Evitei
assim como evito o chocolate Godiva
Tento não comer queijo da serra à colherada
Nem pão quente
em domingos inteiros sem sair à rua
Tento não me fechar
Não ficar só
Pra não lembrar de como é bom estar a sós contigo
Não resisti
e saboreei cada cereja
no primeiro molhe do ano nas minhas mãos
Como queria saborear todos os frutos da época,
a cada época, contigo
Como queria...
Como sabia, que me perderia
por apenas viver...a cada dia
E tudo o que toco
Tudo o que provo
Tudo o que aprecio
Morre sem gosto
Morre sem sal
Falta na minha vida
nos meus dias
nos meus ais
o teu estar
o teu sabor...
Malu
"... as reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..." Quintana
22/05/2009
...O teu sabor...
21/05/2009
...Faz-me falta...
Faz-me falta um demónio,
ao menos um demonio,
que se acomode no sótão mental
para expulsar dos versos as metáforas,
dar um jeito travesso na ternura
e um som de sacrilegio nas paixões.
Um demónio servil
para pintar de carmim os labios descorados
dos múltiplos rostos
que a verdade costuma apresentar-nos;
e que varra do chão
os vidros rotos
em que piso descalça
na minha travessia do deserto.
Tania Alegria
...Promessas...
20/05/2009
...Andas a semear pedras...
A maior solidão é a do ser que não ama.
A maior solidão é a dor do ser que se ausenta,
que se defende, que se fecha,
que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo,
no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar
de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar,
o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.
Esse queima como uma lâmpada triste,
cujo reflexo entristece também tudo em torno.
Ele é a angústia do mundo que o reflete.
Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção,
as que são o patrimônio de todos, e,
encerrado em seu duro privilégio,
semeia pedras
do alto de sua fria e desolada torre.
Vinicius de Moraes
...Uma vez mais...

Sonhei contigo
embora nenhum sonho possa ter habitantes
tu, a quem chamo amor,
cada ano pudesse trazer um pouco mais de convicção
a esta palavra.
É verdade
o sonho poderá ter feito com que,
nesta rarefacção de ambos,
a tua presença se impusesse
como se cada gesto do poema te restituisse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus lábios
com o rebordo desta chávena de café já frio...
Então, bebo-o de um trago.
o mesmo se pode fazer ao amor,
quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço
-terra, água, nuvens, rios e o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência das fontes.
É isto, porém, que faz com que a solidão
não seja mais do que um lugar comum
saber que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me responda
quando, uma vez mais te chamo.
(Nuno Júdice)
...Talvez apareça...
19/05/2009
...nuvem...
...
Se uma pausa não é fim
silêncio nâo é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido,
será acabado?
um ouvido que escuta uma alma que espera...
-uma onda desfeita
É ou já não era?
Nuvem solitária, silenciosa e breve,
nuvem transparente,
desenho etéreo de anjo distraído...
nuvem, esquecida em céu de esperança,
forma irreal de sonho interrompido...
nuvem, luz e sombra,
forma e movimento,
fantasia breve de ânsia de infinito...
nuvem que foste e já não és:
desejo formulado e incompreendido.
...adia antes a paz...
...um dia quero falar-te da espera...
de como pacificar um desejo é o
caminho mais longo para adiar um abraço...
...queria morrer contigo...

queria morrer contigo
não queria morrer de ti
prendi o amor nos meus braços
mas uma chuva de areia negra cospe o meu sangue
onde o coração queria morrer contigo
contra o corpo limite do dia
arder praias onde o tempo acabava
começar Deus onde era o fim
não queria morrer de ti
a noite toda tem a espessura da perda
a boca beija o batimento da terra
o medo abraça-me
e ainda é tão tarde para que morramos os dois
Pedro sena-lino
...nada...
... Quando nada me dizes, entro num modo vegetativo de estar, há um piloto automático que me guia o coração levando-o a lado nenhum, mas que me mexe os braços e as pernas, me articula os sons e as palavras e me forma sorrisos na cara, para que os outros não percebam que por dentro me resta apenas um sopro de vida, uma fímbria de alento e uma bola calada de gritos enrolados...
a. aqui
...Não Gosto...
Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem...
Senhas
Adriana Calcanhoto
Sempre foi uma canção
que me disse muito,
e em certos momentos,
mais ainda...
18/05/2009
...des(umano)...
12/05/2009
...Querer-te...

