Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
(...)
ruy belo
"... as reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..." Quintana
posso não estar bem 
Vou fechar os olhos
e viajar contigo,
em rios e mares
ainda não navegados.
Vou voltar no tempo
e pensar um amor visceral,
poderoso,
que diga de sangue
e de flores.
Flores ensangüentadas
da paixão,
amor terrível,
que perfume o inferno
e peque no paraíso.
Um amor cavalheiresco,
para uma dama que arrisca
tudo, pelo momento maior,
sem dúvidas.
Se necessário, atravessar
os portais da morte,
sem medo,
unos,
para eternizar o indefinido,
pujante,
no amor e na dor,
sem reticências.
Até ao fim,
amor, amor, amor...
E, depois, quero morrer
bêbedo dessas lembranças,
que é melhor
do que nunca tê-las
vivido...
Voai, brandos meninos tentadores
Filhos de Vénus, deuses da ternura,
Adoçai-me a saudade amarga e dura,
Levai-me este suspiro aos meus amores:
Dizei-lhe que nasceu dos dissaboresQue influi nos corações a formosura;
Dizei-lhe que é penhor da fé mais pura,
Porção do mais leal dos amadores:
Se o fado para mim sempre mesquinho,
A outro of'rece o bem de que me afasta,
E em ais lhe envia Ulina o seu carinho:
Quando um deles soltar na esfera vasta,
Trazei-o a mim, torcendo-lhe o caminho;
Eu sou tão infeliz, que isso me basta.
Coitado! que em um tempo choro e rio
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Duma cousa confio e desconfio.
Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.
Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;
Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!
"Romance in red" de Alfred GockelEste inferno de amar - como eu amo!-Quem mo pôs n'alma... quem foi?Esta chama que alenta e consome,Que é a vida - e que a vida destrói-Como é que se veio a atear,Quando - ai quando se há de ela apagar?Eu não sei, não me lembra: o passado,A outra vida que dantes viviEra um sonho talvez... - foi um sonho-Em que paz tão serena dormi!Oh! que doce era aquele sonhar...Quem me veio, ai de mim! despertar?Só me lembra que um dia formosoEu passei... dava o Sol tanta luz!E os meus olhos, que vagos giravam,Em seus olhos ardentes os pus.Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;Mas nessa hora a viver comecei...
Se uma gaivota viesse Este amor
Tão violento
Tão frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Belo como o dia
E mau como o tempo
Foi no dia da mesma manhã em que a água lhe pareceu mais fria. Mais áspera a cair na pele nua que as suas mãos apertam na tentativa de reencontrar a sensação das dele. As dele. Que tacteiam agora coisas diferentes, coisas que ela não conhece. Do outro lado da paixão.Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação estática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.



