14/06/2009

Escuro...

...no escuro...
imagem retirada do blog reticências poéticas
Às vezes, felizmente poucas, fica-se no espaço entre. Tudo interrompido em estatuária: o corpo no mundo, corpo nosso também, a vida no tempo, passado e futuro. Nem é tanto de não se saber dar o passo seguinte - esse virá naturalmente com o balanço do passo anterior suspendido no entre, retomado depois quando o devolvimento do mármore às pedreiras e da temperatura ao sangue. Às vezes, felizmente poucas, interrompe-se as ligações, não há a viagem da luz nas ligações, faz-se um escuro sináptico como a noite.

12/06/2009

...cara dor...


Queria dizer que te amo como quem escreve uma notícia. Que. Te. Amo. Concisa e telegraficamente, como um óbito de pé de página, uma errata que pedisse desculpa, onde se lê deve ler-se, ou os resultados do totoloto. Queria contar a nossa história em duas linhas ou três, sem descrições polissilábicas ou excessos adverbiais; sem modo, lugar nem quando (até porque o nós somos só eu, sempre sem sair do lugar). Umas vírgulas, um ponto final e nada de exclamações, pois nunca o meu amor alguma vez te surpreendeu. Queria despachar-nos em três penadas, nuns rabiscos, num rascunho, com o traço grosso e grosseiro e, com o mínimo indispensável, subentender-te o sujeito, sem complementos nem predicados. Queria dizer que te amo sob a forma de uma ressalva, uma nota de rodapé, uma remissão para o índice ou uma nota do tradutor. E centrifugar as palavras, que são as muletas linguísticas que me amparam o sentimento, espremendo-lhes a adjectivação, os floreados e as figuras de estilo. Queria dizer que te amo e fazer, a propósito e quanto muito, analogias simples com elementos campestres, belos e unívocos, aligeirando assim o peso lexical que carrego e que disfarça o facto de a dor não carecer de outra explicação que o não te poder tocar. A dor traduz-se em poucas palavras e às vezes em nenhuma: quando se basta com um suspiro, com uns olhos que vagueiam por cima das coisas, mareando, ou com um nó górdio à boca do estômago. Mas a minha, como um herói do futebol moderno ou uma cantora pimba, é fiteira, chorona e queixinhas, enfeita-se com brilhos de mau gosto, gosta de dar nas vistas e faz-se pagar cara.

escrito por a. n` um amor atrevido

...recomeço...

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento...
...
amanhã
alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir
ao teu encontro.

Teresa Balté

11/06/2009

...a viagem é maior...

imagem na net no blog acaixa

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de que, nem eu sei.
Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a viagem é maior indo sozinho
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a descansar, eu descansei...
Na venda onde poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário,
Corta os pés como a rocha de um calvário,
E queima como a areia!...
Foi no entanto
Que choramos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Camilo Pessanha

...Há quanto tempo...


Eu sei que esperar em vão dói mais do que ouvir um não,
Sim é pior do que viver numa ilusão
É ter um vazio que nos enche até ao fim da escuridão
Eu sei que sonhar em vão é mais cruel do que a dor
É como o fogo que consome o próprio amor
Assim queimando as cinzas de um sonho bom, que ficou para trás...

Há quanto tempo eu espero
Há quanto tempo eu estou aqui
Há quanto tempo eu choro
Há quanto tempo não sei de ti
Há quanto tempo eu grito
Há quanto tempo eu penso em ti
Mesmo que a razão seja mais do que sempre foi para mim

Eu sei que o futuro está presente longe de mais
Sim continuar a procurar não adianta mais
Assim prefiro que o tempo encontre alguém, alguém por mim...

Adelaide Ferreira

tédio


Não vivo, mal vegeto, duro apenas,
Vazio dos sentidos, porque existo;
Não tenho infelizmente sequer penas
E o meu mal é ser (alheio Cristo)
Nestas horas doridas e serenas
Completamente consciente disso.