Querer-te é um vôo em que me lanço,
como ave de curta vida
indo de encontro ao rochedo.
Sou frágil para tanto amor e ainda assim, vou,
busco de livre vontade os tormentos,
as tormentas do amor, esse insaciável tirano.
Querer-te é um vento a que me entrego,
andando da terra para o mar, a levar
os perfumes, o pó do tempo.
E o tempo nada pode para tanto amor.
Querer-te é voltar sempre os olhos para trás
e chorar a lágrima azul
que em meus olhos deixaste.
Azul do mar que não cessa de crescer entre nós.
Querer-te é esse lamento de rio nas pedras,
esse subterrâneo do mar da realidade,
esse imaginar, como se existisse a rosa,
o arco-íris e sua promessa de felicidade.
saramar em
http://www.abrindojanelas.blogspot.com/
...Existe...
Imagem de Francine Von Hove
http://www.youtube.com/watch?v=wRZ9HsGkyZk
O Meu Amor
O meu amor tem lábios de silêncio
O meu amor tem trinta mil cavalos
O meu amor ensinou-me a chegar
O meu amor ensinou-me a partir
Rui Malheiro e Tiago Leitão
...alienada...
com sangue irrequieto pulsando,
espiando a nudez do mundo
e esgueirando-se nos esconderijos
paralelos das sombras.
Fui a louca que viveu
amedrontada pela mágoa,
refugiada na dor do sossego
que mente às consciências
tresloucadas dos sentimentos.
Fui a louca que amou
numa overdose de quimera,
cega pela incandescência da mentira
proferida por lábios embaciados
de trevas devoradoras.
Fui a louca que morreu
esquecida num deserto qualquer,
gelada e desperta pela lâmina
com que m'amputaste a alma
apenas com um silêncio.
Vera Sousa Silva
http://prosas-e-versos.blogspot.com
10/05/2009
...Pessoas...
que, ao longo da nossa vida, passam,
como passam as paisagens pela janela de um trem.
Nada mais são, nada mais querem ser,
senão paisagem.
Bonita, às vezes; passageira sempre…
que viajam connosco no mesmo comboio,
que permanecem ao nosso lado por toda a jornada,
compartilhando tudo:
as alegrias e também os momentos difíceis.
A essas oferto minha amizade,
meu coração e minha alma."
...Inesquecível?!...
07/05/2009
...Sigo...
Sigo apertada ou aos solavancos num autocarro sem campainha, sem janelas, sem retrovisor nem laterais, sem cortinas ou luz, nem médios ou máximos, em piloto automático, os passageiros calados ou inexistentes, o assento sem cinto, um depósito roto... e nem durmo, nem aprecio a paisagem!
Um dia li algures:"sou uma nuvem perdida na solidão de um céu onde as estrelas se aborrecem"... e ali me identifiquei... Mas não fiquei... por mais que parecesse o meu lugar comum, não me segurei, bem tentei, mas não havia lugar pra mim...
Sempre que isto acontece, morro ou vivo o luto, e nunca sei, quando volto, quando ressuscito...
Ás vezes sou o sol que brilha em qualquer hemisfério...a estrela mais próxima de mim mesma, que de vida e calor faz pulsar meu próprio coração... e consigo aquecer as mãos do outro, e também o seu coração...
Ás vezes sou o gelo espesso, que não corta nem meus pés, porque não consigo patinar sobre esse chão que me foge esguio e me faz cair, mas barra, fere e esvazia tudo e todos em meu redor...
Ás vezes saio de mim, porque dói demais estar em mim assim...
Ás vezes procuro-me ou encontro-me, fora ou dentro, perto ou longe, rebusco-me, restauro-me e descanso...
Ás vezes consigo...
Outras vezes sigo...
Não é a viagem que me cansa... é apenas o facto de viajar sempre sozinha...!


