21/06/2009

...como o tempo...

praia de maresias - juliano sodré da nóbrega
Este amor
Tão violento
Tão frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Belo como o dia
E mau como o tempo

Jacques Prévert

20/06/2009

...sorri...

a coruja das torres não sabe sorrir
imagem no olhares foto de nuno martinho


Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz...
Charles Chaplin

19/06/2009

400


pela 400ª vez, vou clicar aqui, em "publicar mensagem"

desde que por aqui paro
estou talvez, um pouco menos "analfabeta"

pelo menos
de coração
e de alma
vou-me alimentando dos pedaços ocos e recheados de sentimentos
de todos os que vos mostro
além de mim
e que identifico também como se de mim

o que começou por ser um blog-diário, onde vinha apenas registar
pra não me perder, de todos os meus pensamentos poéticos, veio mais tarde a transformar-se num abrigo que me acolhe por inteiro, e onde trago para guardar ou mesmo para me e vos mostrar "coisas" não escritas por mim, mas que me tocam ao ponto de assim o querer...

e pelo meio, apanhei o amor, e neste blog o vou curando...
é a única doença, de que admito morrer
é a única dor que todos os dias (quase todos) e ás vezes aqui (principalmente aqui) me ressuscita

vazia do que amo
vou amando o que me preenche
em recantos que vou descobrindo e partilhando...
e noutros momentos
faço da etiqueta "palavras minhas" este o "meu" espaço, onde me reencontro
apesar do abuso das reticências...

obrigados
a todos os que me fazem continuar a escrever, e a ler

malu

foto de joão dias

...do outro lado...

A voz dele chegou-lhe suave do outro lado da linha.
Do outro lado do amor...
Foi no dia da mesma manhã em que a água lhe pareceu mais fria. Mais áspera a cair na pele nua que as suas mãos apertam na tentativa de reencontrar a sensação das dele. As dele. Que tacteiam agora coisas diferentes, coisas que ela não conhece. Do outro lado da paixão.

A voz dele fez com que ela percorresse outra vez todos os caminhos interiores que conduzem inevitavelmente aquela ternura tão forte que faz chorar. Aquela ternura que se sente poucas vezes numa vida. Do mesmo lado do amor.

Roteiros interiores de estradas humedecidas por lágrimas que ela já não sabe chorar. As que chora agora são diferentes. Não chegam a secar. Ele não está lá para as afastar.
Mas mesmo do outro lado da linha ela sente-lhe o carinho no olhar.
Quase adivinha o sorriso sincero no encontro das duas vozes. Aquele sorriso que gostava de poder guardar em qualquer sítio mais especial do que a simples memória. Do outro lado da vida.

Ela não conseguiu dizer-lhe tudo. Tentou, mas sabe que nunca se consegue dizer tudo.
Ás vezes, como uma criança, atira-se para cima da cama ao som de uma música antiga, e deixa-se ficar a imaginar que ele sabe. Que ele sabe tudo o que ela sente. E que acredita. Do outro lado do sonho.

Custou-lhe lembrar-se que a voz dele ia continuar depois de pousar o auscultador. Não para ela. Mas do outro lado da linha...


...cemitério dos poetas...

















Há pessoas que põem palavras nos nossos sentimentos. Parecem-se com os poetas. Mas, depois de surpresa, abandonam os nossos sonhos pé ante pé ou de pantufas. Não sei... Na verdade, decepcionam-nos (devagarinho) e, quando damos por isso, apagam-se dentro de nós. Deixam de ser preciosas e, por tudo o que valeram, não podem voltar a ser só nossas amigas. Partem, portanto, para uma terra de ninguém, muito distante (...)

Este não sei para onde (eu sei que, dito assim, custa só de pensar) é uma espécie de cemitério de poetas dentro de nós. Um lugar de silêncio que convida a espreitar para o que sentimos. Com surpresa e com dor, ao descobrirmos que, ao contrário do que sempre desejámos, há relações - luminosas - que foram morrendo para nós.

