30/01/2011

...ignoraria tudo...


A entrada na vida é inocente, por isso então é pura a alegria; a continuação da mesma vida é vaidosa, por isso a alegria então é imperfeita. Nos primeiros anos vemos as cousas como elas são, depois vemo-las, como os homens querem, que elas sejam; em um tempo a alegria só depende de nós: depois também depende dos outros; naquela a alegria vem de uma natureza ainda ignorante, e sem vaidade; depois procede de uma natureza já instruída, e por consequência vaidosa. Que cousa é a ciência humana, senão uma humana vaidade? Quem nos dera, que assim como há arte para saber, a houvesse também para ignorar; e que assim como há estudo, que nos ensina a lembrar, o houvesse também, que nos ensinasse a esquecer.
Matias Aires,
in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'

28/01/2011

...eternamente descontente...


É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros "comissários políticos" do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os certas conhecidas minorias eternamente descontentes...
José Saramago in,
Este mundo da injustiça globalizada 

25/01/2011

...não deixes...


Não interessa ter o meu corpo despido quando ainda a minha alma está por descobrir. Não deixes que o medo seja a tua única veste quando os nossos corpos, mesmo que desproporcionais, encaixam perfeitos... Quando são tantas as vezes que a nossa língua é diferente e só um beijo nos cala a estupidez.

pandora
na sua caixa

23/01/2011

...rodeia-me...


Detesto a acção. A acção mete-me medo. De dia podo as minhas árvores, à noite sonho. Sinto Deus - toco-o. Deus é muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me - não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta e que tanta força tem...

Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos.

Raul Brandão, in 'Húmus'

...as perguntas...


...é sempre a mesma coisa, sempre as mesmas duvidas, sempre as mesmas perguntas, e sempre a mesma resposta... mas, quem continua a ter necessidade de perguntar, será que estaria preparado para ouvir a resposta...?!...

06/01/2011

... o Lugar ...


 
já é noite, o frio está em tudo o que se vê, lá fora ninguém sabe que por dentro há vazio, porque em todos há um espaço que por medo não se deu, onde a ilusão se esquece do que o medo não previu

já é noite o chão é mais terra pra nascer, a água vem escorrendo entre as mãos a percorrer, todo o espaço entre a sombra entre o espaço que restou, para refazer na vida no que o medo não matou

mas onde tudo morre tudo pode renascer, em ti vejo o tempo que passou, vejo o sangue que correu, vejo a força que me deu quando tudo parou em ti, a tempestade que não há em ti, arrastando para o teu lugar e é em ti que vou ficar

já é dia e a sombra está em tudo o que se vê, lá fora ninguém sabe o que a luz pode fazer, porque a noite foi tão fria que não soube acordar, a noite foi tão dura e difícil de sarar

mas onde tudo morre tudo pode renascer, em ti vejo o tempo que passou, vejo o sangue que correu, vejo a força que me deu quando tudo parou em ti, a tempestade que não há em ti, arrastando para o teu lugar e é em ti que vou ficar

mas eu descobri a casa onde posso adormecer, eu já desvendei o mundo e o tempo de perder, aqui tudo é mais forte e há mais cores no céu maior, aqui tudo é tão novo e o que pode ser amor

e onde tudo morre tudo volta a nascer, em ti vejo o tempo que passou, vejo o sangue que correu, vejo a força que me deu quando tudo parou em ti, a tempestade que não há em ti, arrastando para o teu lugar e é em ti que vou ficar

já é dia e a luz está em tudo o que se vê, cá dentro não se ouve o que lá fora faz chover, na cidade que há em ti encontrei o meu lugar, e é em ti que vou ficar.

tiago bettencourt in,

13/12/2010

...mentira...

detalhe - mentira - alexandre wagner

«Nós tendemos a acreditar que aquilo de que nos recordamos realmente aconteceu e não pomos em causa e somos, em grande medida, aquilo de que nos lembramos. E a verdade é que muitas coisas de que nos lembramos na realidade não aconteceram ou não aconteceram exactamente assim. Portanto, até certo ponto, nós próprios somos uma ficção, um...a mentira.»
José Eduardo Agualusa

08/12/2010

...nem tudo é dias de sol...


Se eu pudesse trincar a terra toda

E sentir-lhe um paladar,

E se a terra fosse uma cousa para trincar

Seria mais feliz um momento...


