitamente talvez nunca tivesse tido a noção exacta do que é ser honestamente amado, querido , desejado. Encontrarmo-nos foi a aprendizagem de um mundo novo , onde eu aprendi a amar e ele a ser amado , onde sou amada e amo , sem limites, sem medos , sem medida , sem jogos .
Pertencemo-nos . Certeza tão evidente há tanto tempo .

Hoje ele está aqui . Todas as noites adormecemos abraçados . Por vezes, antes de adormecer , naquele pequeno momento em que o sono se mistura com a realidade já quase a vencê-la, ainda abro os olhos a medo para o redescobrir a meu lado , mas temendo que tudo não passe de um sonho , que ainda esteja sozinha na minha cama , longe daqui e dele . Mas acordo e ele está a abraçar-me e a sorrir e sei então que este sim é o sonho , o único pelo qual valeria a pena arriscar uma vida inteira .
Existe uma paz infinita no nosso abraço , uma certeza tranquila de saber que agora sim , vivemos . Olho para o meu lado e sorrio . Como posso não o fazer ?... Tenho ao meu lado o Grande Amor da minha vida e esse é um privilégio infinito .
Onde existir um grande Amor, existirão sempre milagres . Gosto muito desta frase . Já a escrevi mais que uma vez aqui . Sempre acreditei nela . O meu milagre , devo-o ao homem maravilhoso que amo e a quem nunca me cansarei de elogiar . Quantos fugiriam ao ver o Amor tomar o lugar de uma vida talvez vazia de sentimentos, mas segura ? Quantos não acreditariam ? Quantos não arriscariam ? Mas este homem tão bonito disse que é possível disse para ter calma e acreditar. Nunca largou a minha mão mesmo quando tudo era sombrio Amou-me sem duvidas e condições . Existiu durante todos os dias da minha vida depois do primeiro dia em que veio até mim . Foi a minha vida … É a minha vida…

Obrigada por todo o carinho que recebo . As pessoas que estão desse lado e de quem aprendi a gostar mesmo sem saber quem são , têm tido por mim um respeito e um carinho que me comove . Por isso , achei necessária esta breve explicação . Por isso , hoje escrevi para vós apenas . Eu vou continuar por aqui , não há diferença no Amor que sinto . Apenas o Até já adquiriu agora a sua verdadeira dimensão de brevidade .

Deixa-me tocar-te


"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...Ou toca, ou não toca."

C. Lispector

imagem de manecas na net

ama-me nômade

Livre de laços
Sou estátua de limo
Em plena ilha no espaço
Deixo restos entre espinhos

Nesta insônia insólita
Insinuo-me entre juncos
Onde a luz é órbita do olho,
E o cheiro pergunta ao nariz

Se as paredes são lisas
Como carne e linho,
Para existir, repiso
-Sistere - ex -

Insisto nas entrelinhas
Volto raízes ao céu
E flutuo, em treva branca
Em mim, há um cosmo ínfimo,
Cidade quase caos aos trancos

Peço em silêncio, crestado ao relento
Úmido à beira-mar, mofada por um triz:
Ama-me a seco, íntimo, feito nômade do deserto

Depois, adormeco meu semblante

Feito morta, por horas, volto louca,
Outrem sob seu olhar, prometo brincar
Sem Sartre L'être nem Néant
Beatriz M. Moura

nem sequer desespero...

Não me caias nunca
Não te precipites
Mesmo que isso
Mesmo que te queiras
Não te atires
Fica

Tenho a alma presa
Em bocados
Rota

A cabeça tonta
Revoltam-se-me as tripas
E nem é desgosto
O que sinto é raiva

E esta tristeza
Esta dor contida
Esta água funda
Este imenso abismo

um silêncio surdo

um vazio

17 Junho 2009

...intensamente breve...

Alinhar à direita

É dentro da cabeça, lá dentro,
que o tempo nos consome e nos faz falta.
...
Por isso, é dentro da cabeça, cá dentro,
para lá dos céus, antes que o mar termine,
nesta imensa confusão de meridianos
que nos dói e nos deslumbra,
que se aloja o segredo indecifrável:
a cor, o som, a luz que nos conforta,
neste intensamente breve instante
que é o tempo que nos cabe.


António Mega Ferreira

...Nunca mais...


amo-te demais para merecer isto:

"nunca mais"

é daquelas coisas

que nunca pensei vir a assimilar...

trata-se de um adeus-ó-vai-te-embora

sem nexo, oco de tudo...

nunca mais quero sentir-me assim,

"nunca mais"

Passa a ser uma expressão que me ensinaste...

e doeu demais tatua-la em mim assim:

não voltes,

nunca mais...


...Era só isso...


