13/12/2010

...mentira...

detalhe - mentira - alexandre wagner

«Nós tendemos a acreditar que aquilo de que nos recordamos realmente aconteceu e não pomos em causa e somos, em grande medida, aquilo de que nos lembramos. E a verdade é que muitas coisas de que nos lembramos na realidade não aconteceram ou não aconteceram exactamente assim. Portanto, até certo ponto, nós próprios somos uma ficção, um...a mentira.»
José Eduardo Agualusa

08/12/2010

...nem tudo é dias de sol...


Se eu pudesse trincar a terra toda

E sentir-lhe um paladar,

E se a terra fosse uma cousa para trincar

Seria mais feliz um momento...


Mas eu nem sempre quero ser feliz.

É preciso ser de vez em quando infeliz

Para se poder ser natural...

 
Nem tudo é dias de sol,

E a chuva, quando falta muito, pede-se,

Por isso tomo a infelicidade com a felicidade

Naturalmente, como quem não estranha

Que haja montanhas e planícies

E que haja rochedos e erva...


O que é preciso é ser-se natural e calmo

Na felicidade ou na infelicidade,

Sentir como quem olha,

pensar como quem anda,

E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,

E que o poente é belo e é bela a noite que fica...

Assim é e assim seja...

alberto caeiro (F.P.)

24/11/2010

...as minhas saudades tuas...


tenho saudades tuas
isso eu sei
porque eu sinto no meu peito
essas ruas

nunca imaginei um amor assim
e agora até ficou real
mas isso trouxe coisas atrás

no momento de uma decisão
percebes tudo o que o presente faz
mesmo querendo ter alguém
eu quero ter-me a mim

mas meu amor
nenhum de nós deixará de ser real

passo por essas ruas
isso eu sei
porque eu sinto ter ainda no meu peito
coisas tuas

Foge Foge Bandido

09/11/2010

...sincero...


“Lembro dos sorrisos, das conversas, dos divãs, dor hormônios, de tudo… e me dá uma saudade irracional de você. Uma vontade de chegar perto, de só chegar perto, te olhar sem dizer nada, talvez recitar livros, quem sabe só olhar estrelas… dizer que te considero - pode ser por mais um mês, por mais um ano, ou quem sabe por uma vida - e que hoje, só por hoje ou a partir de hoje (de ontem, de sempre e de nunca), é sincero.”
Caio Fernando Abreu

... uma andorinha só ...

Não faz, mas pode começar a fazer a Primavera:

Não espere o chamado de outras “andorinhas”.
Desperte a que há dentro de você
e comece um verão interno
mesmo que em meio da tempestade.


Andréa Oliveira in

08/11/2010

...o distorcido...


As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.

Thomas Mann, in
"Morte em Veneza"

...Absurdo, Liberdade e Projecto...


Uma vez admitidos dois factos: que o devir não tem fim e que não é dirigido por qualquer grande unidade na qual o indivíduo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta só uma escapatória possível: condenar todo esse mundo do devir como ilusório e inventar um mundo situado no além, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo não é senão construído sobre as suas próprias necessidades psicológicas e que ele não é de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a última forma do niilismo, que implica a negação do mundo metafísico e que a si mesma se proíbe de crer num mundo verdadeiro. Alcançado este estado, reconhecemos que a realidade do devir é a única realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam à crença em outros mundos e em falsos deuses - mas não suportamos este mundo que não temos já a vontade de negar.
(...)
Que se passou portanto? Chegámos ao sentimento do não valor da existência quando compreendemos que ela não pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não logramos coisa nenhuma dessa espécie; a unidade global não aparece na pluralidade do devir: o carácter da existência não é o de ser verdadeira, mas o de ser falsa (...) não há razão alguma para nos persuadirmos de que existe um mundo verdadeiro. (...) Em suma, as categorias de fim, de unidade, de ser, graças às quais demos um valor ao mundo, retiramos-lhas e o mundo parece ter perdido todo o valor.
Friedrich Nietzsche, in
'A Vontade de Poder'

25/10/2010

... não tens vergonha?! ...