e...se eu pudesse escrever-te assim ...
Durante muito tempo, vim aqui para falar de Amor , um imenso , puro e imperdivel Amor.
Falei dele com carinho, com doçura , muitas vezes com dor e desespero . A situação que durante quase 3 anos vivi , não foi uma opção como muitos poderão pensar , julgando-me. Foi uma inevitabilidade . Existem pessoas , existem amores de que não se pode fugir . Existem momentos na vida que de alguma maneira nos esperam , que esperam que façamos o melhor possível . Existem momentos , amores, pessoas que podem mudar a vida inteira . Que estão lá para isso mesmo .
Fiz o melhor que pude , que soube. Ele fez o mesmo . Apenas existia uma certeza incontornável : Não nos podíamos perder . O resto, era um mistério , era esperar que a vida ou Deus , fizessem o melhor possível por nós .Vivi uma situação condenável ? Sim, mas nunca maldosa, de má fé, nunca suja . Amei este homem com todas as minhas forças e acreditei , com muito medo de acreditar , que o Amor poderia vencer todos os medos . Chorei muito . Quantas vezes adormeci exausta pelas lágrimas.
Posso hoje dizer que fui muito amada . Que amei em igual medida . Que mil vezes me questionei acerca do que estava a pedir a este homem . Do que ele próprio estava a pedir à vida . Teria eu o direito ? Teria ele o direito? No fim, ambos fizemos o que sentimos .
Não foi um processo pacifico . Foi antes uma sucessão de acontecimentos extremamente penosa e ninguém deu pulos de alegria quando tudo se consumou . Se vim aqui escrever que o Amor venceu foi só porque o senti verdadeiramente . Mas o Amor teve um árduo percurso de lágrimas, de medo , de um tormento que poucos saberão avaliar . No fim, sim , venceu . Aliás , está a vencer todos os dias …
Devagar, muito devagar , o amor foi como uma brisa, um vento muito quieto , que se apoderou de lugares e tempos , que foi abrindo janelas e portas tão fechadas e deixou entrar a VIDA.Devagar , fomos criando a certeza de que o único caminho era este , de que a única alternativa era a escolha séria e definitiva de uma outra vida e de todos os sonhos . Não grandes sonhos , apenas este de estar aqui a escrever e ao meu lado sentir a respiração serena do homem que amo , de estender a mão e tocar-lhe , de saber que nos lábios dele se desenha imediatamente o mais lindo sorriso .
Olho para ele e penso em tudo o que deixou para estar aqui . Não se apaga uma vida inteira , não se fecha uma porta e se esquece o que fica do lado de lá . Quando veio para mim, existiam tantos destroços que temi perder-me , existiam tantas lágrimas no seu rosto que achei que não poderia estar à altura de tantas perdas. Não sabia o que fazer senão amá-lo, abraçá-lo, pedir-lhe que me deixasse amá-lo …
O Amor venceu por muitas razões . Não só porque eu existia . Eu era uma destino mas entre esse destino e todos os acontecimentos dos últimos tempos , muitas razões se diluíram para hoje estarmos juntos . Por vezes, um casamento é apenas o nome que se dá a duas pessoas que já nem falam , que já não se conhecem, onde o Amor já faliu há muito tempo , onde nem um único gesto de carinho ou de reconhecimento é feito em direcção ao outro . Por vezes um casamento é apenas o suceder vazio dos dias ou o barulho a rodear um silencio incomodo . Hoje sei que mesmo que eu não existisse , o fim viria . Não o digo para me inocentar ou para me sentir melhor. Este homem que amo infinitamente talvez nunca tivesse tido a noção exacta do que é ser honestamente amado, querido , desejado. Encontrarmo-nos foi a aprendizagem de um mundo novo , onde eu aprendi a amar e ele a ser amado , onde sou amada e amo , sem limites, sem medos , sem medida , sem jogos .Pertencemo-nos . Certeza tão evidente há tanto tempo .Hoje ele está aqui . Todas as noites adormecemos abraçados . Por vezes, antes de adormecer , naquele pequeno momento em que o sono se mistura com a realidade já quase a vencê-la, ainda abro os olhos a medo para o redescobrir a meu lado , mas temendo que tudo não passe de um sonho , que ainda esteja sozinha na minha cama , longe daqui e dele . Mas acordo e ele está a abraçar-me e a sorrir e sei então que este sim é o sonho , o único pelo qual valeria a pena arriscar uma vida inteira .Existe uma paz infinita no nosso abraço , uma certeza tranquila de saber que agora sim , vivemos . Olho para o meu lado e sorrio . Como posso não o fazer ?... Tenho ao meu lado o Grande Amor da minha vida e esse é um privilégio infinito .Onde existir um grande Amor, existirão sempre milagres . Gosto muito desta frase . Já a escrevi mais que uma vez aqui . Sempre acreditei nela . O meu milagre , devo-o ao homem maravilhoso que amo e a quem nunca me cansarei de elogiar . Quantos fugiriam ao ver o Amor tomar o lugar de uma vida talvez vazia de sentimentos, mas segura ? Quantos não acreditariam ? Quantos não arriscariam ? Mas este homem tão bonito disse que é possível disse para ter calma e acreditar. Nunca largou a minha mão mesmo quando tudo era sombrio Amou-me sem duvidas e condições . Existiu durante todos os dias da minha vida depois do primeiro dia em que veio até mim . Foi a minha vida … É a minha vida…Obrigada por todo o carinho que recebo . As pessoas que estão desse lado e de quem aprendi a gostar mesmo sem saber quem são , têm tido por mim um respeito e um carinho que me comove . Por isso , achei necessária esta breve explicação . Por isso , hoje escrevi para vós apenas . Eu vou continuar por aqui , não há diferença no Amor que sinto . Apenas o Até já adquiriu agora a sua verdadeira dimensão de brevidade .

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É dentro da cabeça, lá dentro,
que o tempo nos consome e nos faz falta.
...
Por isso, é dentro da cabeça, cá dentro,
para lá dos céus, antes que o mar termine,
nesta imensa confusão de meridianos
que nos dói e nos deslumbra,
que se aloja o segredo indecifrável:
a cor, o som, a luz que nos conforta,
neste intensamente breve instante
que é o tempo que nos cabe.
António Mega Ferreira

Esquece-me!
Enterra-me no teu coração
junto a tudo o resto que está morto,
mas leva-me flores de vez em quando,
fala comigo quando quiseres,
quando sentires saudade...
...ajoelha-te no mármore frio da minha campa,
desliza os dedos na minha foto esmorecida,
põe um lírio pálido sobre mim,
verte uma lagrima
e parte de novo...
volta para a tua vida...
deixa-me aqui onde pertenço...
numa outra vida,
num outro tempo,
antes do nosso adeus,
antes de teres partido...
antes...
enterra-me no teu coração...
esquece-me!
Eu já morri para ti
e os mortos não amam,
são apenas recordações
a quem levamos flores de vez em quando...
esquece-me!
João Natal
02/05/03
citado por Nuno Branco


Por algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo principio ou pelo fim. É preciso aprender a nos esquecer de nós mesmo para não doer tanto quando abrir os olhos. O meu pensamento, não tenho certeza se está em mim, ou em outra parte de você. Talvez eu só precisasse te contar meus segredos, parar de correr em círculos ou gritar o silêncio. O que eu preciso é te encontrar.
Na próxima vida vou escrever menor e mais depressa, para as lembranças poderem fugir. Muitas coisas se dizem que não deveriam ser ditas. Ninguém disse que seria fácil. Mas estas coisas subentendem-se e não se dizem por ociosas. Algumas delas faço de minhas palavras, com gosto de poema. Porém, meus versos é sangue. Eu escrevo como quem morre. Porque eu sei que mesmo depois de tudo, algum dia ele encontrará aqui todas as coisas que não tive tempo de lhe dizer. Por falta de presença e por excesso de ausências. Há quem diga que foi de amor.