Era só isso. Um atrasar de passo, que os teus são mais longos que os meus, um parares ao pé de mim, exactamente ali, naquela esquina. E, sem eu te dizer, perceberes porquê. Tu saberes que eu não resisto ao apelo da terra, tu entenderes que eu preciso de parar para absorver as coisas, para as tornar minhas. Saberes que preciso de ir devagar para levar os cheiros, as cores, os gestos, os pormenores comigo. Tu saberes que me demoro a olhar a sombra do meu pé antes de o pousar no chão, a contar com os olhos os tufos de flores rebeldes no relvado cuidado do jardim, elas que se recusam a não florir ali, e que são como eu, que não me resigno. Tu saberes qual é a minha cor de céu preferida e que é aquela do fim do dia, um azul meio turquesa, meio petróleo, e Vénus a piscar para mim, às vezes a lua já a espreitar. Tu saberes que gosto do teu braço à minha volta, e de encostar a cabeça a ti enquanto caminhamos. E tu parares comigo ali, naquela esquina, de uma rua qualquer, a sentir o primeiro cheiro da primavera num fim de tarde de Março, para o levarmos connosco para casa. A nossa casa. Era só isso, era só isso que eu queria.
Rosmaninho
2006-03-14

Esquece-me

Ama-me ou Esquece-me...


Esquece-me!
Enterra-me no teu coração
junto a tudo o resto que está morto,
mas leva-me flores de vez em quando,
fala comigo quando quiseres,
quando sentires saudade...
...ajoelha-te no mármore frio da minha campa,
desliza os dedos na minha foto esmorecida,
põe um lírio pálido sobre mim,
verte uma lagrima
e parte de novo...
volta para a tua vida...
deixa-me aqui onde pertenço...
numa outra vida,
num outro tempo,
antes do nosso adeus,
antes de teres partido...
antes...
enterra-me no teu coração...
esquece-me!
Eu já morri para ti
e os mortos não amam,
são apenas recordações
a quem levamos flores de vez em quando...
esquece-me!

João Natal
02/05/03

citado por Nuno Branco


16 Junho 2009

...até breve...


-Então, ... e a Catarina pá?!...já viste?!
-O quê...? Qual Catarina?
-A Catarina que morava ao nosso lado...matou-se ontem...vai ser enterrada agora, ainda não ouviste?!
-Não, mas espera...a Catarina?!... Eu que já não a via há tanto tempo!...Mas isso foi lá em casa...como é que ela fez isso?
-Não, não sei pá...acho que não foi lá, sei que se matou ontem, acho que em casa de um tio, ou o que é que foi... Que cena pá... e com um bebé de dois meses, já viste...aquela rapariga?
- Coitada...! Não imaginava, mas ela tinha um bebé?!
- Sim, nasceu agora...
-Vê lá tu que nunca me cruzei com ela grávida... Mas olha que, passei no cemitério ainda há pouco e via a foto, vi que era uma rapariga nova, e não a reconheci do carro... Coitada da Catarina!...Que notícia de Merda!

Pois é...que notícia de Merda!!!
Eu e o Aleixo...vivemos alguns anos lado a lado com a Catarina, seja no mesmo prédio, no mesmo piso.. no 3º andar do 54 da Rua Costa Veiga na cidade... , e da Catarina pouco sabíamos...a não ser que não tinha uma "grande" vida, há muito tempo.

Mas tinha um bebé...pensei eu! Pensam todos os outros... Mas mais do que pena, tenho um certo alívio pela Catarina. Nunca a vi Feliz no olhar... Tinha menos 2 anos que eu, e apesar de nunca termos andado juntas nem na escola nem na farra, há olhares que se reconhecem.

A todos os que a amaram, coragem...para enfrentar a vida sem ela e cuidar do seu rebento...

A ela, um sinal de respeito, pela coragem.

Não entendo o suicídio como um acto de egoísmo, ou desespero puros.
São sempre desfechos matizados de outras nuances que envolvem, muita infelicidade e tortura acumulada, e muita pesagem anterior... Apenas como um ponto final, numa historia onde ninguém é culpado, nem o próprio suicida, nem os que o envolveram ou não antes do acto, desde muito antes, ou num só acto "gota de Água".

É triste e pesaroso sim, e muito cruel pra quem fica, mas há atitudes, bem mais condenáveis, por um ponto de vista experiencial...

Paz à sua alma...

...assalto à correspondência...