Fernando Pessoa
12-5-1910


...Beijo...

"um beijo de saudade"
tecn.mista s/tela
2008
maria joão
franco
Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.

Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Pedro Abrunhosa

...Eterno...


Quero que gostes de Pina Baush, ou até já nem gostes,
queiras mais queiras diferente;
que gostes da cor e do risco forte de Miró
e do canto desiludido e fundo de Ferré;
quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidade
do grande bruto grande e do pequeno sensível e pequeno;
quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes representes a cortesã mais lassa para mim;
quero-te com mãos de pedra e de veludo;
quero que ames o chique e a Serra d´Aire
- mais o safari que a recepção,
quero que mores e sofras nas páginas de Guido Crepax
e que te irrites com a perfeição absoluta de um retrato de Medina
quero que, se possível vivas dentro do anúncio do Martini
felina e ondulante numa ilha tropical
quero que sejas capaz de divertir-te, de soltar uma ampla gargalhada,
ante o espectáculo ridículo e obsceno de um homem de Quinhentos
a quem atribuíssem um número de contribuinte
quero que ames o longe e a miragem, como o Régio
e que sejas louca e sábia
que tenhas lábios e mordas,
língua e sorvas, sexo e sexes, salto e saltes, riso e rias,
sorvedouro inteiro de vida, arrepio de garça, sacudir de cisne,
passos de corsa, graça de arlequim,
pose de Diva, corpo de areia e luz.
E quero que me dês, me dês muito, que me dês tudo,
e que abras as janelas de par em par ao Tejo
e fecundes um poema em cada gesto
e voes como a gaivota em cada espreguiçar
e partas para a Índia em cada cacilheiro
e que sejas, mores, vivas e creias
longe
muito longe daqui...

quero que sejas profundamente minha e ritual
obsessiva e lúcida, doente, febril, tremendo de desejo
disposta a tudo e a mais e a muito mais,
boca de Mundo, seios de Mármore, corpo de Alfazema
e sobretudo Mulher e sobretudo amante.
Se existires assim, nua, inteira, absoluta e pessoal
responde-me
que eu fico aqui, eterno, à tua espera.

Pedro Barroso

...ácido...


Saudade é como ácido: corrói...

fátima abreu

tu me manque



Faz-me falta acreditar...

Acreditei, quando de cada vez que o meu coração desassossegava, tu dizias...meu amor...eu estou aqui... pergunta-me tudo o que te inquieta, que estarei sempre aqui, para te responder...a tudo...!

Que ingenuidade a minha, não ?!

10/06/2009

...uma a uma...


Calo a custo
as palavras que me falam de ti:
agarro-as uma a uma,
com todo o cuidado,
antes que se amontoem,
e reduzo-as a silêncio,
uma e outra vez.


Luís Ene

...tu pra mim...

...este texto fez-me lembrar de ti e ao lembrar de ti fez-me sorrir... adorei, porque estava muito a precisar... vai daí...decidi roubar...
Ele é especial. Não dá para escrever, não dá para pôr em palavras. Ele tem um sorriso lindo, um perfume fabuloso e um corpo quentinho. Ele dá-me miminhos, protege-me no seu abraço e aquece-me o coração. Por causa dele já tive arrepios, já me senti insegura e já fiquei nervosa. Ele já me fez a melhor surpresa do mundo, já me deu beijinhos e fez carinhos e faz-me sentir muito feliz. Por ele já tive o coração a bater desenfreadamente, já senti borboletas na barriga e pensei até gritar de emoção. Ele é o meu amor.

...um ao outro...


Estamos sós
e tão sós,
e vamo-nos matando um ao outro,
em silêncio.

(...)

E se não escrever o teu nome
como direi a alegria ao mundo?


Daniel Faria
citado por margarida

...apenas...


Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras momento.
Palavras, palavras.
Palavras ao vento...

marisa monte

...faz-me arrepender...

imagem de Orfeu Brocco na net

Liberta-me deste sonho onde me prendes.
Solta-me as asas e deixa-me voar para longe de ti.
Dá-me a liberdade que me roubaste fazendo-me amar-te assim…

Chega de dores miudinhas que machucam meu coração.
Chega de afagos nesta alma sofrida.
Provoca uma dor maior, intolerável e faz-me odiar cada instante contigo…

Queima as últimas esperanças, destrói todas as ilusões.
Faz com que cada palavra tua seja uma ferida profunda
e de cada cicatriz uma marca para a vida…

Faz-me arrepender deste sentimento que tanto me fez sorrir
e apaga do meu pensamento tudo aquilo que quis ser
…e nunca fui…

Liberta-me…de ti…de mim… e deste amor!


Mas no fim, permanece em mim…
porque sem ti já não sei viver…já não sei amar…

madalena

...Saio...


Não me hospedo mais, não cobro minhas visitas.

Saio de mim e levo a chave, volto quando quero.

Sou mais minha do que nunca.


Ver ( damanhecer )

...viver...

... mas é doce morrer nesse mar de lembrar e nunca esquecer.
Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria.
Isso pra mim é viver....

Linha do equador, Djavan

...Desvio...


Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Desde teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda

...não tinha que ser...


Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez a porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Alberto Caeiro

...coragens...


Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo,
E esse medo infantil de ter pequenas coragens.

Vinicius de Moraes

...desisto...da alma...

Visto-me no silencio em que a alma se calou…

Desisto desse amor que um dia nasceu…

Não é de ti que me afasto nem do tempo que passou…

É deste sentir que em ti, não viveu…


Escrito da alma

Imagem da net
no blog
reticências poéticas

...hoje não...

imagem "Nuit" publicada por madalena
"Talvez um dia nós nos encontremos na rua e eu aceite a sua mão estendida e seu abraço caloroso. Talvez, então, você me mostre a foto do seu filho e eu comente que ele é lindo. Talvez, talvez, nos sentemos naquele boteco e possamos rir das nossas trepadas, e relembremos os velhos-bons-tempos-que-não-voltam-mais. Talvez eu chore um pouco de saudades daquela época e relembre o nome de todo mundo da turma, e possamos listar quem criou barriga, quem tem emprego público, quem come a empregada, quem embichou. Talvez só as boas recordações me assaltem. Pode ser que, então, eu já tenha esquecido as dores, que as mágoas sejam só lembranças e que seu rosto não me assombre mais. Talvez eu já não chore mais debaixo do chuveiro. Talvez eu passe a mão pelo seu rosto e meus olhos sorriam e nós possamos nos despedir prometendo contato, trocando emails e jurando encontros familiares em breve.

Talvez, algum dia. Hoje não. Hoje eu quero que você vá pra puta que o pariu."

Fal Azevedo

...essa noite...

foto de Graça Loureiro

"Eu tento te esquecer. Mas tudo que eu escrevo. É sobre você. Eu não posso me enganar. Fingir que estou bem. Porque não estou. Preciso de você. Preciso de você. Essa noite. E hoje estou aqui. Só pra te cobrar. O que você disse. Que iria ser pra sempre. Mas não foi assim. Agora o que me resta. Escrever nessa carta. Pra lembrar. Eu passo tanto tempo. Só te procurando. Em um outro alguém. Mas não posso me enganar. Sinto sua falta. E ninguém pode ver. Preciso de você. Preciso de você. Essa noite".

(Diego Ferrero / Leandro Rocha)
Nx Zero

08/06/2009

... enfim...outra vez...


Ela não podia insinuar, nem pedir abraço, não podia tocar, muito menos reclamar. Ele não diria que estava ferido, até fingia que quase não doía, e ela fingia que quase não machucava. Não se diziam nada, fechavam os olhos e deitavam um sobre o outro e ouviam o barulho do vento, fingiam dormir para enfim sonharem.
E sonharam o mesmo sonho. Não tinha hematomas, sufoco, dor, aperto no peito, nem coração exposto, estava tudo bem, enfim, outra vez.

