25/06/2009

...o sítio...

girassóis de sylvio paiva


Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?

Aquela hora certa aquele lugar?

À força de o pensar penso que não

(...)

ruy belo

...Vou dormir...

Ouviste esse barulhinho minimal, essa queda compassadamente morna, desse soluço impávido, que já me não cansa, quase, me embala, de tanto ter já decorado a melodia deste meu pranto?

Sentiste esta atracção gravítica directa ao chão que se me falta, como se fora um tiro fortemente disparado no matrix... em lenta progressão... ferindo esse espaço entre os meus olhos que se apagam ardidos, e os meus pés, que se rendem anestesiados, cansados de rodopiar em voltas absurdas por aí, mudas de te não ter, não te encontrar em qualquer nenhum lugar?

Seguiste o trajecto dessa lágrima, outra, e mais outra, cegas, já secas, num fio esgotado, que de tão grande me arrepiou os pelos, me ensopou as unhas, as contornou, e continuou, como quem procurava desesperadamente uma saída, naquela junta entre estes velhos tacos?

Viste hoje, como acabou mais um dia... sem ti?
Já me não doem os olhos... doí-me tudo...
E agora lembro-me;
São assim, todos os meus dias!
Como queres então que agradeça à vida,
o largar-me a mim, sem estorno, sem medida?!

Vou dormir... sim,
acho que só me resta levitar,
já não acredito que volte a sonhar!

Quem dera, fosse comigo,
e quem sabe em sonhos,
eu reaprendesse a voar... a cá estar!

Quem dera, sonhasses tu comigo,
e quem sabe nos teus sonhos,
eu amanhecesse a acreditar...

E nesse amanhã, que "é outro dia",
eu adormecesse a amar,
e pudesse então... cá ficar!


24/06/2009

a oferenda

imagem na net


Aquele tempo em que te procurava...
Por isso
Tanto andei,
Tanto vagueei,
Tanto esforço para encaixar o grande no pequeno,
E o quadrado no redondo.
Esculpindo artes bonitas,
Cópias de um sonho
Que não chegaram jamais à veracidade...
Já me contentava com o congénere,
Quando finalmente nos encontramos.
Meu olhar brilhou e passou
A iluminar nosso caminho.
Meu coração bateu forte,
Seguiu, ritmado, nossos passos.
Nenhuma ameaça existia,
Mas nós nos incumbimos de produzi-la.
As conquistas passaram a ter
Conotação rotineira.
O belo tornou-se vulgar,
As diferenças, interessantes na discrepância,
Foram crescendo e incomodando.
Não te quero mais...
Não com a distância
Nos confundindo
Vou buscar outra promessa,
Que eu possa amar
E que este amor
Produza ameaças
Fabrique certezas
Na oferenda de um corpo se abrindo

...meu anjo...

posso não estar bem
posso morrer de amor
posso morrer de sufoco de estar aqui
sem nada mais poder desatar nesta não vida que me consome

posso querer que tudo exploda
que tudo acabe de uma vez só
de tanto desespero
de tanto que não quero
o que me faz tão mal
ao viver assim

mas tenho ainda um anjo
que olha por mim

só este meu anjo
me consegue fazer sorrir
nestes meus dias que estacionaram
tão longe do meu posto de combustível

só por ele
continuo a viagem
mesmo com o para...arranca...para...
cá vamos indo
ás vezes voando
outras arrastando
e de quando em vez...sorrindo

...pouco...


De você não quero uma única palavra
por menor que seja
destas que cabem num bolso interno
de casaco de inverno
não quero um adjetivo
destes que compram o sorriso
não quero um pronome
dos que anunciam:
pronto
lá vem meu nome
deslizando lingua abaixo

não quero um verbo,
muito menos conjugado no futuro
acenando com o eterno

quero só a esperança prometida no olhar
[se derretendo mudo]
de dias divinos
com trombetas, anjos, fadas querubins,
e você ao centro, nu
dançando só pra mim
Elza Fraga

23/06/2009

...amor, amor, amor...


Vou fechar os olhos
e viajar contigo,
em rios e mares
ainda não navegados.

Vou voltar no tempo
e pensar um amor visceral,
poderoso,
que diga de sangue
e de flores.

Flores ensangüentadas
da paixão,
amor terrível,
que perfume o inferno
e peque no paraíso.

Um amor cavalheiresco,
para uma dama que arrisca
tudo, pelo momento maior,
sem dúvidas.

Se necessário, atravessar
os portais da morte,
sem medo,
unos,
para eternizar o indefinido,
pujante,
no amor e na dor,
sem reticências.

