"... as reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..." Quintana
22/05/2009
...Vaga...
...Memento...
Faz tudo como se alguém te contemplasse
Epicuro
...O teu sabor...
Evitei
assim como evito o chocolate Godiva
Tento não comer queijo da serra à colherada
Nem pão quente
em domingos inteiros sem sair à rua
Tento não me fechar
Não ficar só
Pra não lembrar de como é bom estar a sós contigo
Não resisti
e saboreei cada cereja
no primeiro molhe do ano nas minhas mãos
Como queria saborear todos os frutos da época,
a cada época, contigo
Como queria...
Como sabia, que me perderia
por apenas viver...a cada dia
E tudo o que toco
Tudo o que provo
Tudo o que aprecio
Morre sem gosto
Morre sem sal
Falta na minha vida
nos meus dias
nos meus ais
o teu estar
o teu sabor...
Malu
21/05/2009
...Faz-me falta...
Faz-me falta um demónio,
ao menos um demonio,
que se acomode no sótão mental
para expulsar dos versos as metáforas,
dar um jeito travesso na ternura
e um som de sacrilegio nas paixões.
Um demónio servil
para pintar de carmim os labios descorados
dos múltiplos rostos
que a verdade costuma apresentar-nos;
e que varra do chão
os vidros rotos
em que piso descalça
na minha travessia do deserto.
Tania Alegria
...Promessas...
20/05/2009
...Andas a semear pedras...
A maior solidão é a do ser que não ama.
A maior solidão é a dor do ser que se ausenta,
que se defende, que se fecha,
que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo,
no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar
de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar,
o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.
Esse queima como uma lâmpada triste,
cujo reflexo entristece também tudo em torno.
Ele é a angústia do mundo que o reflete.
Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção,
as que são o patrimônio de todos, e,
encerrado em seu duro privilégio,
semeia pedras
do alto de sua fria e desolada torre.
Vinicius de Moraes
...Uma vez mais...

Sonhei contigo
embora nenhum sonho possa ter habitantes
tu, a quem chamo amor,
cada ano pudesse trazer um pouco mais de convicção
a esta palavra.
É verdade
o sonho poderá ter feito com que,
nesta rarefacção de ambos,
a tua presença se impusesse
como se cada gesto do poema te restituisse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus lábios
com o rebordo desta chávena de café já frio...
Então, bebo-o de um trago.
o mesmo se pode fazer ao amor,
quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço
-terra, água, nuvens, rios e o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência das fontes.
É isto, porém, que faz com que a solidão
não seja mais do que um lugar comum
saber que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me responda
quando, uma vez mais te chamo.
(Nuno Júdice)
...Talvez apareça...
19/05/2009
...nuvem...
...
Se uma pausa não é fim
silêncio nâo é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido,
será acabado?
um ouvido que escuta uma alma que espera...
-uma onda desfeita
É ou já não era?
Nuvem solitária, silenciosa e breve,
nuvem transparente,
desenho etéreo de anjo distraído...
nuvem, esquecida em céu de esperança,
forma irreal de sonho interrompido...
nuvem, luz e sombra,
forma e movimento,
fantasia breve de ânsia de infinito...
nuvem que foste e já não és:
desejo formulado e incompreendido.
...adia antes a paz...
...um dia quero falar-te da espera...
de como pacificar um desejo é o
caminho mais longo para adiar um abraço...
...queria morrer contigo...

queria morrer contigo
não queria morrer de ti
prendi o amor nos meus braços
mas uma chuva de areia negra cospe o meu sangue
onde o coração queria morrer contigo
contra o corpo limite do dia
arder praias onde o tempo acabava
começar Deus onde era o fim
não queria morrer de ti
a noite toda tem a espessura da perda
a boca beija o batimento da terra
o medo abraça-me
e ainda é tão tarde para que morramos os dois
Pedro sena-lino
...nada...
... Quando nada me dizes, entro num modo vegetativo de estar, há um piloto automático que me guia o coração levando-o a lado nenhum, mas que me mexe os braços e as pernas, me articula os sons e as palavras e me forma sorrisos na cara, para que os outros não percebam que por dentro me resta apenas um sopro de vida, uma fímbria de alento e uma bola calada de gritos enrolados...
a. aqui
...Não Gosto...
Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem...
Senhas
Adriana Calcanhoto
Sempre foi uma canção
que me disse muito,
e em certos momentos,
mais ainda...
18/05/2009
...des(umano)...
12/05/2009
...Querer-te...

Querer-te é um vôo em que me lanço,
como ave de curta vida
indo de encontro ao rochedo.
