18/06/2009

nem sequer desespero...

Não me caias nunca
Não te precipites
Mesmo que isso
Mesmo que te queiras
Não te atires
Fica

Tenho a alma presa
Em bocados
Rota

A cabeça tonta
Revoltam-se-me as tripas
E nem é desgosto
O que sinto é raiva

E esta tristeza
Esta dor contida
Esta água funda
Este imenso abismo

um silêncio surdo

um vazio

17/06/2009

...intensamente breve...

Alinhar à direita

É dentro da cabeça, lá dentro,
que o tempo nos consome e nos faz falta.
...
Por isso, é dentro da cabeça, cá dentro,
para lá dos céus, antes que o mar termine,
nesta imensa confusão de meridianos
que nos dói e nos deslumbra,
que se aloja o segredo indecifrável:
a cor, o som, a luz que nos conforta,
neste intensamente breve instante
que é o tempo que nos cabe.


António Mega Ferreira

...Nunca mais...


amo-te demais para merecer isto:

"nunca mais"

é daquelas coisas

que nunca pensei vir a assimilar...

trata-se de um adeus-ó-vai-te-embora

sem nexo, oco de tudo...

nunca mais quero sentir-me assim,

"nunca mais"

Passa a ser uma expressão que me ensinaste...

e doeu demais tatua-la em mim assim:

não voltes,

nunca mais...


...Era só isso...


Era só isso. Um atrasar de passo, que os teus são mais longos que os meus, um parares ao pé de mim, exactamente ali, naquela esquina. E, sem eu te dizer, perceberes porquê. Tu saberes que eu não resisto ao apelo da terra, tu entenderes que eu preciso de parar para absorver as coisas, para as tornar minhas. Saberes que preciso de ir devagar para levar os cheiros, as cores, os gestos, os pormenores comigo. Tu saberes que me demoro a olhar a sombra do meu pé antes de o pousar no chão, a contar com os olhos os tufos de flores rebeldes no relvado cuidado do jardim, elas que se recusam a não florir ali, e que são como eu, que não me resigno. Tu saberes qual é a minha cor de céu preferida e que é aquela do fim do dia, um azul meio turquesa, meio petróleo, e Vénus a piscar para mim, às vezes a lua já a espreitar. Tu saberes que gosto do teu braço à minha volta, e de encostar a cabeça a ti enquanto caminhamos. E tu parares comigo ali, naquela esquina, de uma rua qualquer, a sentir o primeiro cheiro da primavera num fim de tarde de Março, para o levarmos connosco para casa. A nossa casa. Era só isso, era só isso que eu queria.
Rosmaninho
2006-03-14

Esquece-me

Ama-me ou Esquece-me...


Esquece-me!
Enterra-me no teu coração
junto a tudo o resto que está morto,
mas leva-me flores de vez em quando,
fala comigo quando quiseres,
quando sentires saudade...
...ajoelha-te no mármore frio da minha campa,
desliza os dedos na minha foto esmorecida,
põe um lírio pálido sobre mim,
verte uma lagrima
e parte de novo...
volta para a tua vida...
deixa-me aqui onde pertenço...
numa outra vida,
num outro tempo,
antes do nosso adeus,
antes de teres partido...
antes...
enterra-me no teu coração...
esquece-me!
Eu já morri para ti
e os mortos não amam,
são apenas recordações
a quem levamos flores de vez em quando...
esquece-me!

João Natal
02/05/03

citado por Nuno Branco


16/06/2009

...até breve...


-Então, ... e a Catarina pá?!...já viste?!
-O quê...? Qual Catarina?
-A Catarina que morava ao nosso lado...matou-se ontem...vai ser enterrada agora, ainda não ouviste?!
-Não, mas espera...a Catarina?!... Eu que já não a via há tanto tempo!...Mas isso foi lá em casa...como é que ela fez isso?
-Não, não sei pá...acho que não foi lá, sei que se matou ontem, acho que em casa de um tio, ou o que é que foi... Que cena pá... e com um bebé de dois meses, já viste...aquela rapariga?
- Coitada...! Não imaginava, mas ela tinha um bebé?!
- Sim, nasceu agora...
-Vê lá tu que nunca me cruzei com ela grávida... Mas olha que, passei no cemitério ainda há pouco e via a foto, vi que era uma rapariga nova, e não a reconheci do carro... Coitada da Catarina!...Que notícia de Merda!