Às vezes, assusta. Afinal, não é simpático descobrirmos que mora em nós alguém que, não sendo o Capitão Gancho, tenha ajudado a morrer (de inanição, por exemplo) quem trouxe poesia, ou luz, ou um insustentável rebuliço ao que sentimos...
Ás vezes, atormenta. Porque magoa descobrirmos que - mesmo quando nos imaginamos a dar a sala mais espaçosa do nosso coração - também nós, dentro de algumas, vivemos sem viver, errantes, nesse não sei onde de alguém, entre os seus amigos e os seus amores.
Ás vezes ainda, somos tocados pelos galenteios da vida e, levados pelo entusiasmo, imaginamos que, se desejarmos com muita força, algumas das pessoas que guardamos no nosso cemitério de poetas ressuscitam e regressam, cheias de luz (...)

Eu sei que também entre as pessoas há quem pareça mágico mas intocável. Como eles. Mas não se esqueça: esse é o cais de embarque que, de surpresa, nos pode levar (sem volta) para o cemitério dos poetas.

...não podes?...

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.

Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação estática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.

Vinicius de Moraes
mensagem à poesia

...chuva de Verão...


Chove torrencialmente no meu pensamento. Chuva azul que lava tudo, pelo menos o mais superficial... E todas cores são intensificadas com água fria, e mudam a cada instante numa infinidade de tonalidades muito parecidas. Não há estrelas visíveis de dia e nem sol de noite que inunde a madrugada do pensamento e apague estas cores de água fria. O brilho de ontem a arder por cima dos nossos corpos esquecidos num qualquer fim de manhã ou tarde... Continuam as imagens a passarem cada vez mais rapidamente, a música, as vozes, a tua voz e a minha antes de se voltarem a perder no vazio. E continua o Iggy Pop insistentemente "...lust for life"... a dar ao longe mas podia ser outra música qualquer. De que se pode fugir se já está tudo dentro de nós? Mesmo antes de sabermos e então depois... Volto a dizer que se ficasses só mais um instante, o seguinte, por exemplo podia contar-te aonde leva esta tortuosa estrada de pensamentos. O fim é sempre muito mais interessante, mesmo que o início da história se tenha perdido algures, numa outra antes desta. Ou terá sido depois??
Quantos instantes iguais a este seriam precisos para preencher o universo de ilusão do qual é feito tão cuidadosamente o tempo??
É preciso que não te percas agora. Nem eu. O horizonte está a tornar-se finalmente mais claro. Chegaremos a tempo? A chuva parou, o pensamento está a tornar-se aos poucos mais nítido.
Um beijo para ti.

...relatividade...

Às vezes criamos pequenos sonhos
em cima de grandes pessoas...
com o passar do tempo descobrimos que ...
grandes são os sonhos e pequenas demais as pessoas ...

...algures...


...algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que eu não posso tocar de tão próximas que estão...
E.E. Cummings

...talvez...



Talvez o mar remasse
melhor os nossos barcos
e o sonho fosse uma noite
de lua-cheia
se a lonjura
consentisse náufragos

Talvez o mar remasse
melhor esta branda tempestade
no desamor incontido de arder
em pleno voo

Eufrázio Filipe
A Linguagem dos Espelhos

...o que dói...


O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos

O que dói
É o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos

O que dói
É tudo mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos
Daniel Faria

...a claridade...


Tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,que eu amava,
quando imaginava que amava.
Era a tua voz que dizia as palavras da vida.

Era o teu rosto, era a tua pele, antes de te conhecer.
Existia nas árvores, nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
José Luís Peixoto

...é tarde...



É um adeus...
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus...

Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.

De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,

Só o pode vencer a humanidade
Da nossa lucidez desencantada.

Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de líquido pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada.

Miguel Torga

...ainda a fome de ti...

Aqui,
onde a mão não alcança o interruptor da vida,
aqui

só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

Aqui,
onde a brancura dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui

a solidão não brilha,
apenas se estorce.