Sou frágil para tanto amor e ainda assim, vou,
busco de livre vontade os tormentos,
as tormentas do amor, esse insaciável tirano.
Querer-te é um vento a que me entrego,
andando da terra para o mar, a levar
os perfumes, o pó do tempo.
E o tempo nada pode para tanto amor.
Querer-te é voltar sempre os olhos para trás
e chorar a lágrima azul
que em meus olhos deixaste.
Azul do mar que não cessa de crescer entre nós.
Querer-te é esse lamento de rio nas pedras,
esse subterrâneo do mar da realidade,
esse imaginar, como se existisse a rosa,
o arco-íris e sua promessa de felicidade.
saramar em
http://www.abrindojanelas.blogspot.com/
...Existe...
Imagem de Francine Von Hove
http://www.youtube.com/watch?v=wRZ9HsGkyZk
O Meu Amor
O meu amor tem lábios de silêncio
O meu amor tem trinta mil cavalos
O meu amor ensinou-me a chegar
O meu amor ensinou-me a partir
Rui Malheiro e Tiago Leitão
...alienada...
com sangue irrequieto pulsando,
espiando a nudez do mundo
e esgueirando-se nos esconderijos
paralelos das sombras.
Fui a louca que viveu
amedrontada pela mágoa,
refugiada na dor do sossego
que mente às consciências
tresloucadas dos sentimentos.
Fui a louca que amou
numa overdose de quimera,
cega pela incandescência da mentira
proferida por lábios embaciados
de trevas devoradoras.
Fui a louca que morreu
esquecida num deserto qualquer,
gelada e desperta pela lâmina
com que m'amputaste a alma
apenas com um silêncio.
Vera Sousa Silva
http://prosas-e-versos.blogspot.com
10/05/2009
...Pessoas...
que, ao longo da nossa vida, passam,
como passam as paisagens pela janela de um trem.
Nada mais são, nada mais querem ser,
senão paisagem.
Bonita, às vezes; passageira sempre…
que viajam connosco no mesmo comboio,
que permanecem ao nosso lado por toda a jornada,
compartilhando tudo:
as alegrias e também os momentos difíceis.
A essas oferto minha amizade,
meu coração e minha alma."
...Inesquecível?!...
07/05/2009
...Sigo...
Sigo apertada ou aos solavancos num autocarro sem campainha, sem janelas, sem retrovisor nem laterais, sem cortinas ou luz, nem médios ou máximos, em piloto automático, os passageiros calados ou inexistentes, o assento sem cinto, um depósito roto... e nem durmo, nem aprecio a paisagem!
Um dia li algures:"sou uma nuvem perdida na solidão de um céu onde as estrelas se aborrecem"... e ali me identifiquei... Mas não fiquei... por mais que parecesse o meu lugar comum, não me segurei, bem tentei, mas não havia lugar pra mim...
Sempre que isto acontece, morro ou vivo o luto, e nunca sei, quando volto, quando ressuscito...
Ás vezes sou o sol que brilha em qualquer hemisfério...a estrela mais próxima de mim mesma, que de vida e calor faz pulsar meu próprio coração... e consigo aquecer as mãos do outro, e também o seu coração...
Ás vezes sou o gelo espesso, que não corta nem meus pés, porque não consigo patinar sobre esse chão que me foge esguio e me faz cair, mas barra, fere e esvazia tudo e todos em meu redor...
Ás vezes saio de mim, porque dói demais estar em mim assim...
Ás vezes procuro-me ou encontro-me, fora ou dentro, perto ou longe, rebusco-me, restauro-me e descanso...
Ás vezes consigo...
Outras vezes sigo...
Não é a viagem que me cansa... é apenas o facto de viajar sempre sozinha...!
30/04/2009
... adoro...
Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.
Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo...
imagem retirada da net
Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar.
Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre.
Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração.
Não me façam ser quem não sou.
Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente.
Não sei amar pela metade.
Não sei viver de mentira.
Não sei voar de pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre...
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
(Clarice Lispector)
29/04/2009
...Só tu não vês...
Só tu não vês como sou
Só tu não vês como estou...Que muro ergueste entre nós,
Que mar trouxeste na voz?De que pedras te serviste
De que calma te vestiste?Não das mesmas que te dei
Não da mesma que soprei...Porque estas, são um castelo
Feito de brilho e desvelo...Rimam carinho c`o amor
Versam em força e calor...As tuas, silêncios sós
E esquinas, cunhais e nósVerbos gastos desdobrados...
Falsos focos desfocados...Muros que me calam...
Muros que te cegam...
Conceição Roque Silveira
...Surdo...
...Para que eu saiba...
...Tortura...
Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Florbela Espanca
28/04/2009
...fora de combate...
...!?! Aprendo !?!...
26/04/2009
...enigma (x) amor...
24/04/2009
23/04/2009
...Esfera...
Uma vez mais, sem saber porquê,
Desistira de dizer:
Nao dá mais, quero mais... Se não for assim,
Esconde esse sorriso que me faz querer matar por mais!
Mais, mais...Quero mais...Mais, mais...
O monstro em mim não irá sucumbir,
Mais, mais...Quero mais...Mais, mais...
Por isso esconde esse sorriso que me faz querer matar por mais...
22/04/2009
...afinidades...
É um dos textos meus favoritos, que me faz acreditar que:"se as coisas ainda não acabaram, é porque ainda não chegou o fim"...
Arthur da Távola escreveu um dia sobre `Afinidade´ e, desde que li, nunca mais esqueci de de vez em quando lembrar, tudo isto que já não fui...
manta de retalhos em www.saloia.com
Afinidade não é o mais brilhante, mas é o mais subtil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente.Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades.Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto onde foi interrompido. Afinidade é não haver tempo medindo a vida. É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjetivo sobre o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial (da esperança sobre a experiência).Ter afinidade é muito raro. Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar.Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro com quem você tem afinidade.Afinidade é ficar de longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavras. É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento. Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o amado.Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios. Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar. Ou quando é falar, jamais explicar: apenas afirmar.Afinidade é jamais sentir por. Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo. Mas quem sente com, avalia sem contaminar. Compreende sem ocupar o lugar do outro. Aceita para poder questionar.Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.A afinidade não precisa de amor. Pode existir com ou sem ele. Independente dele. A quilômetros de distância. Na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar.Há afinidade por pessoas (não seria com pessoas ?) a quem apenas vemos passar, por vizinhos com quem nunca falamos e de quem nada sabemos. Há afinidade com pessoas de outros continentess a quem nunca vemos, veremos ou falaremos.A afinidade é singular, discreta e independente, porque não precisa de tempo para existir. Afinidade é adivinhação de essências não conhecidas nem pelas pessoas que as têm.Afinidade é retomar a relação do ponto onde parou, sem lamentar o tempo da separação. Porque tempo e separação nunca existiram. Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado...
...caminhos...
"Talvez eu nunca volte a caminhar...
por ruas que nao me levam a nenhum lugar..."
Cris Rostheuser
21/04/2009
...Inveja...
`Elvira Moreira da Costa´
17/04/2009
... o meu amor...
Petrificou
este outrora doce e destemido coração
amaciado em ilusões
Parou
já não pulsa nem pula de alegria
nem luta nem se cansa por
uma qualquer emoção ou esperança
Gelou
já não ri nem chora nem cresce
nem mais acorda ou adormece
Não há vida
Nessa agora cortante escuridão
gritante decomposição em
Cegueira
apagada de luz
dessa parte que era tua
Secou
nesse nascer de tempo em eternidade
nesse lodo de lágrimas em sangue
nesse poço de saudade em pavor
Calou
nesse rio de palavras em silêncio
nesse lago de gelo em ausência
nesse negro mar de amar em segredo
Ficou
nessa fé do nada ser prometido
nessa toxicidade do nunca ver seu
nessa ansiedade do nem ter existido
Morou
nessa parte que era tua
o meu amor
Morreu
no dia em que te foste
o meu amor
16/04/2009
...Não escrevo...
Escrevo quando tenho algo que se encaixou, ou questionou em mim para dizer.
Neste momento, não tenho nada, nem sequer o esquecimento de tudo...
Escrever é esquecer.
(já o escreveu Fernando Pessoa e não serei eu quem o vai "olvidar")
"A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.
A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm.
A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é o caso da literatura. Essa simula a vida.
Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa.
Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso."
Fernando Pessoa09/04/2009
06/04/2009
05/04/2009
...Imortais...
Os Amantes - René Magritte

Por mais que a vida nos agarre assim
Nos troque planos sem sequer pedir
Sem perguntar a que é que tem direito
Sem lhe importar o que nos faz sentir
Eu sei que ainda somos imortais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se o meu caminho for para onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes
É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer
Por mais que a vida nos agarre assim
Nos dê em troca do que nos roubou
Às vezes fogo e mar, loucura e chão
Ás vezes só a cinza do que sobrou
Eu sei que ainda somos muito mais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se a minha vida for por onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes
É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu sei te dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer
(Mafalda Veiga)
... morrer sem ti ...
mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz
e tudo esqueço no interior dessa ânfora alucinada
desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
(Al Berto)
...Não quero mais acordar assim...