Até ao fim,
amor, amor, amor...

E, depois, quero morrer
bêbedo dessas lembranças,
que é melhor
do que nunca tê-las
vivido...
João Costa Filho

...assim é a saudade...


Sempre que a noite chega,
a solidão vem me falar de ti.
E a saudade penetra em meu coração
como um pouco de luar
dentro de minha noite imensa.
Vai deixando aos poucos seu toque magnífico
de beleza e suavidade.
Vai deitando prata nos recantos mais sombrios.
Vai enfeitando de luz as flores mais singelas.
Assim é a saudade.
Consegue transformar em beleza
a tristeza infinita do presente...
porque traz para mim o encanto
das horas mortas do passado.

Alexandre de Sousa

22/06/2009

...memória...


A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.

...Suspiro...

Voai, brandos meninos tentadores

Filhos de Vénus, deuses da ternura,
Adoçai-me a saudade amarga e dura,
Levai-me este suspiro aos meus amores:

Dizei-lhe que nasceu dos dissabores

Que influi nos corações a formosura;
Dizei-lhe que é penhor da fé mais pura,
Porção do mais leal dos amadores:

Se o fado para mim sempre mesquinho,
A outro of'rece o bem de que me afasta,
E em ais lhe envia Ulina o seu carinho:

Quando um deles soltar na esfera vasta,
Trazei-o a mim, torcendo-lhe o caminho;
Eu sou tão infeliz, que isso me basta.

...choro e rio...

Coitado! que em um tempo choro e rio
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Duma cousa confio e desconfio.

Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.

Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;

Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!

imagem : desapego de monicaurzuaytier

...este inferno de amar...

"Romance in red" de Alfred Gockel

Este inferno de amar - como eu amo!
-Quem mo pôs n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói
-Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho
-Em que paz tão serena dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

...gaivota...

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
morreria no meu peito
morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill

Amália recuperada
no projecto Hoje
sem dúvida alguma a canção do ano
parabéns à sónia, ao nuno, aos gift e a alcobaça

...já não consigo...


"...já não consigo disfarçar, perante as pessoas sorrir e por dentro vazia pela tua ausência, já não consigo, já não quero mentir, sim estou triste, e não o vou esconder, dói tanto esta tua ausência que nem forças tenho para manter o meu sorriso..."

O que (não) queres...


"...o universo não entende as negações ... se pensares o que não queres atrái-lo da mesma forma que pensares no que queres..."
Segredo

"Metade de mim é amor e a outra metade também"

Oswaldo Montenegro

...A tua ausência sufoca-me...
je

...esperamos...

"Quando se ama alguém, tem-se sempre tempo para essa pessoa.
E se ela não vem ter connosco, nós esperamos.
O verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar.
A vida transforma-se numa estação de comboios e o vento anuncia-nos a chegada antes do alcance do olhar.

O amor não espera... ensina-nos a ver o futuro, a desejá-lo, a organizar tudo para que ele seja possível.

É mais fácil esperar do que desistir.
É mais fácil desejar do que esquecer.
É mais fácil sonhar do que perder.
E para quem vive a sonhar, é muito mais fácil viver.”


In Diário da Tua Ausência
Margarida Rebelo Pinto

21/06/2009

apenas um sinal...


Pega a minha mão e leva-me contigo para lá dos olhos,
Segura em mim e atira-me para além do corpo,
Enrola-me nos teus braços e ensina-me a fugir para além de mim...

Diz-me, amor, como se esventra o silêncio que não nos deixa ouvir mais nada,
Diz-me como se percorre o mundo quando não se sabe da estrada,
Diz-me como se bebe o fundo de um retorno que coalha e azeda,
Transformando as recordações brancas numa mancha negra...

Ensina-me a apanhar da beira da estrada as flores murchas.
Ensina-me a extrair delas o aroma que lhes resta.
Ensina-me a esquecer que um dia não foram turvas
As lágrimas que hoje viraram arestas
De um qualquer cubo que já foi esfera
A transbordar de luar...

Lembra-me, amor, que as pétalas de uma pequena flor
Podem ser leito, chama ou até simples odor
Mas que delas emergiu, um dia, a luz, a magia e o amor...
Lembra-me que já deitaste nos meus sonhos
E tocaste as mãos, os lábios, a pele e os ombros
Num vagar de quem só tem pressa de demorar
Para sorver cada lugar de um corpo que se esquece do pudor
e se abandona no espaço de um verbo que ensina a amar...