A fome fala através das feridas.
Luís Miguel Nava
Vulcão

La nuit

chagall

La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puis que je le die
Puis que je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.


Paul Eluard

Derniers poèmes d'amour

...imensas e nocturnas...



Portas,

imensas e nocturnas portas,

quando o que desejamos é

um rasgão luminoso.



Mário Rui de Oliveira

O Vento de Noite

...a luz que não sou...


Queria ser luz para poder sentir
a tua alma sôfrega bebê-la...
Queria ser luz para poder dormir
vibrando e ardendo como aquela estrela...
Se eu fosse luz iria descobrir
mais oceano ainda a cada vela;
como os olhos das águias a fulgir
seguiria nas noites de procela...
Ser luz para doirar toda a miséria,
talhar em jóias as pedras dos caminhos,
florir as almas, acordar os ninhos...
Quando beijo a chorar a noite etérea
do teu olhar, amor, a minha cruz
é esta sede imensa de ser luz!
António Patrício
Poesia Completa

18/06/2009

...Premonição...

e...se eu pudesse escrever-te assim ...

Durante muito tempo, vim aqui para falar de Amor , um imenso , puro e imperdivel Amor.

Falei dele com carinho, com doçura , muitas vezes com dor e desespero . A situação que durante quase 3 anos vivi , não foi uma opção como muitos poderão pensar , julgando-me. Foi uma inevitabilidade . Existem pessoas , existem amores de que não se pode fugir . Existem momentos na vida que de alguma maneira nos esperam , que esperam que façamos o melhor possível . Existem momentos , amores, pessoas que podem mudar a vida inteira . Que estão lá para isso mesmo .

Fiz o melhor que pude , que soube. Ele fez o mesmo . Apenas existia uma certeza incontornável : Não nos podíamos perder . O resto, era um mistério , era esperar que a vida ou Deus , fizessem o melhor possível por nós .
Vivi uma situação condenável ? Sim, mas nunca maldosa, de má fé, nunca suja . Amei este homem com todas as minhas forças e acreditei , com muito medo de acreditar , que o Amor poderia vencer todos os medos . Chorei muito . Quantas vezes adormeci exausta pelas lágrimas.

Posso hoje dizer que fui muito amada . Que amei em igual medida . Que mil vezes me questionei acerca do que estava a pedir a este homem . Do que ele próprio estava a pedir à vida . Teria eu o direito ? Teria ele o direito? No fim, ambos fizemos o que sentimos .

Não foi um processo pacifico . Foi antes uma sucessão de acontecimentos extremamente penosa e ninguém deu pulos de alegria quando tudo se consumou . Se vim aqui escrever que o Amor venceu foi só porque o senti verdadeiramente . Mas o Amor teve um árduo percurso de lágrimas, de medo , de um tormento que poucos saberão avaliar . No fim, sim , venceu . Aliás , está a vencer todos os dias …

Devagar, muito devagar , o amor foi como uma brisa, um vento muito quieto , que se apoderou de lugares e tempos , que foi abrindo janelas e portas tão fechadas e deixou entrar a VIDA.
Devagar , fomos criando a certeza de que o único caminho era este , de que a única alternativa era a escolha séria e definitiva de uma outra vida e de todos os sonhos . Não grandes sonhos , apenas este de estar aqui a escrever e ao meu lado sentir a respiração serena do homem que amo , de estender a mão e tocar-lhe , de saber que nos lábios dele se desenha imediatamente o mais lindo sorriso .