«Ser feliz por momentos é algo de que não se deve ter vergonha. Momentos que o fim torna ridículos.

A felicidade, como o amor, é um sentimento ridículo. Mas a felicidade, como o amor, só é ridícula quando vista de fora. A felicidade, como o amor, só é ridícula antes ou depois de si própria. A felicidade, são momentos que, no seu presente fugaz, são mais fortes do que todas as sombras, todos os lugares frios, todos os arrependimentos. Ser feliz em palavras que, durante essa respiração breve, mudam de sentido.

E nem a forma do mundo é igual: o sangue tem a forma de luz, as pedras têm de nuvens, os olhos têm a forma de rios, as mãos têm a forma de árvores, os lábios têm a forma de céu, ou de oceano visto da praia, ou de estrela a brilhar com toda a sua força infantil e a iluminar a noite como um coração pequeno de ave ou de criança.

Momentos que o fim torna ridículos. Momentos que fazem viver, esperando por um dia, depois de todas as desilusões, depois de todos os arrependimentos e fracassos, em que se possa viver de novo, para de novo chegar o fim e de novo a esperança e de novo o fim.

Não se deve ter vergonha de se ser feliz por momentos. Não se deve ter vergonha da memória de se ter sido feliz por momentos.»

in, "Uma Casa Na Escuridão"
José Luís Peixoto

15/10/2010

...ousa...

"Odeio essas almas pulsilânimes que,
por muito preverem consequências,
nada ousam empreender. "
(Moliere)

12/10/2010

...procuro...


Procuro alguém
que me salve de mim mesma,
do abismo que crio

(...)

insanidade dos meus pensamentos.

Procuro por ti,
à espera que em mim vejas
a tua salvação,
como eu vejo em ti a minha.

pensamentos incertos
da praia secreta

10/10/2010

...não me perguntes...

Eu não sei por que a amo. Cada vez mais não sei.

Pode ser pelo seu pescoço que se levanta para ganhar altura quando estamos abraçados. Ou será que é pela forma em que dobra as pernas no sofá? Ou quando se contorce em espiral com beijos nas costas? Eu não sei por que a amo. Será que pela sua preguiça, que se enrola em mim de manhãzinha? Ou pela sua disposição de dar a volta por cima? Eu já parei para pensar por que a amo, mas lamento, não sei. Realmente não sei. Talvez seja pelas sobrancelhas que falam antes dos olhos. Ou pelo umbigo que inicia a mão. Ou pelo copo que você balança antes de beber, para convencer a água a partir? Tantos homens têm um motivo certo para amar, definido como um emprego, e você foi escolher logo um que nada tem a dizer.


Será que é pelo amor aos filhos, excessivo, que sempre me inclui? Ou pela sua vontade de fazer mercado depois do almoço para gastar menos? Será que é pelo modo como canta, o modo como dança, com os braços acenando em linhas sinuosas como fumaça de chá? Será que é pelo toque em meu joelho enquanto dirijo? Pela sua respiração suspensa na penumbra? Ou pelas nossas saídas de madrugada para encontrar sorvete em botecos? Será que me apaixonei pelo seu texto e quis ser seu personagem? Ou pela sua pressa de avisar que chegou, apertando o interfone mesmo com as chaves? Ou quando diz que está com frio no cinema? Ou quando fica muda querendo voltar ou quando fica ruidosa querendo passear? Ou quando pede que eu fique em casa mordendo o lábio de cima? Ou quando me enfrenta com raiva e me diz todas as verdades sem ao menos pedir para sentar? Ou quando sopra os machucados, de quem herdou o costume de soprar machucados mesmo quando não existem? Ou quando fica bêbada e declara que está bêbada para eu me aproveitar? Será que é pelo sua predileção em comprar presentes, sempre dando mais do que recebendo? Ou pela tapeçaria no fundo de suas bolsas, com notas, moedas, chicletes, batons e brincos avulsos? Será que a amo por que me irrita a viver mais? Será que a amo por que não me deixa a sós comigo?