Agarra-me agora, meu amor, e lança-me por terra,
Trespassa a minha alma num som de guerra...
Ensina-me até a lamentar a vida,
Mas dá-me um sinal, apenas um sinal
Que me deixe erguer a bandeira ou lançar a luz,
Que me deixe gritar que fiquei perdida!...

...tanto de ti...

"A noite não tem braços
Que te impeçam de partir,
Nas sombras do meu quarto
Há mil sonhos por cumprir.

Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento onde te invento, assim.

Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,

Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,

Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti…"

Pedro Abrunhosa

falar de amor

Sabes, tenho medo.
Tenho medo, que um dia destes, alguém tenha a ousadia de me vir falar de amor.
Aquele amor banalizado, de príncipes e princesas, de castelos, tranças e cavalos brancos. Aquele Amor com que toda a gente sonha um dia, e que nunca acontece, mas que grande parte das pessoas, pensa que sim.
Tenho medo que este tiquetaque, em tom de bomba-relógio que em mim escondo, rebente, e te deixe escapar por entre as minhas sílabas danadas, sem ordem, principio nem fim e acorde aí, umas tantas consciências desenganadas pelas arritmias do coração.

Ousar falar-me de amor, depois de ti, parece-me impossível.
Faz-me sentir que, ninguém o conhece como eu.
Que ninguém o viveu como eu.
Que mais ninguém teve o mesmo privilégio que eu tive.
Eu tive-o. E eu tenho-o e guardo-o dentro de mim, quando outros se julgam capazes de saltar fora dele, para dele poderem falar.

Eu não te consigo falar deste amor.
Não consigo saltar fora e racionalizá-lo, nem descrevê-lo na distância de ti.
Parece-me humanamente impossível.
Este amor, não tem outra forma de expressão, que não seja a nossa.
E eu, nem dessa forma consigo falar.
Não o quero dissecar com adjectivos comuns.
Acho que não o merece.
É demasiadamente pouco para este TANTO.

O mais engraçado é que, no fundo, acho que toda a gente que diz que ama, pensa como eu. E no entanto, isso, não deixa de me parecer, simplesmente, IMPOSSÍVEL de ser verdade. Mas as verdades são assim mesmo.
Relativas.
Tal como o Amor.

...como o tempo...

praia de maresias - juliano sodré da nóbrega
Este amor
Tão violento
Tão frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Belo como o dia
E mau como o tempo

Jacques Prévert

20/06/2009

...sorri...

a coruja das torres não sabe sorrir
imagem no olhares foto de nuno martinho


Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz...
Charles Chaplin

19/06/2009

400


pela 400ª vez, vou clicar aqui, em "publicar mensagem"

desde que por aqui paro
estou talvez, um pouco menos "analfabeta"

pelo menos
de coração
e de alma
vou-me alimentando dos pedaços ocos e recheados de sentimentos
de todos os que vos mostro
além de mim
e que identifico também como se de mim

o que começou por ser um blog-diário, onde vinha apenas registar
pra não me perder, de todos os meus pensamentos poéticos, veio mais tarde a transformar-se num abrigo que me acolhe por inteiro, e onde trago para guardar ou mesmo para me e vos mostrar "coisas" não escritas por mim, mas que me tocam ao ponto de assim o querer...

e pelo meio, apanhei o amor, e neste blog o vou curando...
é a única doença, de que admito morrer
é a única dor que todos os dias (quase todos) e ás vezes aqui (principalmente aqui) me ressuscita

vazia do que amo
vou amando o que me preenche
em recantos que vou descobrindo e partilhando...
e noutros momentos
faço da etiqueta "palavras minhas" este o "meu" espaço, onde me reencontro
apesar do abuso das reticências...

obrigados
a todos os que me fazem continuar a escrever, e a ler

malu

foto de joão dias

...do outro lado...

A voz dele chegou-lhe suave do outro lado da linha.
Do outro lado do amor...
Foi no dia da mesma manhã em que a água lhe pareceu mais fria. Mais áspera a cair na pele nua que as suas mãos apertam na tentativa de reencontrar a sensação das dele. As dele. Que tacteiam agora coisas diferentes, coisas que ela não conhece. Do outro lado da paixão.

A voz dele fez com que ela percorresse outra vez todos os caminhos interiores que conduzem inevitavelmente aquela ternura tão forte que faz chorar. Aquela ternura que se sente poucas vezes numa vida. Do mesmo lado do amor.

Roteiros interiores de estradas humedecidas por lágrimas que ela já não sabe chorar. As que chora agora são diferentes. Não chegam a secar. Ele não está lá para as afastar.
Mas mesmo do outro lado da linha ela sente-lhe o carinho no olhar.
Quase adivinha o sorriso sincero no encontro das duas vozes. Aquele sorriso que gostava de poder guardar em qualquer sítio mais especial do que a simples memória. Do outro lado da vida.