Caro Sebastião…

Não sei qual foi o mal que me bateu a porta nem de onde vem ele, mas é um tanto sinistro…
A uns dias para cá, a melancolia tem me trancado no quarto, não tenho saído dele, estou como doente mas para a minha doença também não a remédio…
Diria que tudo perdeu a cor e o encanto, é o tédio que me consome neste momento.
Ate escrevo no escuro para não ver mais palavras…
Nunca mais vi Raquel…e o tempo ficou mais frio, sabes o quanto sou fraquinho!
As cores tornavam-se monótonas, os sons tornavam-me aos poucos surdos. E a minha animação desfalecia...
Desculpa-me meu amigo, por não te dar novidades a longos dias, mas acredita não me sinto bem…
A dona Lurdes já não sabe o que fazer, é uma mulher incrível preocupada e muito dedicada, ate tem trazido o seu violino, e todos os dias depois de servir o pequeno-almoço no condomínio tenho direito a uma hora de doce música.
Fico com o coração entorpecido, ai Raquel…será que lhe aconteceu alguma coisa?
Espero que por ai as coisas estejam melhores.
Se Maria voltou a andar é de certo porque o sol e a tua companhia aquecem mais…
Obrigado meu amigo, obrigado por todas as cartas e todos os momentos passados são a única luz neste meu espírito desarrumado.
Cada noticia tua soa-me como um novo recomeço…

Um abraço
Leonardo Constantinoviche
citado por

7 de junho 1918


...Vacilando...

Por algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo principio ou pelo fim. É preciso aprender a nos esquecer de nós mesmo para não doer tanto quando abrir os olhos. O meu pensamento, não tenho certeza se está em mim, ou em outra parte de você. Talvez eu só precisasse te contar meus segredos, parar de correr em círculos ou gritar o silêncio. O que eu preciso é te encontrar.
Justificar completamenteNa próxima vida vou escrever menor e mais depressa, para as lembranças poderem fugir. Muitas coisas se dizem que não deveriam ser ditas. Ninguém disse que seria fácil. Mas estas coisas subentendem-se e não se dizem por ociosas. Algumas delas faço de minhas palavras, com gosto de poema. Porém, meus versos é sangue. Eu escrevo como quem morre. Porque eu sei que mesmo depois de tudo, algum dia ele encontrará aqui todas as coisas que não tive tempo de lhe dizer. Por falta de presença e por excesso de ausências. Há quem diga que foi de amor.
Sei que as pessoas não levam flores, mas pedras. Calado, me diga se devo ir embora. E se o mundo tiver razão, o problema é meu. Porque afinal este mundo tal como está, me faz pensar em largá-lo.
E com todos esses vacilos de alguém que viu tudo se transformar em cacos, afirmo que aprendi que não existem mortes, mas a vida que sai de dentro da vida. O amor que não morre, mas adormece. E apesar de todo o esforço do homem, ele nunca encontrará a morte absoluta. A não ser que deixe de amar.

vacilos póstumos
desabafados por arcanjo

...vivo...


"Tudo o que morre fica vivo na lembrança.
Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça"

Biquíni Cavadão

...voando...


O meu rumo é tão incerto como a certeza do infinito
e levo as palavras que vós abandonastes
no sortilégio das ondas.
só porque vos recusais ao vento,
o meu insano grito é escuro silêncio
nos ouvidos pecadores.
o meu destino não é, salvo
o ter sido
e aparto-me das admirações conservadoras
com que quereis repristinar o antigo.
gasto os últimos alicerces
para burilar plumas de Ícaro
e poder ver-vos,
na trôpega glória do mundano,
desde os guindastes das pontes.
sei não chegar mais alto
que os badalos dos sinos,
preso nas recordações
que me carregam o fardo.
quem dera ser leve!
voar
e só lançar a mão
aos que nunca me conquistaram.

14 Junho 2009

Escuro...

...no escuro...
imagem retirada do blog reticências poéticas
Às vezes, felizmente poucas, fica-se no espaço entre. Tudo interrompido em estatuária: o corpo no mundo, corpo nosso também, a vida no tempo, passado e futuro. Nem é tanto de não se saber dar o passo seguinte - esse virá naturalmente com o balanço do passo anterior suspendido no entre, retomado depois quando o devolvimento do mármore às pedreiras e da temperatura ao sangue. Às vezes, felizmente poucas, interrompe-se as ligações, não há a viagem da luz nas ligações, faz-se um escuro sináptico como a noite.

12 Junho 2009

...cara dor...