04/04/2009
...Sinceridade...
Sinceridade Proscrita
A verdade permanece sepultada sob as máximas de uma falsa delicadeza. Chama-se saber viver à arte de viver com baixeza. Não se põe diferença entre conhecer o mundo e enganá-lo; e a cerimónia, que deveria ater-se inteiramente ao exterior, introduz-se nos nossos costumes mesmos.
A ingenuidade deixa-se aos espíritos pequenos, como uma marca da sua imbecilidade. A franqueza é olhada como um vício na educação. Nada de pedir que o coração saiba manter o seu lugar; basta que façamos como os outros. É como nos retratos, aos quais não se exige mais do que parecença. Crê-se ter achado o meio de tornar a vida deliciosa, através da doçura da adulação.
Um homem simples que não tem senão a verdade a dizer é olhado como o perturbador do prazer público. Evitam-no, porque não agrada; evita-se a verdade que anuncia, porque é amarga; evita-se a sinceridade que professa porque não dá frutos senão selvagens; temem-na porque humilha, porque revolta o orgulho que é a mais cara das paixões, porque é um pintor fiel, que faz com que nos vejamos tão disformes como somos.
Não há por que nos espantarmos, se ela é rara: é expulsa, proscrita por toda a parte. Coisa maravilhosa: só a custo encontra asilo no seio da amizade!
Seduzidos sempre pelo mesmo erro, não fazemos amigos senão para dispormos de pessoas particularmente destinadas a comprazer-nos: a nossa estima acaba com a sua complacência; o termo da amizade é o termo dos agrados.
E tais agrados que são?
Que é o que nos agrada mais nos nossos amigos?
São os contínuos louvores, que deles recolhemos como tributos.
Baron de Montesquieu, in 'Elogio da Sinceridade'
03/04/2009
...Voltar a amar ...

Esta era a notícia do dia que a Joana, o melhor meio de comunicação desde a portaria ao arquivo, se esforçava por dar a conhecer a todos os colegas do escritório. Baixo, muito baixinho, dizia-o entre dentes, não fossem os visados ouvir. A bombástica notícia apanhou desprevenidas todas aquelas pessoas que adoram estar a par da vida alheia. «-Como é que é possível?», «- Ela não tem vergonha nenhuma na cara», «-Ele é um grande banana», «-Só o fizeram por causa das miúdas» eram os mimos que se ouviam nos corredores. Todo aquele interesse mesquinho de opinar e participar no fórum da maledicência só se justifica pela pitada de sal que aquilo trazia às suas patéticas vidas.
Mais tarde, mumificada na IC19, o Miguel e a Teresa passearam pelo meu pensamento, tão lentamente como o trânsito naquele fim de tarde. Conheceram-se na adolescência numa daquelas festas de garagem onde às escondidas se fumava SG Ventil, bebia Super Bock e se trocavam os primeiro beijos. Sobreviveram à distância imposta pela faculdade, ela no Porto, ele em Lisboa, casaram assim que terminaram o curso, arrastaram-se pelo escritório com os sinais de desgaste com nascimento das gémeas, lutaram lado a lado com as dívidas à banca que Miguel contraiu, mas não sobreviveram ao desfalecer da paixão, à presença da rotina. Os anos que se seguiram, assistiram à batalha campal do divórcio. Se este casal pertencesse ao Jet Set teriam feito correr rios de tinta nas páginas das revistas cor-de-rosa, mas não pertenciam, situavam-se apenas num universo, que é dito como normal, e a que cada um de nós está longe de dizer que jamais irá pertencer. Como amiga do casal dei comigo no meio dos desabafos e agressões. O objectivo era ver quem é que feria mais o outro, quem é que denegria mais a imagem do ex companheiro. Ela acusava-o de ser preguiçoso e de ter arruinado o património da família com os seus gostos de novo rico, ele retribuía o galhardete dizendo que ela estoirava o dinheiro em roupa e em clínicas de estética para minimizar os estragos que fazia à mesa; ela dizia que ele passava as noites no sofá ou na cama a ressonar, ele dizia que ela passava a noite a ver telenovelas e que chegava à cama sempre com dores de cabeça; ela censurava-o por ser egoísta e não lhe dar prazer, ele desprezava-a dizendo que era frígida; ela queria o Chalé de Andorra, a casa na Quinta do Lago e o descapotável, ele respondia que a tirou da miséria e que ia sair de casa com a roupa adquirida na feira de Carcavelos que trazia no dia em que a conheceu; ela queria a custódia das filhas e uma pensão milionária, ele disse que não tinha tempo para cuidar das gémeas e dava-lhe uma pensão irrisória.