...ferida....


Da carta que não chegou às tuas mãos, ficou um passado memorável.
Nela constavam os pequenos episódios que vivemos juntos.
Rasguei-a junto ao rio, fiquei a olhar os pedaços de papel
serem absorvidos pelas águas turvas.
A tentativa de apagar finalmente o nosso passado.
Dirias que não havia necessidade, dirias que o que vivêramos
não valia assim tanto, nem mesmo três folhas escritas
com o coração nas mãos, a arder.
Eu sorriria diante de ti como alguém que morresse.
Despiria as roupas e lançar-me-ia na corrente fria.
Tentaria recuperar o que conseguisse, pedaço a pedaço, até afogar-me de vez.

Só existem duas razões para mexer numa ferida.
Curá-la, ou abri-la ainda mais.

Fernando M. Dinis

_%

imagem na net

você disse some

e eu somei


eu disse some

e você sumiu


marcos caiado

...às vezes...

Ainda gostas de mim? perguntas-me tu sempre...
Às vezes!.. respondo-te sempre...


imagem Carlos Guimarães/MuseuAlmas
Às vezes tu me habitas como ruídos a uma casa,
como marcas a um rosto que por elas se define
e te lembrar é voltar ao que há de mais meu em mim mesma, à parte de mim mesma que me revela e me assombra.

Às vezes eu quase te esqueço,
quase te perco
e quase sou completamente triste
e quase sou completamente outra
sem a interrogação onipresente dos teus olhos,
sem a incompreensão cúmplice da tua voz.

Estás em mim e não há nada a fazer,
mesmo a meio da noite,
quando és um vazio cheio de pontas,
mesmo a meio da frase,
quando és um gole de ar no lugar do teu nome.

Tu és meu porque de ti sou feita
e negar-te a mim seria parir-me ao contrário.

Aceito assim meu ofício de habitar-me tu -
ainda que a mim nunca regresses,
mesmo que de mim jamais tenhas partido.

Ticcia

...Porque...


Foi quando tu chegaste que descobri meu solo e minha pátria, que deixei o exílio e dei um nome à terra de que sou feita. Porque tu tens uns olhos que se perderam no mar e voltaram depois das tempestades com a dor de quem mais uma vez pôde ser salvo. Porque teus braços me resgataram, neles desfiz minhas fronteiras e me tornei contigo um mesmo horizonte que junta infinitos de céu e água. Porque tua voz me conta coisas outras enquanto falas e tu sabes o que eu ouço e não temes que eu saiba sobre todos os teus medos. Porque tu dizes meu nome de olhos fechados, afundado em minha carne e a noite toda lateja dentro de mim e o ruído do mundo cessa para que eu possa me lembrar só da tua voz dizendo o meu nome longe de todas as coisas. Porque tuas mãos falam a língua da minha pele e enfeitam meus cabelos de pequenas conchas e musgos para que eu encontre os sentidos que eu supunha naufragados para sempre. Porque eu já não poderia me entregar a mais ninguém sem voltar a ser estrangeira em mim mesma, sem ser de novo uma estranha atrás de meus próprios olhos, sem desertar para sempre do meu corpo.

...Acompanhar-te...

túnel - s.Martinho do porto
foto de Dias dos Reis no pbase

Atravessei contigo a minuciosa tarde
Deste-me a tua mão,

A vida parecia difícil de estabelecer
Acima do muro alto folhas tremiam
Ao invisível peso mais forte.

Podia morrer por uma só dessas coisas
Que trazemos sem que possam ser ditas:

Astros cruzam-se numa velocidade que apavora
Inamovíveis glaciares por fim se deslocam,

E na única forma que tem de acompanhar-te
O meu coração bate...