Ela não conseguiu dizer-lhe tudo. Tentou, mas sabe que nunca se consegue dizer tudo.
Ás vezes, como uma criança, atira-se para cima da cama ao som de uma música antiga, e deixa-se ficar a imaginar que ele sabe. Que ele sabe tudo o que ela sente. E que acredita. Do outro lado do sonho.

Custou-lhe lembrar-se que a voz dele ia continuar depois de pousar o auscultador. Não para ela. Mas do outro lado da linha...


...cemitério dos poetas...

















Há pessoas que põem palavras nos nossos sentimentos. Parecem-se com os poetas. Mas, depois de surpresa, abandonam os nossos sonhos pé ante pé ou de pantufas. Não sei... Na verdade, decepcionam-nos (devagarinho) e, quando damos por isso, apagam-se dentro de nós. Deixam de ser preciosas e, por tudo o que valeram, não podem voltar a ser só nossas amigas. Partem, portanto, para uma terra de ninguém, muito distante (...)

Este não sei para onde (eu sei que, dito assim, custa só de pensar) é uma espécie de cemitério de poetas dentro de nós. Um lugar de silêncio que convida a espreitar para o que sentimos. Com surpresa e com dor, ao descobrirmos que, ao contrário do que sempre desejámos, há relações - luminosas - que foram morrendo para nós.

Às vezes, assusta. Afinal, não é simpático descobrirmos que mora em nós alguém que, não sendo o Capitão Gancho, tenha ajudado a morrer (de inanição, por exemplo) quem trouxe poesia, ou luz, ou um insustentável rebuliço ao que sentimos...
Ás vezes, atormenta. Porque magoa descobrirmos que - mesmo quando nos imaginamos a dar a sala mais espaçosa do nosso coração - também nós, dentro de algumas, vivemos sem viver, errantes, nesse não sei onde de alguém, entre os seus amigos e os seus amores.
Ás vezes ainda, somos tocados pelos galenteios da vida e, levados pelo entusiasmo, imaginamos que, se desejarmos com muita força, algumas das pessoas que guardamos no nosso cemitério de poetas ressuscitam e regressam, cheias de luz (...)

Eu sei que também entre as pessoas há quem pareça mágico mas intocável. Como eles. Mas não se esqueça: esse é o cais de embarque que, de surpresa, nos pode levar (sem volta) para o cemitério dos poetas.

...não podes?...

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.

Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação estática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.

Vinicius de Moraes
mensagem à poesia

...chuva de Verão...


Chove torrencialmente no meu pensamento. Chuva azul que lava tudo, pelo menos o mais superficial... E todas cores são intensificadas com água fria, e mudam a cada instante numa infinidade de tonalidades muito parecidas. Não há estrelas visíveis de dia e nem sol de noite que inunde a madrugada do pensamento e apague estas cores de água fria. O brilho de ontem a arder por cima dos nossos corpos esquecidos num qualquer fim de manhã ou tarde... Continuam as imagens a passarem cada vez mais rapidamente, a música, as vozes, a tua voz e a minha antes de se voltarem a perder no vazio. E continua o Iggy Pop insistentemente "...lust for life"... a dar ao longe mas podia ser outra música qualquer. De que se pode fugir se já está tudo dentro de nós? Mesmo antes de sabermos e então depois... Volto a dizer que se ficasses só mais um instante, o seguinte, por exemplo podia contar-te aonde leva esta tortuosa estrada de pensamentos. O fim é sempre muito mais interessante, mesmo que o início da história se tenha perdido algures, numa outra antes desta. Ou terá sido depois??
Quantos instantes iguais a este seriam precisos para preencher o universo de ilusão do qual é feito tão cuidadosamente o tempo??
É preciso que não te percas agora. Nem eu. O horizonte está a tornar-se finalmente mais claro. Chegaremos a tempo? A chuva parou, o pensamento está a tornar-se aos poucos mais nítido.
Um beijo para ti.

...relatividade...

Às vezes criamos pequenos sonhos
em cima de grandes pessoas...
com o passar do tempo descobrimos que ...
grandes são os sonhos e pequenas demais as pessoas ...

...algures...


...algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que eu não posso tocar de tão próximas que estão...
E.E. Cummings

...talvez...



Talvez o mar remasse
melhor os nossos barcos
e o sonho fosse uma noite
de lua-cheia
se a lonjura
consentisse náufragos

Talvez o mar remasse
melhor esta branda tempestade
no desamor incontido de arder
em pleno voo

Eufrázio Filipe
A Linguagem dos Espelhos

...o que dói...