Mas eu nem sempre quero ser feliz.

É preciso ser de vez em quando infeliz

Para se poder ser natural...

 
Nem tudo é dias de sol,

E a chuva, quando falta muito, pede-se,

Por isso tomo a infelicidade com a felicidade

Naturalmente, como quem não estranha

Que haja montanhas e planícies

E que haja rochedos e erva...


O que é preciso é ser-se natural e calmo

Na felicidade ou na infelicidade,

Sentir como quem olha,

pensar como quem anda,

E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,

E que o poente é belo e é bela a noite que fica...

Assim é e assim seja...

alberto caeiro (F.P.)

24/11/2010

...as minhas saudades tuas...


tenho saudades tuas
isso eu sei
porque eu sinto no meu peito
essas ruas

nunca imaginei um amor assim
e agora até ficou real
mas isso trouxe coisas atrás

no momento de uma decisão
percebes tudo o que o presente faz
mesmo querendo ter alguém
eu quero ter-me a mim

mas meu amor
nenhum de nós deixará de ser real

passo por essas ruas
isso eu sei
porque eu sinto ter ainda no meu peito
coisas tuas

Foge Foge Bandido

09/11/2010

...sincero...


“Lembro dos sorrisos, das conversas, dos divãs, dor hormônios, de tudo… e me dá uma saudade irracional de você. Uma vontade de chegar perto, de só chegar perto, te olhar sem dizer nada, talvez recitar livros, quem sabe só olhar estrelas… dizer que te considero - pode ser por mais um mês, por mais um ano, ou quem sabe por uma vida - e que hoje, só por hoje ou a partir de hoje (de ontem, de sempre e de nunca), é sincero.”
Caio Fernando Abreu

... uma andorinha só ...

Não faz, mas pode começar a fazer a Primavera:

Não espere o chamado de outras “andorinhas”.
Desperte a que há dentro de você
e comece um verão interno
mesmo que em meio da tempestade.


Andréa Oliveira in

08/11/2010

...o distorcido...


As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.

Thomas Mann, in
"Morte em Veneza"

...Absurdo, Liberdade e Projecto...


Uma vez admitidos dois factos: que o devir não tem fim e que não é dirigido por qualquer grande unidade na qual o indivíduo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta só uma escapatória possível: condenar todo esse mundo do devir como ilusório e inventar um mundo situado no além, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo não é senão construído sobre as suas próprias necessidades psicológicas e que ele não é de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a última forma do niilismo, que implica a negação do mundo metafísico e que a si mesma se proíbe de crer num mundo verdadeiro. Alcançado este estado, reconhecemos que a realidade do devir é a única realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam à crença em outros mundos e em falsos deuses - mas não suportamos este mundo que não temos já a vontade de negar.
(...)
Que se passou portanto? Chegámos ao sentimento do não valor da existência quando compreendemos que ela não pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não logramos coisa nenhuma dessa espécie; a unidade global não aparece na pluralidade do devir: o carácter da existência não é o de ser verdadeira, mas o de ser falsa (...) não há razão alguma para nos persuadirmos de que existe um mundo verdadeiro. (...) Em suma, as categorias de fim, de unidade, de ser, graças às quais demos um valor ao mundo, retiramos-lhas e o mundo parece ter perdido todo o valor.
Friedrich Nietzsche, in
'A Vontade de Poder'

25/10/2010

... não tens vergonha?! ...


«Ser feliz por momentos é algo de que não se deve ter vergonha. Momentos que o fim torna ridículos.

A felicidade, como o amor, é um sentimento ridículo. Mas a felicidade, como o amor, só é ridícula quando vista de fora. A felicidade, como o amor, só é ridícula antes ou depois de si própria. A felicidade, são momentos que, no seu presente fugaz, são mais fortes do que todas as sombras, todos os lugares frios, todos os arrependimentos. Ser feliz em palavras que, durante essa respiração breve, mudam de sentido.

E nem a forma do mundo é igual: o sangue tem a forma de luz, as pedras têm de nuvens, os olhos têm a forma de rios, as mãos têm a forma de árvores, os lábios têm a forma de céu, ou de oceano visto da praia, ou de estrela a brilhar com toda a sua força infantil e a iluminar a noite como um coração pequeno de ave ou de criança.