Queria dizer que te amo como quem escreve uma notícia. Que. Te. Amo. Concisa e telegraficamente, como um óbito de pé de página, uma errata que pedisse desculpa, onde se lê deve ler-se, ou os resultados do totoloto. Queria contar a nossa história em duas linhas ou três, sem descrições polissilábicas ou excessos adverbiais; sem modo, lugar nem quando (até porque o nós somos só eu, sempre sem sair do lugar). Umas vírgulas, um ponto final e nada de exclamações, pois nunca o meu amor alguma vez te surpreendeu. Queria despachar-nos em três penadas, nuns rabiscos, num rascunho, com o traço grosso e grosseiro e, com o mínimo indispensável, subentender-te o sujeito, sem complementos nem predicados. Queria dizer que te amo sob a forma de uma ressalva, uma nota de rodapé, uma remissão para o índice ou uma nota do tradutor. E centrifugar as palavras, que são as muletas linguísticas que me amparam o sentimento, espremendo-lhes a adjectivação, os floreados e as figuras de estilo. Queria dizer que te amo e fazer, a propósito e quanto muito, analogias simples com elementos campestres, belos e unívocos, aligeirando assim o peso lexical que carrego e que disfarça o facto de a dor não carecer de outra explicação que o não te poder tocar. A dor traduz-se em poucas palavras e às vezes em nenhuma: quando se basta com um suspiro, com uns olhos que vagueiam por cima das coisas, mareando, ou com um nó górdio à boca do estômago. Mas a minha, como um herói do futebol moderno ou uma cantora pimba, é fiteira, chorona e queixinhas, enfeita-se com brilhos de mau gosto, gosta de dar nas vistas e faz-se pagar cara.

escrito por a. n` um amor atrevido

...recomeço...

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento...
...
amanhã
alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir
ao teu encontro.

Teresa Balté

11 Junho 2009

...a viagem é maior...

imagem na net no blog acaixa

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de que, nem eu sei.
Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a viagem é maior indo sozinho
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a descansar, eu descansei...
Na venda onde poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário,
Corta os pés como a rocha de um calvário,
E queima como a areia!...
Foi no entanto
Que choramos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Camilo Pessanha

...Há quanto tempo...


Eu sei que esperar em vão dói mais do que ouvir um não,
Sim é pior do que viver numa ilusão
É ter um vazio que nos enche até ao fim da escuridão
Eu sei que sonhar em vão é mais cruel do que a dor
É como o fogo que consome o próprio amor
Assim queimando as cinzas de um sonho bom, que ficou para trás...

Há quanto tempo eu espero
Há quanto tempo eu estou aqui
Há quanto tempo eu choro
Há quanto tempo não sei de ti
Há quanto tempo eu grito
Há quanto tempo eu penso em ti
Mesmo que a razão seja mais do que sempre foi para mim

Eu sei que o futuro está presente longe de mais
Sim continuar a procurar não adianta mais
Assim prefiro que o tempo encontre alguém, alguém por mim...

Adelaide Ferreira

tédio


Não vivo, mal vegeto, duro apenas,
Vazio dos sentidos, porque existo;
Não tenho infelizmente sequer penas
E o meu mal é ser (alheio Cristo)
Nestas horas doridas e serenas
Completamente consciente disso.


Fernando Pessoa
12-5-1910


...Beijo...

"um beijo de saudade"
tecn.mista s/tela
2008
maria joão
franco
Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.

Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Pedro Abrunhosa

...Eterno...


Quero que gostes de Pina Baush, ou até já nem gostes,
queiras mais queiras diferente;
que gostes da cor e do risco forte de Miró
e do canto desiludido e fundo de Ferré;
quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidade
do grande bruto grande e do pequeno sensível e pequeno;
quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes representes a cortesã mais lassa para mim;
quero-te com mãos de pedra e de veludo;
quero que ames o chique e a Serra d´Aire
- mais o safari que a recepção,
quero que mores e sofras nas páginas de Guido Crepax
e que te irrites com a perfeição absoluta de um retrato de Medina
quero que, se possível vivas dentro do anúncio do Martini
felina e ondulante numa ilha tropical
quero que sejas capaz de divertir-te, de soltar uma ampla gargalhada,
ante o espectáculo ridículo e obsceno de um homem de Quinhentos
a quem atribuíssem um número de contribuinte
quero que ames o longe e a miragem, como o Régio
e que sejas louca e sábia
que tenhas lábios e mordas,
língua e sorvas, sexo e sexes, salto e saltes, riso e rias,
sorvedouro inteiro de vida, arrepio de garça, sacudir de cisne,
passos de corsa, graça de arlequim,
pose de Diva, corpo de areia e luz.
E quero que me dês, me dês muito, que me dês tudo,
e que abras as janelas de par em par ao Tejo
e fecundes um poema em cada gesto
e voes como a gaivota em cada espreguiçar
e partas para a Índia em cada cacilheiro
e que sejas, mores, vivas e creias
longe
muito longe daqui...

quero que sejas profundamente minha e ritual
obsessiva e lúcida, doente, febril, tremendo de desejo
disposta a tudo e a mais e a muito mais,
boca de Mundo, seios de Mármore, corpo de Alfazema
e sobretudo Mulher e sobretudo amante.
Se existires assim, nua, inteira, absoluta e pessoal
responde-me
que eu fico aqui, eterno, à tua espera.