Olho para ele e penso em tudo o que deixou para estar aqui . Não se apaga uma vida inteira , não se fecha uma porta e se esquece o que fica do lado de lá . Quando veio para mim, existiam tantos destroços que temi perder-me , existiam tantas lágrimas no seu rosto que achei que não poderia estar à altura de tantas perdas. Não sabia o que fazer senão amá-lo, abraçá-lo, pedir-lhe que me deixasse amá-lo …

O Amor venceu por muitas razões . Não só porque eu existia . Eu era uma destino mas entre esse destino e todos os acontecimentos dos últimos tempos , muitas razões se diluíram para hoje estarmos juntos . Por vezes, um casamento é apenas o nome que se dá a duas pessoas que já nem falam , que já não se conhecem, onde o Amor já faliu há muito tempo , onde nem um único gesto de carinho ou de reconhecimento é feito em direcção ao outro . Por vezes um casamento é apenas o suceder vazio dos dias ou o barulho a rodear um silencio incomodo . Hoje sei que mesmo que eu não existisse , o fim viria . Não o digo para me inocentar ou para me sentir melhor. Este homem que amo infinitamente talvez nunca tivesse tido a noção exacta do que é ser honestamente amado, querido , desejado. Encontrarmo-nos foi a aprendizagem de um mundo novo , onde eu aprendi a amar e ele a ser amado , onde sou amada e amo , sem limites, sem medos , sem medida , sem jogos .
Pertencemo-nos . Certeza tão evidente há tanto tempo .

Hoje ele está aqui . Todas as noites adormecemos abraçados . Por vezes, antes de adormecer , naquele pequeno momento em que o sono se mistura com a realidade já quase a vencê-la, ainda abro os olhos a medo para o redescobrir a meu lado , mas temendo que tudo não passe de um sonho , que ainda esteja sozinha na minha cama , longe daqui e dele . Mas acordo e ele está a abraçar-me e a sorrir e sei então que este sim é o sonho , o único pelo qual valeria a pena arriscar uma vida inteira .
Existe uma paz infinita no nosso abraço , uma certeza tranquila de saber que agora sim , vivemos . Olho para o meu lado e sorrio . Como posso não o fazer ?... Tenho ao meu lado o Grande Amor da minha vida e esse é um privilégio infinito .
Onde existir um grande Amor, existirão sempre milagres . Gosto muito desta frase . Já a escrevi mais que uma vez aqui . Sempre acreditei nela . O meu milagre , devo-o ao homem maravilhoso que amo e a quem nunca me cansarei de elogiar . Quantos fugiriam ao ver o Amor tomar o lugar de uma vida talvez vazia de sentimentos, mas segura ? Quantos não acreditariam ? Quantos não arriscariam ? Mas este homem tão bonito disse que é possível disse para ter calma e acreditar. Nunca largou a minha mão mesmo quando tudo era sombrio Amou-me sem duvidas e condições . Existiu durante todos os dias da minha vida depois do primeiro dia em que veio até mim . Foi a minha vida … É a minha vida…

Obrigada por todo o carinho que recebo . As pessoas que estão desse lado e de quem aprendi a gostar mesmo sem saber quem são , têm tido por mim um respeito e um carinho que me comove . Por isso , achei necessária esta breve explicação . Por isso , hoje escrevi para vós apenas . Eu vou continuar por aqui , não há diferença no Amor que sinto . Apenas o Até já adquiriu agora a sua verdadeira dimensão de brevidade .

Deixa-me tocar-te


"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...Ou toca, ou não toca."

C. Lispector

imagem de manecas na net

ama-me nômade

Livre de laços
Sou estátua de limo
Em plena ilha no espaço
Deixo restos entre espinhos

Nesta insônia insólita
Insinuo-me entre juncos
Onde a luz é órbita do olho,
E o cheiro pergunta ao nariz

Se as paredes são lisas
Como carne e linho,
Para existir, repiso
-Sistere - ex -

Insisto nas entrelinhas
Volto raízes ao céu
E flutuo, em treva branca
Em mim, há um cosmo ínfimo,
Cidade quase caos aos trancos

Peço em silêncio, crestado ao relento
Úmido à beira-mar, mofada por um triz:
Ama-me a seco, íntimo, feito nômade do deserto

Depois, adormeco meu semblante

Feito morta, por horas, volto louca,
Outrem sob seu olhar, prometo brincar
Sem Sartre L'être nem Néant
Beatriz M. Moura