Momentos que o fim torna ridículos. Momentos que fazem viver, esperando por um dia, depois de todas as desilusões, depois de todos os arrependimentos e fracassos, em que se possa viver de novo, para de novo chegar o fim e de novo a esperança e de novo o fim.

Não se deve ter vergonha de se ser feliz por momentos. Não se deve ter vergonha da memória de se ter sido feliz por momentos.»

in, "Uma Casa Na Escuridão"
José Luís Peixoto

15/10/2010

...ousa...

"Odeio essas almas pulsilânimes que,
por muito preverem consequências,
nada ousam empreender. "
(Moliere)

12/10/2010

...procuro...


Procuro alguém
que me salve de mim mesma,
do abismo que crio

(...)

insanidade dos meus pensamentos.

Procuro por ti,
à espera que em mim vejas
a tua salvação,
como eu vejo em ti a minha.

pensamentos incertos
da praia secreta

10/10/2010

...não me perguntes...

Eu não sei por que a amo. Cada vez mais não sei.

Pode ser pelo seu pescoço que se levanta para ganhar altura quando estamos abraçados. Ou será que é pela forma em que dobra as pernas no sofá? Ou quando se contorce em espiral com beijos nas costas? Eu não sei por que a amo. Será que pela sua preguiça, que se enrola em mim de manhãzinha? Ou pela sua disposição de dar a volta por cima? Eu já parei para pensar por que a amo, mas lamento, não sei. Realmente não sei. Talvez seja pelas sobrancelhas que falam antes dos olhos. Ou pelo umbigo que inicia a mão. Ou pelo copo que você balança antes de beber, para convencer a água a partir? Tantos homens têm um motivo certo para amar, definido como um emprego, e você foi escolher logo um que nada tem a dizer.


Será que é pelo amor aos filhos, excessivo, que sempre me inclui? Ou pela sua vontade de fazer mercado depois do almoço para gastar menos? Será que é pelo modo como canta, o modo como dança, com os braços acenando em linhas sinuosas como fumaça de chá? Será que é pelo toque em meu joelho enquanto dirijo? Pela sua respiração suspensa na penumbra? Ou pelas nossas saídas de madrugada para encontrar sorvete em botecos? Será que me apaixonei pelo seu texto e quis ser seu personagem? Ou pela sua pressa de avisar que chegou, apertando o interfone mesmo com as chaves? Ou quando diz que está com frio no cinema? Ou quando fica muda querendo voltar ou quando fica ruidosa querendo passear? Ou quando pede que eu fique em casa mordendo o lábio de cima? Ou quando me enfrenta com raiva e me diz todas as verdades sem ao menos pedir para sentar? Ou quando sopra os machucados, de quem herdou o costume de soprar machucados mesmo quando não existem? Ou quando fica bêbada e declara que está bêbada para eu me aproveitar? Será que é pelo sua predileção em comprar presentes, sempre dando mais do que recebendo? Ou pela tapeçaria no fundo de suas bolsas, com notas, moedas, chicletes, batons e brincos avulsos? Será que a amo por que me irrita a viver mais? Será que a amo por que não me deixa a sós comigo?

Eu juro que não sei por que a amo. Todo dia você se acorda querendo ouvir, eu pressinto, debruçada em meus ombros à espera do sinal, do cartão, das flores, da segunda aliança que é um par de palavras. Mas não descobri e não finjo. Entenderá que faltam motivos, só que sobram motivos. E dificulta-me pensar que se ama por motivos. Ama-se por insinuações.

Será que é pelo seu medo de sangue? Pela sua infância vesga? Pelos seus joelhos esfolados nos móveis? Pela seus amores frustrados? Pela sua letra arredondada nas vogais? Pela sua insatisfação com as roupas na hora de sair? Pela ânsia em atender o telefone com a esperança de que seja eu a dizer por que a amo?
Eu não sei por que a amo. Não me fale. Quem sabe deixo de amar.

Fabrício Carpinejar

07/10/2010

... caderno ...

«Eu, segurando o caderno e anotando frases,
limitei-me a registar as mudanças.

Fui uma sombra ocupada a registar sombras.

Mas como conseguir agora,
sem um eu,
sem peso e sem ilusões,
num mundo sem ilusões e sem peso?»
Palavras de Bernard
in As Ondas de
Virginia Woolf

... inspiração ...




... sinto, por vezes,
um temor espantado das minhas inspirações,
dos meus pensamentos,
compreendendo quão pouco de mim é meu...

fernando pessoa