Pedro Barroso

...ácido...


Saudade é como ácido: corrói...

fátima abreu

tu me manque



Faz-me falta acreditar...

Acreditei, quando de cada vez que o meu coração desassossegava, tu dizias...meu amor...eu estou aqui... pergunta-me tudo o que te inquieta, que estarei sempre aqui, para te responder...a tudo...!

Que ingenuidade a minha, não ?!

10 Junho 2009

...uma a uma...


Calo a custo
as palavras que me falam de ti:
agarro-as uma a uma,
com todo o cuidado,
antes que se amontoem,
e reduzo-as a silêncio,
uma e outra vez.


Luís Ene

...tu pra mim...

...este texto fez-me lembrar de ti e ao lembrar de ti fez-me sorrir... adorei, porque estava muito a precisar... vai daí...decidi roubar...
Ele é especial. Não dá para escrever, não dá para pôr em palavras. Ele tem um sorriso lindo, um perfume fabuloso e um corpo quentinho. Ele dá-me miminhos, protege-me no seu abraço e aquece-me o coração. Por causa dele já tive arrepios, já me senti insegura e já fiquei nervosa. Ele já me fez a melhor surpresa do mundo, já me deu beijinhos e fez carinhos e faz-me sentir muito feliz. Por ele já tive o coração a bater desenfreadamente, já senti borboletas na barriga e pensei até gritar de emoção. Ele é o meu amor.

...um ao outro...


Estamos sós
e tão sós,
e vamo-nos matando um ao outro,
em silêncio.

(...)

E se não escrever o teu nome
como direi a alegria ao mundo?


Daniel Faria
citado por margarida

...apenas...


Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras momento.
Palavras, palavras.
Palavras ao vento...

marisa monte

...faz-me arrepender...

imagem de Orfeu Brocco na net

Liberta-me deste sonho onde me prendes.
Solta-me as asas e deixa-me voar para longe de ti.
Dá-me a liberdade que me roubaste fazendo-me amar-te assim…

Chega de dores miudinhas que machucam meu coração.
Chega de afagos nesta alma sofrida.
Provoca uma dor maior, intolerável e faz-me odiar cada instante contigo…

Queima as últimas esperanças, destrói todas as ilusões.
Faz com que cada palavra tua seja uma ferida profunda
e de cada cicatriz uma marca para a vida…

Faz-me arrepender deste sentimento que tanto me fez sorrir
e apaga do meu pensamento tudo aquilo que quis ser
…e nunca fui…

Liberta-me…de ti…de mim… e deste amor!


Mas no fim, permanece em mim…
porque sem ti já não sei viver…já não sei amar…

madalena

...Saio...


Não me hospedo mais, não cobro minhas visitas.

Saio de mim e levo a chave, volto quando quero.

Sou mais minha do que nunca.


Ver ( damanhecer )

...viver...

... mas é doce morrer nesse mar de lembrar e nunca esquecer.
Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria.
Isso pra mim é viver....

Linha do equador, Djavan

...Desvio...


Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Desde teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda

...não tinha que ser...


Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez a porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Alberto Caeiro

...coragens...


Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo,
E esse medo infantil de ter pequenas coragens.

Vinicius de Moraes

...desisto...da alma...

Visto-me no silencio em que a alma se calou…

Desisto desse amor que um dia nasceu…

Não é de ti que me afasto nem do tempo que passou…

É deste sentir que em ti, não viveu…


Escrito da alma

Imagem da net
no blog
reticências poéticas

...hoje não...

imagem "Nuit" publicada por madalena
"Talvez um dia nós nos encontremos na rua e eu aceite a sua mão estendida e seu abraço caloroso. Talvez, então, você me mostre a foto do seu filho e eu comente que ele é lindo. Talvez, talvez, nos sentemos naquele boteco e possamos rir das nossas trepadas, e relembremos os velhos-bons-tempos-que-não-voltam-mais. Talvez eu chore um pouco de saudades daquela época e relembre o nome de todo mundo da turma, e possamos listar quem criou barriga, quem tem emprego público, quem come a empregada, quem embichou. Talvez só as boas recordações me assaltem. Pode ser que, então, eu já tenha esquecido as dores, que as mágoas sejam só lembranças e que seu rosto não me assombre mais. Talvez eu já não chore mais debaixo do chuveiro. Talvez eu passe a mão pelo seu rosto e meus olhos sorriam e nós possamos nos despedir prometendo contato, trocando emails e jurando encontros familiares em breve.