Pois é...que notícia de Merda!!!
Eu e o Aleixo...vivemos alguns anos lado a lado com a Catarina, seja no mesmo prédio, no mesmo piso.. no 3º andar do 54 da Rua Costa Veiga na cidade... , e da Catarina pouco sabíamos...a não ser que não tinha uma "grande" vida, há muito tempo.

Mas tinha um bebé...pensei eu! Pensam todos os outros... Mas mais do que pena, tenho um certo alívio pela Catarina. Nunca a vi Feliz no olhar... Tinha menos 2 anos que eu, e apesar de nunca termos andado juntas nem na escola nem na farra, há olhares que se reconhecem.

A todos os que a amaram, coragem...para enfrentar a vida sem ela e cuidar do seu rebento...

A ela, um sinal de respeito, pela coragem.

Não entendo o suicídio como um acto de egoísmo, ou desespero puros.
São sempre desfechos matizados de outras nuances que envolvem, muita infelicidade e tortura acumulada, e muita pesagem anterior... Apenas como um ponto final, numa historia onde ninguém é culpado, nem o próprio suicida, nem os que o envolveram ou não antes do acto, desde muito antes, ou num só acto "gota de Água".

É triste e pesaroso sim, e muito cruel pra quem fica, mas há atitudes, bem mais condenáveis, por um ponto de vista experiencial...

Paz à sua alma...

...assalto à correspondência...


Caro Sebastião…

Não sei qual foi o mal que me bateu a porta nem de onde vem ele, mas é um tanto sinistro…
A uns dias para cá, a melancolia tem me trancado no quarto, não tenho saído dele, estou como doente mas para a minha doença também não a remédio…
Diria que tudo perdeu a cor e o encanto, é o tédio que me consome neste momento.
Ate escrevo no escuro para não ver mais palavras…
Nunca mais vi Raquel…e o tempo ficou mais frio, sabes o quanto sou fraquinho!
As cores tornavam-se monótonas, os sons tornavam-me aos poucos surdos. E a minha animação desfalecia...
Desculpa-me meu amigo, por não te dar novidades a longos dias, mas acredita não me sinto bem…
A dona Lurdes já não sabe o que fazer, é uma mulher incrível preocupada e muito dedicada, ate tem trazido o seu violino, e todos os dias depois de servir o pequeno-almoço no condomínio tenho direito a uma hora de doce música.
Fico com o coração entorpecido, ai Raquel…será que lhe aconteceu alguma coisa?
Espero que por ai as coisas estejam melhores.
Se Maria voltou a andar é de certo porque o sol e a tua companhia aquecem mais…
Obrigado meu amigo, obrigado por todas as cartas e todos os momentos passados são a única luz neste meu espírito desarrumado.
Cada noticia tua soa-me como um novo recomeço…

Um abraço
Leonardo Constantinoviche
citado por

7 de junho 1918


...Vacilando...

Por algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo principio ou pelo fim. É preciso aprender a nos esquecer de nós mesmo para não doer tanto quando abrir os olhos. O meu pensamento, não tenho certeza se está em mim, ou em outra parte de você. Talvez eu só precisasse te contar meus segredos, parar de correr em círculos ou gritar o silêncio. O que eu preciso é te encontrar.
Justificar completamenteNa próxima vida vou escrever menor e mais depressa, para as lembranças poderem fugir. Muitas coisas se dizem que não deveriam ser ditas. Ninguém disse que seria fácil. Mas estas coisas subentendem-se e não se dizem por ociosas. Algumas delas faço de minhas palavras, com gosto de poema. Porém, meus versos é sangue. Eu escrevo como quem morre. Porque eu sei que mesmo depois de tudo, algum dia ele encontrará aqui todas as coisas que não tive tempo de lhe dizer. Por falta de presença e por excesso de ausências. Há quem diga que foi de amor.
Sei que as pessoas não levam flores, mas pedras. Calado, me diga se devo ir embora. E se o mundo tiver razão, o problema é meu. Porque afinal este mundo tal como está, me faz pensar em largá-lo.
E com todos esses vacilos de alguém que viu tudo se transformar em cacos, afirmo que aprendi que não existem mortes, mas a vida que sai de dentro da vida. O amor que não morre, mas adormece. E apesar de todo o esforço do homem, ele nunca encontrará a morte absoluta. A não ser que deixe de amar.