O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos

O que dói
É o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos

O que dói
É tudo mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos
Daniel Faria

...a claridade...


Tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,que eu amava,
quando imaginava que amava.
Era a tua voz que dizia as palavras da vida.

Era o teu rosto, era a tua pele, antes de te conhecer.
Existia nas árvores, nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
José Luís Peixoto

...é tarde...



É um adeus...
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus...

Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.

De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,

Só o pode vencer a humanidade
Da nossa lucidez desencantada.

Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de líquido pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada.

Miguel Torga

...ainda a fome de ti...

Aqui,
onde a mão não alcança o interruptor da vida,
aqui

só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

Aqui,
onde a brancura dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui

a solidão não brilha,
apenas se estorce.

A fome fala através das feridas.
Luís Miguel Nava
Vulcão

La nuit

chagall

La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puis que je le die
Puis que je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.


Paul Eluard

Derniers poèmes d'amour

...imensas e nocturnas...



Portas,

imensas e nocturnas portas,

quando o que desejamos é

um rasgão luminoso.



Mário Rui de Oliveira

O Vento de Noite

...a luz que não sou...


Queria ser luz para poder sentir
a tua alma sôfrega bebê-la...
Queria ser luz para poder dormir
vibrando e ardendo como aquela estrela...
Se eu fosse luz iria descobrir
mais oceano ainda a cada vela;
como os olhos das águias a fulgir
seguiria nas noites de procela...
Ser luz para doirar toda a miséria,
talhar em jóias as pedras dos caminhos,
florir as almas, acordar os ninhos...
Quando beijo a chorar a noite etérea
do teu olhar, amor, a minha cruz
é esta sede imensa de ser luz!
António Patrício
Poesia Completa

18/06/2009

...Premonição...

e...se eu pudesse escrever-te assim ...

Durante muito tempo, vim aqui para falar de Amor , um imenso , puro e imperdivel Amor.

Falei dele com carinho, com doçura , muitas vezes com dor e desespero . A situação que durante quase 3 anos vivi , não foi uma opção como muitos poderão pensar , julgando-me. Foi uma inevitabilidade . Existem pessoas , existem amores de que não se pode fugir . Existem momentos na vida que de alguma maneira nos esperam , que esperam que façamos o melhor possível . Existem momentos , amores, pessoas que podem mudar a vida inteira . Que estão lá para isso mesmo .

Fiz o melhor que pude , que soube. Ele fez o mesmo . Apenas existia uma certeza incontornável : Não nos podíamos perder . O resto, era um mistério , era esperar que a vida ou Deus , fizessem o melhor possível por nós .
Vivi uma situação condenável ? Sim, mas nunca maldosa, de má fé, nunca suja . Amei este homem com todas as minhas forças e acreditei , com muito medo de acreditar , que o Amor poderia vencer todos os medos . Chorei muito . Quantas vezes adormeci exausta pelas lágrimas.

Posso hoje dizer que fui muito amada . Que amei em igual medida . Que mil vezes me questionei acerca do que estava a pedir a este homem . Do que ele próprio estava a pedir à vida . Teria eu o direito ? Teria ele o direito? No fim, ambos fizemos o que sentimos .

Não foi um processo pacifico . Foi antes uma sucessão de acontecimentos extremamente penosa e ninguém deu pulos de alegria quando tudo se consumou . Se vim aqui escrever que o Amor venceu foi só porque o senti verdadeiramente . Mas o Amor teve um árduo percurso de lágrimas, de medo , de um tormento que poucos saberão avaliar . No fim, sim , venceu . Aliás , está a vencer todos os dias …

Devagar, muito devagar , o amor foi como uma brisa, um vento muito quieto , que se apoderou de lugares e tempos , que foi abrindo janelas e portas tão fechadas e deixou entrar a VIDA.
Devagar , fomos criando a certeza de que o único caminho era este , de que a única alternativa era a escolha séria e definitiva de uma outra vida e de todos os sonhos . Não grandes sonhos , apenas este de estar aqui a escrever e ao meu lado sentir a respiração serena do homem que amo , de estender a mão e tocar-lhe , de saber que nos lábios dele se desenha imediatamente o mais lindo sorriso .