Talvez, algum dia. Hoje não. Hoje eu quero que você vá pra puta que o pariu."

Fal Azevedo

...essa noite...

foto de Graça Loureiro

"Eu tento te esquecer. Mas tudo que eu escrevo. É sobre você. Eu não posso me enganar. Fingir que estou bem. Porque não estou. Preciso de você. Preciso de você. Essa noite. E hoje estou aqui. Só pra te cobrar. O que você disse. Que iria ser pra sempre. Mas não foi assim. Agora o que me resta. Escrever nessa carta. Pra lembrar. Eu passo tanto tempo. Só te procurando. Em um outro alguém. Mas não posso me enganar. Sinto sua falta. E ninguém pode ver. Preciso de você. Preciso de você. Essa noite".

(Diego Ferrero / Leandro Rocha)
Nx Zero

08 Junho 2009

... enfim...outra vez...


Ela não podia insinuar, nem pedir abraço, não podia tocar, muito menos reclamar. Ele não diria que estava ferido, até fingia que quase não doía, e ela fingia que quase não machucava. Não se diziam nada, fechavam os olhos e deitavam um sobre o outro e ouviam o barulho do vento, fingiam dormir para enfim sonharem.
E sonharam o mesmo sonho. Não tinha hematomas, sufoco, dor, aperto no peito, nem coração exposto, estava tudo bem, enfim, outra vez.

...ferida....


Da carta que não chegou às tuas mãos, ficou um passado memorável.
Nela constavam os pequenos episódios que vivemos juntos.
Rasguei-a junto ao rio, fiquei a olhar os pedaços de papel
serem absorvidos pelas águas turvas.
A tentativa de apagar finalmente o nosso passado.
Dirias que não havia necessidade, dirias que o que vivêramos
não valia assim tanto, nem mesmo três folhas escritas
com o coração nas mãos, a arder.
Eu sorriria diante de ti como alguém que morresse.
Despiria as roupas e lançar-me-ia na corrente fria.
Tentaria recuperar o que conseguisse, pedaço a pedaço, até afogar-me de vez.

Só existem duas razões para mexer numa ferida.
Curá-la, ou abri-la ainda mais.

Fernando M. Dinis

_%

imagem na net

você disse some

e eu somei


eu disse some

e você sumiu


marcos caiado

...às vezes...

Ainda gostas de mim? perguntas-me tu sempre...
Às vezes!.. respondo-te sempre...


imagem Carlos Guimarães/MuseuAlmas
Às vezes tu me habitas como ruídos a uma casa,
como marcas a um rosto que por elas se define
e te lembrar é voltar ao que há de mais meu em mim mesma, à parte de mim mesma que me revela e me assombra.

Às vezes eu quase te esqueço,
quase te perco
e quase sou completamente triste
e quase sou completamente outra
sem a interrogação onipresente dos teus olhos,
sem a incompreensão cúmplice da tua voz.

Estás em mim e não há nada a fazer,
mesmo a meio da noite,
quando és um vazio cheio de pontas,
mesmo a meio da frase,
quando és um gole de ar no lugar do teu nome.

Tu és meu porque de ti sou feita
e negar-te a mim seria parir-me ao contrário.

Aceito assim meu ofício de habitar-me tu -
ainda que a mim nunca regresses,
mesmo que de mim jamais tenhas partido.

Ticcia

...Porque...


Foi quando tu chegaste que descobri meu solo e minha pátria, que deixei o exílio e dei um nome à terra de que sou feita. Porque tu tens uns olhos que se perderam no mar e voltaram depois das tempestades com a dor de quem mais uma vez pôde ser salvo. Porque teus braços me resgataram, neles desfiz minhas fronteiras e me tornei contigo um mesmo horizonte que junta infinitos de céu e água. Porque tua voz me conta coisas outras enquanto falas e tu sabes o que eu ouço e não temes que eu saiba sobre todos os teus medos. Porque tu dizes meu nome de olhos fechados, afundado em minha carne e a noite toda lateja dentro de mim e o ruído do mundo cessa para que eu possa me lembrar só da tua voz dizendo o meu nome longe de todas as coisas. Porque tuas mãos falam a língua da minha pele e enfeitam meus cabelos de pequenas conchas e musgos para que eu encontre os sentidos que eu supunha naufragados para sempre. Porque eu já não poderia me entregar a mais ninguém sem voltar a ser estrangeira em mim mesma, sem ser de novo uma estranha atrás de meus próprios olhos, sem desertar para sempre do meu corpo.

...Acompanhar-te...

túnel - s.Martinho do porto
foto de Dias dos Reis no pbase

Atravessei contigo a minuciosa tarde
Deste-me a tua mão,

A vida parecia difícil de estabelecer
Acima do muro alto folhas tremiam
Ao invisível peso mais forte.