Tolentino de Mendonça

07/06/2009

... fica comigo...


fica comigo peço
mas tu não me ouves


e eu sei que vou voltar a esperar por ti

na vida que me resta

e em todas as vidas
e em todas as mortes


até ao dia em que definitivamente

despeças o teu corpo do meu
e eu repita
fica comigo

e tu
desapareças
como quem esteve só à espera

de ventos favoráveis

Alice Vieira

...Como se o amor acabasse...

Imagem `amor eterno´ no blog deslimites do ser

Falo contigo:
e tu ouves-me, não me ouvindo, como eu te ouço
sem saber se é o que eu quero ouvir que vem das tuas frases,
ou se dizes o contrário do que sentes
para que eu sinta a verdade do que nenhum de nós sente …
Como se o amor acabasse no meio do que não começou;
ou a distância pudesse apagar o que não tem fim.

Nuno Júdice,
A Cartografia de Emoções

...Cobiça...

Foto de maluvik


Saber:
despertencer...

Nos aferramos a este mundo
como moluscos ao casco da barca...

Aprender o perder...
quando e como soltar...
deixar estar...

/

Eu,
que me deleitava com migalhas,
Hoje
cobiço a padaria.


Lavínia Saad

....inteira...

foto de maluvik
Eu aprendi com a primavera
a me deixar cortar
e voltar sempre inteira

Cecília Meireles

desfiaste-me por completo
e voltei ao novelo
Alinhar à direitacomo que intocável

( é o que se vê )


...Coração entreaberto...

imagem em http://olhares.aeiou.pt/maluvik


nunca me disseste para esperar por ti
e embora me deixes presa
deixas sempre a porta aberta para eu sair
sair da tua vida, onde nunca entrei
e viver a minha vida lá fora
onde não sei estar
onde não sei mais ir
depois de tanto tempo aqui fechada
prisioneira deste amor
que não me larga
e do qual nunca aprendi a me despedir
...

porquê me fazes sempre isto?
...é sempre como acordar um sonâmbulo
esse teu até breve, que mais parece até nunca mais...

"o amor não morre, adormece, para acordar mais belo"

e dói incomensuravelmente este pesadelo
de cada despertar sem ti, de cada "não esperes" teu
a cada dia meu

os outros não são dias, não contam
e são eternos, demoram tanto
os teus dias

chegará um dia...o nosso dia?


...quelque chose... chocolat...


o doce que eu mais gosto

chocolate

e quando me lembro do melhor
lembro-me de ti

imagem na net
in olhares



"there are worse things than being alone but it often takes decades to realize this; and most often, when you do, it's too late, and there's nothing worse than too late"

(Charles Bukowski )

há coisas piores do que a solidão mas geralmente leva-se décadas para entender isso. E, mais, quando se consegue, já é tarde demais, e não há nada pior do que tarde demais.

...Estranho...

http://olhares.aeiou.pt/maluvik

O amor é um lugar estranho
disso todos sabemos...

mas, será que está fechado?
algo me escapa aqui!!!

sempre achei que não era deste lugar...


...o pintor morreu...

imagem retirada da net no blog lua africana

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada à covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação

Zec`Afonso



...Sou de outras coisas...

foto de marta luis em www.olhares.aeiou.pt


Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade

Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega

Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero

Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente

Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia.

Fernando Tordo

...o amanhã...


Pinta-me o amanhã
por favor...

...que hoje
foi tão cinzento...!



"...todas as histórias têm um final feliz:
se a nossa não teve, é porque ainda não acabou..."


imagem retirada da net em http://olhares.aeiou.pt/maluvik

...Onde...


Quanto tempo passa,
Quanto tempo tenho,
Quanto tempo fica p’ra te dar.
Quanto tempo vais,
Quanto tempo ficas longe,
Quanto tempo tenho para te dar mais?
Por quanto tempo partes,
Quanto tempo levas,
Quanto tempo deixas o teu corpo em mim?
Quanto tempo pedes,
Quanto tempo guardas,
Quanto tempo temos, quando o tempo chega ao fim?
"onde te vais esconder ?"
Pedro Abrunhosa


05/06/2009

...Pressinto...