Olho para ele e penso em tudo o que deixou para estar aqui . Não se apaga uma vida inteira , não se fecha uma porta e se esquece o que fica do lado de lá . Quando veio para mim, existiam tantos destroços que temi perder-me , existiam tantas lágrimas no seu rosto que achei que não poderia estar à altura de tantas perdas. Não sabia o que fazer senão amá-lo, abraçá-lo, pedir-lhe que me deixasse amá-lo …

O Amor venceu por muitas razões . Não só porque eu existia . Eu era uma destino mas entre esse destino e todos os acontecimentos dos últimos tempos , muitas razões se diluíram para hoje estarmos juntos . Por vezes, um casamento é apenas o nome que se dá a duas pessoas que já nem falam , que já não se conhecem, onde o Amor já faliu há muito tempo , onde nem um único gesto de carinho ou de reconhecimento é feito em direcção ao outro . Por vezes um casamento é apenas o suceder vazio dos dias ou o barulho a rodear um silencio incomodo . Hoje sei que mesmo que eu não existisse , o fim viria . Não o digo para me inocentar ou para me sentir melhor. Este homem que amo infinitamente talvez nunca tivesse tido a noção exacta do que é ser honestamente amado, querido , desejado. Encontrarmo-nos foi a aprendizagem de um mundo novo , onde eu aprendi a amar e ele a ser amado , onde sou amada e amo , sem limites, sem medos , sem medida , sem jogos .
Pertencemo-nos . Certeza tão evidente há tanto tempo .

Hoje ele está aqui . Todas as noites adormecemos abraçados . Por vezes, antes de adormecer , naquele pequeno momento em que o sono se mistura com a realidade já quase a vencê-la, ainda abro os olhos a medo para o redescobrir a meu lado , mas temendo que tudo não passe de um sonho , que ainda esteja sozinha na minha cama , longe daqui e dele . Mas acordo e ele está a abraçar-me e a sorrir e sei então que este sim é o sonho , o único pelo qual valeria a pena arriscar uma vida inteira .
Existe uma paz infinita no nosso abraço , uma certeza tranquila de saber que agora sim , vivemos . Olho para o meu lado e sorrio . Como posso não o fazer ?... Tenho ao meu lado o Grande Amor da minha vida e esse é um privilégio infinito .
Onde existir um grande Amor, existirão sempre milagres . Gosto muito desta frase . Já a escrevi mais que uma vez aqui . Sempre acreditei nela . O meu milagre , devo-o ao homem maravilhoso que amo e a quem nunca me cansarei de elogiar . Quantos fugiriam ao ver o Amor tomar o lugar de uma vida talvez vazia de sentimentos, mas segura ? Quantos não acreditariam ? Quantos não arriscariam ? Mas este homem tão bonito disse que é possível disse para ter calma e acreditar. Nunca largou a minha mão mesmo quando tudo era sombrio Amou-me sem duvidas e condições . Existiu durante todos os dias da minha vida depois do primeiro dia em que veio até mim . Foi a minha vida … É a minha vida…

Obrigada por todo o carinho que recebo . As pessoas que estão desse lado e de quem aprendi a gostar mesmo sem saber quem são , têm tido por mim um respeito e um carinho que me comove . Por isso , achei necessária esta breve explicação . Por isso , hoje escrevi para vós apenas . Eu vou continuar por aqui , não há diferença no Amor que sinto . Apenas o Até já adquiriu agora a sua verdadeira dimensão de brevidade .

Deixa-me tocar-te


"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...Ou toca, ou não toca."

C. Lispector

imagem de manecas na net

ama-me nômade

Livre de laços
Sou estátua de limo
Em plena ilha no espaço
Deixo restos entre espinhos

Nesta insônia insólita
Insinuo-me entre juncos
Onde a luz é órbita do olho,
E o cheiro pergunta ao nariz

Se as paredes são lisas
Como carne e linho,
Para existir, repiso
-Sistere - ex -

Insisto nas entrelinhas
Volto raízes ao céu
E flutuo, em treva branca
Em mim, há um cosmo ínfimo,
Cidade quase caos aos trancos

Peço em silêncio, crestado ao relento
Úmido à beira-mar, mofada por um triz:
Ama-me a seco, íntimo, feito nômade do deserto

Depois, adormeco meu semblante

Feito morta, por horas, volto louca,
Outrem sob seu olhar, prometo brincar
Sem Sartre L'être nem Néant
Beatriz M. Moura

nem sequer desespero...

Não me caias nunca
Não te precipites
Mesmo que isso
Mesmo que te queiras
Não te atires
Fica

Tenho a alma presa
Em bocados
Rota

A cabeça tonta
Revoltam-se-me as tripas
E nem é desgosto
O que sinto é raiva

E esta tristeza
Esta dor contida
Esta água funda
Este imenso abismo

um silêncio surdo

um vazio

17/06/2009

...intensamente breve...

