"... as reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..." Quintana
05/09/2010
04/09/2010
...Tenta esquecer-me...
Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar
Um fantasma... Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!
Mário Quintana
27/08/2010
... Deus é do Contra ...
Deus costuma usar a solidão
para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva para que possamos
compreender o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio, quando quer
nos mostrar a importância da aventura e do abandono.
Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar
sobre a responsabilidade do que dizemos.
Às vezes usa o cansaço, para que possamos
compreender o valor do despertar.
Outras vezes usa a doença, quando quer
nos mostrar a importância da saúde.
Deus costuma usar o fogo,
para nos ensinar a andar sobre a água.
Às vezes, usa a terra, para que possamos
compreender o valor do ar.
Outras vezes usa a morte, quando quer
nos mostrar a importância da vida.
Fernando Pessoa
16/08/2010
... se me pudesses ver ...
hoje descobri que mais algém sente como eu e sendo assim, concordo cada vez mais com a inexistencia das verdades absolutas, e consequentemente discordo cada vez mais, com a existencia das mentiras absolutas
"nós" existimos - pode ser passado / pode ser presente - mas não é mentira
je
se me pudesses veraqui sentada defronte da noitedobrada sobre a músicaroendo as unhassussurrando palavras ocas
tão infantilsisudacrescidamiudaadolescentevingativaputasereiaserpenterente ao chãoferidaaltiva
mulher de ninguémpradariaespigaminhamulher de todos os que nunca serão demaispara apagar o horror de pensarinfinitasecafartacheia de memórias cruéisfacase me pudesses ver agoraou mudarias tudo ou tudo era mentira.
isabel mendes ferreira
in, canto chão
29/07/2010
... É possível ...
É possível falar sem um nó na garganta, é possível amar sem que venham proibir, é possível correr sem que seja a fugir. Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem olhar para o chão, é possível viver sem que seja de rastos.Os teus olhos nasceram para olhar os astros. Se te apetece dizer não, grita comigo: não.
É possível viver de outro modo. É possível transformares em arma a tua mão. É possível o amor. É possível o pão. É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem. É possível viver sem fingir que se vive. É possível ser homem. É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre,
O Canto e as Armas
12/07/2010
... o poço...
Neruda faria hoje anos...
Cais, às vezes, afundas em teu fosso de silêncio, em teu abismo de orgulhosa cólera, e mal consegues voltar, trazendo restos do que achaste pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras em teu poço fechado? Algas, pântanos, rochas? O que vês, de olhos cegos, rancorosa e ferida?
Não acharás, amor, no poço em que cais o que na altura guardo para ti: um ramo de jasmins todo orvalhado, um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias de novo em teu rancor. Sacode a minha palavra que te veio ferir e deixa que ela voe pela janela aberta. Ela voltará a ferir-me sem que tu a dirijas, porque foi carregada com um instante duro e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri se minha boca fere. Não sou um pastor doce como em contos de fadas, mas um lenhador que comparte contigo terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri e me ajuda a ser bom. Não te firas em mim, seria inútil, não me firas a mim porque te feres.
Pablo Neruda,
O poço
06/07/2010
29/06/2010
22/06/2010
...do nada...
Todos os dias me é tirado o que um dia me foi dado. Todos os dias transpiro para me descobrir e nunca chego a tempo de partir. Cria abandonada, antes mesmo de nascer. O ninho caído, desfeito num anoitecer que a luz foi sempre miragem. Só a noite, toda a noite minha imagem, reflectida numa qualquer ausência. Noite após noite, sem clemência a apontar-me o dedo, a alimentar-me o medo. E eu que chorei para não ser eu, vi as minhas lágrimas tão perto do céu. Caí junto com a chuva, encoberto de mim, nunca estive tão longe… nunca estive tão perto... Todos os dias me é dado algo, que um dia me foi tirado. Todos os dias respiro a minha alma e nunca chego a tempo de nada…
jorge antunes
in poetik
21/06/2010
... meu rico amor ...
... O mais seguro crédito de quem ama, é a confissão da dívida no amado; mas como há-de confessar a dívida, quem a não conhece? Mais lhe importa logo ao amor o conhecimento que a paga; porque a sua maior riqueza é ter sempre individado a quem ama. Quando o amor deixa de ser credor, só então é pobre. Finalmente, ser tão grande o amor que se não possa pagar, é a maior glória de quem ama ...
antónio vieira
... O sentido ...
... a propósito dos pormenores que interpretamos, nao serem a maior parte das vezes coincidentes, entre o que tu e eu vivemos, vimos, lemos, escrevemos, dizemos, observamos, em cada situação e/ou alguém observou disse, escreveu, leu, viu ou viveu, sobre a mesma matéria, o mesmo acontecimento, a mesma circunstãncia, mesmo que noutro espaço, noutro tempo, ou ali mesmo a nosso lado...
malu
Não há verdadeiro sentido de um texto. Não há autoridade do autor. Quisesse dizer o que quisesse, escreveu o que escreveu. Uma vez publicado, um texto é como um aparelho de que cada um se pode servir à sua maneira e segundo os seus meios: não é certo que o construtor o use melhor do que outro qualquer.