vacilos póstumos
desabafados por arcanjo

...vivo...


"Tudo o que morre fica vivo na lembrança.
Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça"

Biquíni Cavadão

...voando...


O meu rumo é tão incerto como a certeza do infinito
e levo as palavras que vós abandonastes
no sortilégio das ondas.
só porque vos recusais ao vento,
o meu insano grito é escuro silêncio
nos ouvidos pecadores.
o meu destino não é, salvo
o ter sido
e aparto-me das admirações conservadoras
com que quereis repristinar o antigo.
gasto os últimos alicerces
para burilar plumas de Ícaro
e poder ver-vos,
na trôpega glória do mundano,
desde os guindastes das pontes.
sei não chegar mais alto
que os badalos dos sinos,
preso nas recordações
que me carregam o fardo.
quem dera ser leve!
voar
e só lançar a mão
aos que nunca me conquistaram.

14/06/2009

Escuro...

...no escuro...
imagem retirada do blog reticências poéticas
Às vezes, felizmente poucas, fica-se no espaço entre. Tudo interrompido em estatuária: o corpo no mundo, corpo nosso também, a vida no tempo, passado e futuro. Nem é tanto de não se saber dar o passo seguinte - esse virá naturalmente com o balanço do passo anterior suspendido no entre, retomado depois quando o devolvimento do mármore às pedreiras e da temperatura ao sangue. Às vezes, felizmente poucas, interrompe-se as ligações, não há a viagem da luz nas ligações, faz-se um escuro sináptico como a noite.

12/06/2009

...cara dor...


Queria dizer que te amo como quem escreve uma notícia. Que. Te. Amo. Concisa e telegraficamente, como um óbito de pé de página, uma errata que pedisse desculpa, onde se lê deve ler-se, ou os resultados do totoloto. Queria contar a nossa história em duas linhas ou três, sem descrições polissilábicas ou excessos adverbiais; sem modo, lugar nem quando (até porque o nós somos só eu, sempre sem sair do lugar). Umas vírgulas, um ponto final e nada de exclamações, pois nunca o meu amor alguma vez te surpreendeu. Queria despachar-nos em três penadas, nuns rabiscos, num rascunho, com o traço grosso e grosseiro e, com o mínimo indispensável, subentender-te o sujeito, sem complementos nem predicados. Queria dizer que te amo sob a forma de uma ressalva, uma nota de rodapé, uma remissão para o índice ou uma nota do tradutor. E centrifugar as palavras, que são as muletas linguísticas que me amparam o sentimento, espremendo-lhes a adjectivação, os floreados e as figuras de estilo. Queria dizer que te amo e fazer, a propósito e quanto muito, analogias simples com elementos campestres, belos e unívocos, aligeirando assim o peso lexical que carrego e que disfarça o facto de a dor não carecer de outra explicação que o não te poder tocar. A dor traduz-se em poucas palavras e às vezes em nenhuma: quando se basta com um suspiro, com uns olhos que vagueiam por cima das coisas, mareando, ou com um nó górdio à boca do estômago. Mas a minha, como um herói do futebol moderno ou uma cantora pimba, é fiteira, chorona e queixinhas, enfeita-se com brilhos de mau gosto, gosta de dar nas vistas e faz-se pagar cara.

escrito por a. n` um amor atrevido

...recomeço...