Podia morrer por uma só dessas coisas
Que trazemos sem que possam ser ditas:

Astros cruzam-se numa velocidade que apavora
Inamovíveis glaciares por fim se deslocam,

E na única forma que tem de acompanhar-te
O meu coração bate...

Tolentino de Mendonça

07 Junho 2009

... fica comigo...


fica comigo peço
mas tu não me ouves


e eu sei que vou voltar a esperar por ti

na vida que me resta

e em todas as vidas
e em todas as mortes


até ao dia em que definitivamente

despeças o teu corpo do meu
e eu repita
fica comigo

e tu
desapareças
como quem esteve só à espera

de ventos favoráveis

Alice Vieira

...Como se o amor acabasse...

Imagem `amor eterno´ no blog deslimites do ser

Falo contigo:
e tu ouves-me, não me ouvindo, como eu te ouço
sem saber se é o que eu quero ouvir que vem das tuas frases,
ou se dizes o contrário do que sentes
para que eu sinta a verdade do que nenhum de nós sente …
Como se o amor acabasse no meio do que não começou;
ou a distância pudesse apagar o que não tem fim.

Nuno Júdice,
A Cartografia de Emoções

...Cobiça...

Foto de maluvik


Saber:
despertencer...

Nos aferramos a este mundo
como moluscos ao casco da barca...

Aprender o perder...
quando e como soltar...
deixar estar...

/

Eu,
que me deleitava com migalhas,
Hoje
cobiço a padaria.


Lavínia Saad

....inteira...

foto de maluvik
Eu aprendi com a primavera
a me deixar cortar
e voltar sempre inteira

Cecília Meireles

desfiaste-me por completo
e voltei ao novelo
Alinhar à direitacomo que intocável

( é o que se vê )


...Coração entreaberto...

imagem em http://olhares.aeiou.pt/maluvik


nunca me disseste para esperar por ti
e embora me deixes presa
deixas sempre a porta aberta para eu sair
sair da tua vida, onde nunca entrei
e viver a minha vida lá fora
onde não sei estar
onde não sei mais ir
depois de tanto tempo aqui fechada
prisioneira deste amor
que não me larga
e do qual nunca aprendi a me despedir
...

porquê me fazes sempre isto?
...é sempre como acordar um sonâmbulo
esse teu até breve, que mais parece até nunca mais...

"o amor não morre, adormece, para acordar mais belo"

e dói incomensuravelmente este pesadelo
de cada despertar sem ti, de cada "não esperes" teu
a cada dia meu

os outros não são dias, não contam
e são eternos, demoram tanto
os teus dias

chegará um dia...o nosso dia?


...quelque chose... chocolat...


o doce que eu mais gosto

chocolate

e quando me lembro do melhor
lembro-me de ti

imagem na net
in olhares



"there are worse things than being alone but it often takes decades to realize this; and most often, when you do, it's too late, and there's nothing worse than too late"

(Charles Bukowski )

há coisas piores do que a solidão mas geralmente leva-se décadas para entender isso. E, mais, quando se consegue, já é tarde demais, e não há nada pior do que tarde demais.

...Estranho...

http://olhares.aeiou.pt/maluvik

O amor é um lugar estranho
disso todos sabemos...

mas, será que está fechado?
algo me escapa aqui!!!

sempre achei que não era deste lugar...


...o pintor morreu...

imagem retirada da net no blog lua africana

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada à covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação

Zec`Afonso



...Sou de outras coisas...

foto de marta luis em www.olhares.aeiou.pt


Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade

Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega

Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero

Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente

Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia.

Fernando Tordo

...o amanhã...


Pinta-me o amanhã
por favor...

...que hoje
foi tão cinzento...!



"...todas as histórias têm um final feliz:
se a nossa não teve, é porque ainda não acabou..."


imagem retirada da net em http://olhares.aeiou.pt/maluvik

...Onde...


Quanto tempo passa,
Quanto tempo tenho,
Quanto tempo fica p’ra te dar.
Quanto tempo vais,
Quanto tempo ficas longe,
Quanto tempo tenho para te dar mais?
Por quanto tempo partes,
Quanto tempo levas,
Quanto tempo deixas o teu corpo em mim?
Quanto tempo pedes,
Quanto tempo guardas,
Quanto tempo temos, quando o tempo chega ao fim?
"onde te vais esconder ?"
Pedro Abrunhosa


05 Junho 2009

...Pressinto...


Estás partindo de mim
e eu pressinto que me partes,
e partindo, em ti me vais levando,
como eu que fico
e em mim vou te criando.