Paul Valéry,
in 'A Propósito do Cemitério Marinho'
16/06/2010
15/06/2010
... sina ...
...Vas a vivir dos vidas, no una sola. Te vas a casar, harás hijos... pêro distintos. Vas a viajar... muy lejos. Vas a amar, muchísimo, vas a sufrir y harás sufrir. Al final, te perderás, te encontrarás, no sabría decirlo, pêro la decisión será tuya. El camino lo harás tú...
la ciganita
08/06/2010
... fazes-me bem ...
"Faz-me bem apanhar vez ou outra a chuva da vida."
(Henry Longfellow)
Chovia miudinho... um frio de cortar e o mar ali, sózinho... no meio das flores, da areia negra que chamam de terra de jardim... no meio do dia, no meio do trabalho de contar e verificar espécies e mais espécies de plantas, arbustos, e herbácias tão pouco de diferenças identificáveis que, até parecia uma missão impossivel... e, o vento parou a minha atenção... o cheiro da natureza nas minhas mãos levou o meu pensamento até ti... e confirmei que estás em mim ...
(Marta Luis )
Hoje na Praia de Paredes de Vitória
Hoje na Praia de Paredes de Vitória
01/06/2010
23/05/2010
... até sempre amigo ...
1967 - 2010
O mundo para nesse instante, chegou a hora dos porquês,
Tento resistir, a dor que aperta o coracão,
Mas nem mesmo assim, me convenco da razao...
A noite ja la vai e a dor nao terminou,
E até a lua que era amiga se mudou,
Só ficou aquela estrela que estará sempre comigo,
Sei que quando todos fogem tenho sempre este porto de abrigo...
Porto de abrigo, onde sempre quero estar,
Sei que contigo ninguem me vai magoar,
Só tu sabes criar, toda esta ilusão,
Por ti terei o mundo na minha mão...
Agora quando a noite cai, ja nao importa onde estás,
A minha estrela ilumiou-me, fez-me sentir que não mudarás,
Já não há dor para resistir, história de amor ou ilusão,
Esta farsa terminou, já sou dono da razão...
21/05/2010
... A paisagem ...
Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes.
fernando pessoa
in, 'Cancioneiro'
in, 'Cancioneiro'
Alma e Realidade, Duas Paisagens Sobrepostas
19/05/2010
...luz...
"...Abre-me o sonho.
Para a loucura a tenebrosa porta,
que a treva é menos negra que esta luz."
fernando pessoa
10/05/2010
... sempre a inconstância ...
Os que se exercitam a prescrutar as acções humanas, em coisa alguma se acham tão embaraçados como em conjugar umas com as outras e mostrá-las à mesma luz, pois comummente elas se contradizem entre si de modo tão estranho que parece impossível terem todas saído da mesma loja.
(...) Alguma razão parece haver no julgar um homem pelas mais comuns acções da sua vida, mas, atendendo à natural instabilidade dos nossos costumes e opiniões, amiúde se me tem afigurado que mesmo os bons autores erram ao obstinarem-se a conceberem-nos como um todo coerente e constante. Escolhem uma imagem global, segundo a qual classificam e interpretam todas as acções da personagem, e quando não as conseguem conformar a ela, atribuem-nas à dissimulação.
(...) O nosso procedimento habitual é seguir as inclinações do nosso desejo, para a esquerda, para a direita, para cima e para baixo, para onde quer que nos empurrem os ventos das circunstâncias. Não pensamos no que queremos senão no instante em que o queremos, e mudamos como o animal que adquire a cor do local onde o pousam. O que agora mesmo acabámos de projectar, em breve o viremos a alterar, e, pouco mais tarde, voltaremos sobre os nossos passos: tudo não é senão oscilação e inconstância.
Michel de Montaigne,
in 'Ensaios - Da Inconstância das Nossas Acções'
01/05/2010
...tudo é fugaz...
Considera com frequência a rapidez com que se passam e desaparecem os seres e os acontecimentos. A substância, como um rio, está em perpétuo fluir, as forças em perpétuas mudanças, as cuasas a modificarem-se de mil maneiras; apenas há aí uma coisa estável; e abre-se-nos aos pés o abismo infinito do passado e do futuro onde tudo se some. Como não há-de ser louco o homem que, neste meio, se incha ou se encrespa ou se lamenta, como se qualquer coisa o tivesse perturbado durante um tempo que se visse, um tempo considerável?
Marco Aurélio
(Imperador Romano),
in "Pensamentos"
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