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento...
...
amanhã
alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir
ao teu encontro.

Teresa Balté

11/06/2009

...a viagem é maior...

imagem na net no blog acaixa

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de que, nem eu sei.
Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a viagem é maior indo sozinho
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a descansar, eu descansei...
Na venda onde poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário,
Corta os pés como a rocha de um calvário,
E queima como a areia!...
Foi no entanto
Que choramos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Camilo Pessanha

...Há quanto tempo...


Eu sei que esperar em vão dói mais do que ouvir um não,
Sim é pior do que viver numa ilusão
É ter um vazio que nos enche até ao fim da escuridão
Eu sei que sonhar em vão é mais cruel do que a dor
É como o fogo que consome o próprio amor
Assim queimando as cinzas de um sonho bom, que ficou para trás...

Há quanto tempo eu espero
Há quanto tempo eu estou aqui
Há quanto tempo eu choro
Há quanto tempo não sei de ti
Há quanto tempo eu grito
Há quanto tempo eu penso em ti
Mesmo que a razão seja mais do que sempre foi para mim

Eu sei que o futuro está presente longe de mais
Sim continuar a procurar não adianta mais
Assim prefiro que o tempo encontre alguém, alguém por mim...

Adelaide Ferreira

tédio


Não vivo, mal vegeto, duro apenas,
Vazio dos sentidos, porque existo;
Não tenho infelizmente sequer penas
E o meu mal é ser (alheio Cristo)
Nestas horas doridas e serenas
Completamente consciente disso.


Fernando Pessoa
12-5-1910


...Beijo...

"um beijo de saudade"
tecn.mista s/tela
2008
maria joão
franco
Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.

Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Pedro Abrunhosa

...Eterno...


Quero que gostes de Pina Baush, ou até já nem gostes,
queiras mais queiras diferente;
que gostes da cor e do risco forte de Miró
e do canto desiludido e fundo de Ferré;
quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidade
do grande bruto grande e do pequeno sensível e pequeno;
quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes representes a cortesã mais lassa para mim;
quero-te com mãos de pedra e de veludo;
quero que ames o chique e a Serra d´Aire
- mais o safari que a recepção,
quero que mores e sofras nas páginas de Guido Crepax
e que te irrites com a perfeição absoluta de um retrato de Medina
quero que, se possível vivas dentro do anúncio do Martini
felina e ondulante numa ilha tropical
quero que sejas capaz de divertir-te, de soltar uma ampla gargalhada,
ante o espectáculo ridículo e obsceno de um homem de Quinhentos
a quem atribuíssem um número de contribuinte
quero que ames o longe e a miragem, como o Régio
e que sejas louca e sábia
que tenhas lábios e mordas,
língua e sorvas, sexo e sexes, salto e saltes, riso e rias,
sorvedouro inteiro de vida, arrepio de garça, sacudir de cisne,
passos de corsa, graça de arlequim,
pose de Diva, corpo de areia e luz.
E quero que me dês, me dês muito, que me dês tudo,
e que abras as janelas de par em par ao Tejo
e fecundes um poema em cada gesto
e voes como a gaivota em cada espreguiçar
e partas para a Índia em cada cacilheiro
e que sejas, mores, vivas e creias
longe
muito longe daqui...

quero que sejas profundamente minha e ritual
obsessiva e lúcida, doente, febril, tremendo de desejo
disposta a tudo e a mais e a muito mais,
boca de Mundo, seios de Mármore, corpo de Alfazema
e sobretudo Mulher e sobretudo amante.
Se existires assim, nua, inteira, absoluta e pessoal
responde-me
que eu fico aqui, eterno, à tua espera.

Pedro Barroso

...ácido...


Saudade é como ácido: corrói...

fátima abreu

tu me manque



Faz-me falta acreditar...

Acreditei, quando de cada vez que o meu coração desassossegava, tu dizias...meu amor...eu estou aqui... pergunta-me tudo o que te inquieta, que estarei sempre aqui, para te responder...a tudo...!

Que ingenuidade a minha, não ?!