Estás partindo de mim
e eu pressinto que me partes,
e partindo, em ti me vais levando,
como eu que fico
e em mim vou te criando.

Tanto mais tu me despedes e te alongas,
tanto mais em mim vou te buscando
e me alongando,
tanto mais em mim vou te compondo
e com a lembrança de teu ser me conformando.

Estás partindo de mim e eu pressinto na verdade,
há muito que partias,
há muito que eu consinto
que tu partas como um mito...


Affonso Romano de Sant'Anna

...Necessito...


Nada garante que tu existas.

Näo acredito que tu existas.

Só necessito que tu existas.


David Mouräo Ferreira

...Não se vê...

hands off - Dalí

Não digo que te amei por ter possuído o teu corpo, mas sim por ter roçado a tua alma.

Se pudesse estar apenas perto de ti, a ouvir a tua voz e a demorar o meu olhar sobre o teu, ter-te-ia amado na mesma...

Fiquei presa no que está para lá do visível; enredada entre as folhas da tua verdadeira essência.

Possidónio Cachapa

...leva-me...

na outra margem da noite
o amor é possível

— leva-me —

leva-me entre as doces substâncias
que morrem cada dia na tua memória


Alejandra Pizarnik

...Acreditei...

Dalí

O meu amor não sabe
Como me faz chorar
Como me faz sorrir
Como me faz sonhar
Como me faz sentir...
O meu amor não sabe
Como é capaz de me ferir
Como é capaz de me fazer desistir
Como é capaz de me guiar
Como é capaz de me fazer seguir...
O meu amor não sabe
Como custa seu abandono
Como doi não ter seu carinho
Como angustia seu castigo
Como fere seu silêncio...
O meu amor não sabe
Como o amo e desengano
Como me deixo se morro
Como morro se me deixa
Como me engano se o amo...
O meu amor não sabe
Ou só eu é que sei
O meu amor não existe
Ou só eu acreditei...
O meu amor não sabe
Se soubesse me amaria
Não quereria outro amor
Que não o meu amor
Não esperaria
...O meu amor...

03/06/2009

...Tens noção?!:::

Destino - Dali
O tempo perde a noção
quando se trata de esperar-te

derretem-se-me os sorrisos
desfazem-se-me as forças
destroi-se-me a coragem
quando se trata de esperar-te

não há segundo que não doa demais a tua falta
não há minuto que não grite por dentro a tua falta
não há dia que não chore de noite a tua falta

o que há perde a noção
quando se trata de esperar-te

meu mundo desaba sem tua presença em mim
meu coração gela sem o teu abraço em mim
meu olhar baça sem o teu olhar em mim

o amor perde a noção
quando se trata de esperar-te

a razão perde a noção
quando pedes pra não esperar-te

malu


: - I

O exercício do silêncio é tão importante quanto a prática da palavra.

(William James)

Eu preferia que as palavras me magoassem, do que este silêncio que me mata...

...Fome...


" Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.

Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.

Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida."

Clarice Lispector

...Estou contigo mãe...



Vem!
Toca a minha mão
não desistas...
prossegue,
ergue o olhar a novos horizontes,
contigo caminharei.

A minha mão está estendida
sente o calor na ponta dos dedos.
Vem
juntas caminharemos por entre as ortigas
onde os pés tropeçam...
No oásis vislumbro jardins de rosas amarelas.

Segura com força
aprecia...é a minha mão.
Vem!
Não olhes para trás
alto é o abismo vertiginoso.

Continua
estou aqui ao teu lado
deixa as lágrimas caírem
despoja a revolta e a amargura
leve voarás...
Sobe comigo esta escarpa
agarra a corda...

Vem!
só mais um pouco
as pernas teimam em cair
rasteja eu rastejarei contigo.

Contempla
o sol já brilha no firmamento onde juntas sorriremos
sentadas nestas pedras...
Num abraço glorioso de vitória.

Eu estou contigo,
hoje e sempre.

Ana Coelho

(à minha mãe)