Alinhar à direita

É dentro da cabeça, lá dentro,
que o tempo nos consome e nos faz falta.
...
Por isso, é dentro da cabeça, cá dentro,
para lá dos céus, antes que o mar termine,
nesta imensa confusão de meridianos
que nos dói e nos deslumbra,
que se aloja o segredo indecifrável:
a cor, o som, a luz que nos conforta,
neste intensamente breve instante
que é o tempo que nos cabe.


António Mega Ferreira

...Nunca mais...


amo-te demais para merecer isto:

"nunca mais"

é daquelas coisas

que nunca pensei vir a assimilar...

trata-se de um adeus-ó-vai-te-embora

sem nexo, oco de tudo...

nunca mais quero sentir-me assim,

"nunca mais"

Passa a ser uma expressão que me ensinaste...

e doeu demais tatua-la em mim assim:

não voltes,

nunca mais...


...Era só isso...


Era só isso. Um atrasar de passo, que os teus são mais longos que os meus, um parares ao pé de mim, exactamente ali, naquela esquina. E, sem eu te dizer, perceberes porquê. Tu saberes que eu não resisto ao apelo da terra, tu entenderes que eu preciso de parar para absorver as coisas, para as tornar minhas. Saberes que preciso de ir devagar para levar os cheiros, as cores, os gestos, os pormenores comigo. Tu saberes que me demoro a olhar a sombra do meu pé antes de o pousar no chão, a contar com os olhos os tufos de flores rebeldes no relvado cuidado do jardim, elas que se recusam a não florir ali, e que são como eu, que não me resigno. Tu saberes qual é a minha cor de céu preferida e que é aquela do fim do dia, um azul meio turquesa, meio petróleo, e Vénus a piscar para mim, às vezes a lua já a espreitar. Tu saberes que gosto do teu braço à minha volta, e de encostar a cabeça a ti enquanto caminhamos. E tu parares comigo ali, naquela esquina, de uma rua qualquer, a sentir o primeiro cheiro da primavera num fim de tarde de Março, para o levarmos connosco para casa. A nossa casa. Era só isso, era só isso que eu queria.
Rosmaninho
2006-03-14

Esquece-me

Ama-me ou Esquece-me...


Esquece-me!
Enterra-me no teu coração
junto a tudo o resto que está morto,
mas leva-me flores de vez em quando,
fala comigo quando quiseres,
quando sentires saudade...
...ajoelha-te no mármore frio da minha campa,
desliza os dedos na minha foto esmorecida,
põe um lírio pálido sobre mim,
verte uma lagrima
e parte de novo...
volta para a tua vida...
deixa-me aqui onde pertenço...
numa outra vida,
num outro tempo,
antes do nosso adeus,
antes de teres partido...
antes...
enterra-me no teu coração...
esquece-me!
Eu já morri para ti
e os mortos não amam,
são apenas recordações
a quem levamos flores de vez em quando...
esquece-me!

João Natal
02/05/03

citado por Nuno Branco


16/06/2009

...até breve...


-Então, ... e a Catarina pá?!...já viste?!
-O quê...? Qual Catarina?
-A Catarina que morava ao nosso lado...matou-se ontem...vai ser enterrada agora, ainda não ouviste?!
-Não, mas espera...a Catarina?!... Eu que já não a via há tanto tempo!...Mas isso foi lá em casa...como é que ela fez isso?
-Não, não sei pá...acho que não foi lá, sei que se matou ontem, acho que em casa de um tio, ou o que é que foi... Que cena pá... e com um bebé de dois meses, já viste...aquela rapariga?
- Coitada...! Não imaginava, mas ela tinha um bebé?!
- Sim, nasceu agora...
-Vê lá tu que nunca me cruzei com ela grávida... Mas olha que, passei no cemitério ainda há pouco e via a foto, vi que era uma rapariga nova, e não a reconheci do carro... Coitada da Catarina!...Que notícia de Merda!

Pois é...que notícia de Merda!!!
Eu e o Aleixo...vivemos alguns anos lado a lado com a Catarina, seja no mesmo prédio, no mesmo piso.. no 3º andar do 54 da Rua Costa Veiga na cidade... , e da Catarina pouco sabíamos...a não ser que não tinha uma "grande" vida, há muito tempo.

Mas tinha um bebé...pensei eu! Pensam todos os outros... Mas mais do que pena, tenho um certo alívio pela Catarina. Nunca a vi Feliz no olhar... Tinha menos 2 anos que eu, e apesar de nunca termos andado juntas nem na escola nem na farra, há olhares que se reconhecem.