Tanto mais tu me despedes e te alongas,
tanto mais em mim vou te buscando
e me alongando,
tanto mais em mim vou te compondo
e com a lembrança de teu ser me conformando.

Estás partindo de mim e eu pressinto na verdade,
há muito que partias,
há muito que eu consinto
que tu partas como um mito...


Affonso Romano de Sant'Anna

...Necessito...


Nada garante que tu existas.

Näo acredito que tu existas.

Só necessito que tu existas.


David Mouräo Ferreira

...Não se vê...

hands off - Dalí

Não digo que te amei por ter possuído o teu corpo, mas sim por ter roçado a tua alma.

Se pudesse estar apenas perto de ti, a ouvir a tua voz e a demorar o meu olhar sobre o teu, ter-te-ia amado na mesma...

Fiquei presa no que está para lá do visível; enredada entre as folhas da tua verdadeira essência.

Possidónio Cachapa

...leva-me...

na outra margem da noite
o amor é possível

— leva-me —

leva-me entre as doces substâncias
que morrem cada dia na tua memória


Alejandra Pizarnik

...Acreditei...

Dalí distorcido
O meu amor não sabe
Como me faz chorar
Como me faz sorrir
Como me faz sonhar
Como me faz sentir...
O meu amor não sabe
Como é capaz de me ferir
Como é capaz de me fazer desistir
Como é capaz de me guiar
Como é capaz de me fazer seguir...
O meu amor não sabe
Como custa seu abandono
Como doi não ter seu carinho
Como angustia seu castigo
Como fere seu silêncio...
O meu amor não sabe
Como o amo e desengano
Como me deixo se morro
Como morro se me deixa
Como me engano se o amo...
O meu amor não sabe
Ou só eu é que sei
O meu amor não existe
Ou só eu acreditei...
O meu amor não sabe
Se soubesse me amaria
Não quereria outro amor
Que não o meu amor
Não esperaria
O meu amor...

03 Junho 2009

...Tens noção?!:::

Destino - Dali
O tempo perde a noção
quando se trata de esperar-te

derretem-se-me os sorrisos
desfazem-se-me as forças
destroi-se-me a coragem
quando se trata de esperar-te

não há segundo que não doa demais a tua falta
não há minuto que não grite por dentro a tua falta
não há dia que não chore de noite a tua falta

o que há perde a noção
quando se trata de esperar-te

meu mundo desaba sem tua presença em mim
meu coração gela sem o teu abraço em mim
meu olhar baça sem o teu olhar em mim

o amor perde a noção
quando se trata de esperar-te

a razão perde a noção
quando pedes pra não esperar-te

malu


: - I

O exercício do silêncio é tão importante quanto a prática da palavra.

(William James)

Eu preferia que as palavras me magoassem, do que este silêncio que me mata...

...Fome...


" Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.

Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.

Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida."

Clarice Lispector

...Estou contigo mãe...



Vem!
Toca a minha mão
não desistas...
prossegue,
ergue o olhar a novos horizontes,
contigo caminharei.

A minha mão está estendida
sente o calor na ponta dos dedos.
Vem
juntas caminharemos por entre as ortigas
onde os pés tropeçam...
No oásis vislumbro jardins de rosas amarelas.

Segura com força
aprecia...é a minha mão.
Vem!
Não olhes para trás
alto é o abismo vertiginoso.

Continua
estou aqui ao teu lado
deixa as lágrimas caírem
despoja a revolta e a amargura
leve voarás...
Sobe comigo esta escarpa
agarra a corda...

Vem!
só mais um pouco
as pernas teimam em cair
rasteja eu rastejarei contigo.

Contempla
o sol já brilha no firmamento onde juntas sorriremos
sentadas nestas pedras...
Num abraço glorioso de vitória.

Eu estou contigo,
hoje e sempre.

Ana Coelho

(à minha mãe)

30 Maio 2009

...Ecos...


Vem de longe a tua voz.

De tão longe
que duvido de mim mesma ao ouvi-la.

Será que te ouço
ou será a mim mesma que escuto?

Serão minhas as palavras que murmuras,
serei ainda eu?
Ou serão apenas ecos do amor que fui,
que foste um dia?

Ima - nome de código

... um blog onde estaciono imensas vezes

para sentir que nem só a mim me custa "respirar"

e, ao qual a minha alma tem "roubado"

uma espécie de identificação...

...diz-me...

...diz-me qual a ponte
que separa a tua vida da minha,

em que hora negra, em que cidade chuvosa, em que mundo sem luz está essa ponte

e eu a cruzarei...


Amália Bautista

...já não há domingos...


Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.

Mia Couto

...silêncio...

A distância do meu corpo
ao teu grito
corresponde à do teu sopro
ao meu ouvido
eis a anatomia
do silêncio

Teresa Balté