Quando finalmente declararam tréguas um ao outro ele passou a sair com todas as mulheres maduras que o fascinavam, ela fez uma ronda pelos sub 21 que encontrava nas saturday nigth fever. Afastaram-se e construíram novos caminhos para as suas vidas. Cinco anos passaram, as gémeas tornaram-se um pretexto para a aproximação. Havia sempre uma prova de natação ou um torneio de basquetebol e, primeiro com algum desconforto, depois com uma clara alegria, começaram a sentar-se lado a lado nas bancadas do clube desportivo onde gritavam e torciam pelas filhas. Pelo canto do olho, Miguel olhava Teresa e pensava que o divórcio só lhe fizera bem. Estava mais magra, mais bonita, vestia-se com maior elegância. Teresa sentia o olhar dele sobre o seu corpo e também lhe reconhecia os benefícios da separação: músculos mais firmes esculpidos pelas corridas matinais no parque da cidade, o cabelo mais curto e pincelado por uns laivos grisalhos, a roupa desportiva que lhe dava um ar menos formal.
Miguel e Teresa… sorrio. Voltam aos meus ouvidos os mexericos do escritório nesta manhã. Ao contrário do que dizem, esta relação tem tudo para dar certo. Não é só pelo facto de reconhecerem, depois de tudo o que viveram, que ainda se amam, mas é o facto do que aprenderam longe um do outro e o que cresceram como pessoas, que lhes vai permitir construir uma relação nova. Ele aprendeu a trocar o jornal pela actividade física, a substituir a vaidade e o exibicionismo de um carro novo pela tranquilidade de um fim-de-semana a dois perdidos num SPA; ela deixou a televisão e foi esculpir o corpo no ginásio, tomou aspirinas quando tinha realmente dores de cabeça e entregou-se sem pudor ao prazer na cama com o marido. Mas o que me leva a acreditar novamente naqueles dois é o facto de se conhecerem muito bem. Miguel e Teresa reconhecem no outro, os seus valores, as suas qualidades, mas melhor que isso, conhecem-se do avesso, o lado lunar, o que de pior têm para oferecer.
O ódio e o amor são sentimentos próximos, um casal que já se amou e que se odiou de seguida, tem fortes probabilidades de ser feliz, quando se voltar a amar.
...Fugiste...
Viva cada história até o último detalhe, tome até a última gota de todos seus momentos porque não há nada mais reles do que abandonar a vida por covardia, esconder-se dela detrás de falsos motivos.Furtar-se a viver plenamente com toda a dor, alegria, tristeza, desamores e paixões é o mesmo que não ter nascido.
Mas vá, se sentir que precisa ir.
Vá, se o que o move é impossível de domar.
Não deixe o medo paralisá-lo.
Ignore os que não entendem, criticam, alertam, amedrontam porque esses, enquanto você segue seu faro, escrutina o desconhecido, permanecerão no mesmíssimo lugar. Criarão musgo, não sairão do decadente quarteirão da resignação—e isso sim é assustador."
Postado por Mitsotaki
01/04/2009
...Vai...
...Partir...

Estou a tentar partir ficando onde estou
já deixei para trás muito do que ainda transporto
no entendimento do que me rodeia
os gestos que me tornavam vida
desaparece na consciência do vazio
as palavras
morrem agora no momento em que são ditas
morrendo com elas a existência
deixo de tentar ressuscitá-las...
procuro apenas fazer-lhes um enterro bonito
partindo e ficando de vez onde estou
o mundo termina... e com ele termina
no lugar que ocupo
deixo de dizer a liberdade e danço-a
nos braços do ar que respiro
deixo de fazer amor
na voz com que toco a existência
longe de qualquer sentido ou propósito
só me resta invadir o mundo na forma de um sorriso
fazendo da felicidade a flor
que só cada um de nós pode
trocando a esperança
pela vida
publicado em http://caminhosdosilencio.blogspot.com/
...Fiz...
"Vencer não é nada
se não se teve muito trabalho.
Fracassar não é nada
se se fez o melhor possível."
Eu não vou mais chorar
Fiz o que pude
Não paro de pensar
É a tua ausência que me iludeNão posso acreditar
Que eu não pude
Parar para te esperar
Essa distância me iludeNão dá mais pra continuar assim
Eu quero que você me ajude
Eu quero que você volte a acreditar em mim
Mas para isso é preciso que eu mudeEu acho que eu ainda sou moço
Eu acho ainda que eu não morro
Eu acho que ainda é possível
Que eu consiga viver em paz
Fiz o que pude
Nando Reis / Cássia Eller