A todos os que a amaram, coragem...para enfrentar a vida sem ela e cuidar do seu rebento...

A ela, um sinal de respeito, pela coragem.

Não entendo o suicídio como um acto de egoísmo, ou desespero puros.
São sempre desfechos matizados de outras nuances que envolvem, muita infelicidade e tortura acumulada, e muita pesagem anterior... Apenas como um ponto final, numa historia onde ninguém é culpado, nem o próprio suicida, nem os que o envolveram ou não antes do acto, desde muito antes, ou num só acto "gota de Água".

É triste e pesaroso sim, e muito cruel pra quem fica, mas há atitudes, bem mais condenáveis, por um ponto de vista experiencial...

Paz à sua alma...

...assalto à correspondência...


Caro Sebastião…

Não sei qual foi o mal que me bateu a porta nem de onde vem ele, mas é um tanto sinistro…
A uns dias para cá, a melancolia tem me trancado no quarto, não tenho saído dele, estou como doente mas para a minha doença também não a remédio…
Diria que tudo perdeu a cor e o encanto, é o tédio que me consome neste momento.
Ate escrevo no escuro para não ver mais palavras…
Nunca mais vi Raquel…e o tempo ficou mais frio, sabes o quanto sou fraquinho!
As cores tornavam-se monótonas, os sons tornavam-me aos poucos surdos. E a minha animação desfalecia...
Desculpa-me meu amigo, por não te dar novidades a longos dias, mas acredita não me sinto bem…
A dona Lurdes já não sabe o que fazer, é uma mulher incrível preocupada e muito dedicada, ate tem trazido o seu violino, e todos os dias depois de servir o pequeno-almoço no condomínio tenho direito a uma hora de doce música.
Fico com o coração entorpecido, ai Raquel…será que lhe aconteceu alguma coisa?
Espero que por ai as coisas estejam melhores.
Se Maria voltou a andar é de certo porque o sol e a tua companhia aquecem mais…
Obrigado meu amigo, obrigado por todas as cartas e todos os momentos passados são a única luz neste meu espírito desarrumado.
Cada noticia tua soa-me como um novo recomeço…

Um abraço
Leonardo Constantinoviche
citado por

7 de junho 1918


...Vacilando...

Por algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo principio ou pelo fim. É preciso aprender a nos esquecer de nós mesmo para não doer tanto quando abrir os olhos. O meu pensamento, não tenho certeza se está em mim, ou em outra parte de você. Talvez eu só precisasse te contar meus segredos, parar de correr em círculos ou gritar o silêncio. O que eu preciso é te encontrar.
Justificar completamenteNa próxima vida vou escrever menor e mais depressa, para as lembranças poderem fugir. Muitas coisas se dizem que não deveriam ser ditas. Ninguém disse que seria fácil. Mas estas coisas subentendem-se e não se dizem por ociosas. Algumas delas faço de minhas palavras, com gosto de poema. Porém, meus versos é sangue. Eu escrevo como quem morre. Porque eu sei que mesmo depois de tudo, algum dia ele encontrará aqui todas as coisas que não tive tempo de lhe dizer. Por falta de presença e por excesso de ausências. Há quem diga que foi de amor.
Sei que as pessoas não levam flores, mas pedras. Calado, me diga se devo ir embora. E se o mundo tiver razão, o problema é meu. Porque afinal este mundo tal como está, me faz pensar em largá-lo.
E com todos esses vacilos de alguém que viu tudo se transformar em cacos, afirmo que aprendi que não existem mortes, mas a vida que sai de dentro da vida. O amor que não morre, mas adormece. E apesar de todo o esforço do homem, ele nunca encontrará a morte absoluta. A não ser que deixe de amar.

vacilos póstumos
desabafados por arcanjo

...vivo...


"Tudo o que morre fica vivo na lembrança.
Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça"

Biquíni Cavadão

...voando...


O meu rumo é tão incerto como a certeza do infinito
e levo as palavras que vós abandonastes
no sortilégio das ondas.
só porque vos recusais ao vento,
o meu insano grito é escuro silêncio
nos ouvidos pecadores.
o meu destino não é, salvo
o ter sido
e aparto-me das admirações conservadoras
com que quereis repristinar o antigo.
gasto os últimos alicerces
para burilar plumas de Ícaro
e poder ver-vos,
na trôpega glória do mundano,
desde os guindastes das pontes.
sei não chegar mais alto
que os badalos dos sinos,
preso nas recordações
que me carregam o fardo.
quem dera ser leve!
voar
e só lançar a mão
aos que nunca me conquistaram.