Eu juro que não sei por que a amo. Todo dia você se acorda querendo ouvir, eu pressinto, debruçada em meus ombros à espera do sinal, do cartão, das flores, da segunda aliança que é um par de palavras. Mas não descobri e não finjo. Entenderá que faltam motivos, só que sobram motivos. E dificulta-me pensar que se ama por motivos. Ama-se por insinuações.

Será que é pelo seu medo de sangue? Pela sua infância vesga? Pelos seus joelhos esfolados nos móveis? Pela seus amores frustrados? Pela sua letra arredondada nas vogais? Pela sua insatisfação com as roupas na hora de sair? Pela ânsia em atender o telefone com a esperança de que seja eu a dizer por que a amo?
Eu não sei por que a amo. Não me fale. Quem sabe deixo de amar.

Fabrício Carpinejar

07/10/2010

... caderno ...

«Eu, segurando o caderno e anotando frases,
limitei-me a registar as mudanças.

Fui uma sombra ocupada a registar sombras.

Mas como conseguir agora,
sem um eu,
sem peso e sem ilusões,
num mundo sem ilusões e sem peso?»
Palavras de Bernard
in As Ondas de
Virginia Woolf

... inspiração ...




... sinto, por vezes,
um temor espantado das minhas inspirações,
dos meus pensamentos,
compreendendo quão pouco de mim é meu...

fernando pessoa

28/09/2010

... alcance ...



“De todas as coisas que existem, algumas estão ao nosso alcance, e outras não. Estão ao nosso alcance: o pensamento, os impulsos, o querer e o não querer – em uma palavra, tudo aquilo cujo resultado são nossas próprias ações”.
“Mas existem coisas que surgem sem que possamos interferir. Neste caso, é preciso saber olhar – com sabedoria – o que se passa. O que perturba o espírito do homem não são os fatos, mas o julgamento que fazem a respeito dos mesmos”.
“Não peça que tudo na sua vida siga o caminho de sua vontade”.
“Reze para que as coisas aconteçam como elas precisam acontecer – e verá que tudo é muito melhor do que você estava esperando”.



( Epicteto )

10/09/2010

... conseguiremos ? ...


"Para entender o coração e a mente de uma pessoa,
não olhe para o que ela já conseguiu,
mas para o que ela aspira."
(Khalil Gibran)

08/09/2010

... a vida real de um pensamento ...

(sim... penso em ti)
A vida real de um pensamento dura apenas até ele chegar ao limite das palavras: nesse ponto, ele lapidifica-se, morre, portanto, mas continua indestrutível, tal como os animais e as plantas fósseis dos tempos pré-históricos. Essa realidade momentânea da sua vida também pode ser comparada ao cristal, no instante da cristalização.

Pois, assim que o nosso pensamento encontra as palavras, ele já não é interno, nem está realmente no âmago da sua essência. Quando começa a existir para os outros, ele deixa de viver em nós, como o filho que se desliga da mãe ao iniciar a própria existência. Mas diz também o poeta:
Não me confundais com contradições!
Tão logo se fala, já se começa a errar.
Arthur Schopenhauer,
in 'Sobre o Ofício do Escritor

04/09/2010

...Tenta esquecer-me...


Tenta esquecer-me...


Ser lembrado é como evocar
Um fantasma... Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!


Mário Quintana

27/08/2010

... Deus é do Contra ...

Deus costuma usar a solidão
para nos ensinar sobre a convivência.

Às vezes, usa a raiva para que possamos
compreender o infinito valor da paz.

Outras vezes usa o tédio, quando quer
nos mostrar a importância da aventura e do abandono.

Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar
sobre a responsabilidade do que dizemos.

Às vezes usa o cansaço, para que possamos
compreender o valor do despertar.

Outras vezes usa a doença, quando quer
nos mostrar a importância da saúde.

Deus costuma usar o fogo,
para nos ensinar a andar sobre a água.

Às vezes, usa a terra, para que possamos
compreender o valor do ar.

Outras vezes usa a morte, quando quer
nos mostrar a importância da vida.
Fernando Pessoa