e eu somei
eu disse some
e você sumiu
marcos caiado
"... as reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..." Quintana
Às vezes tu me habitas como ruídos a uma casa,
como marcas a um rosto que por elas se define
e te lembrar é voltar ao que há de mais meu em mim mesma, à parte de mim mesma que me revela e me assombra.
Às vezes eu quase te esqueço,quase te percoe quase sou completamente triste
e quase sou completamente outra
sem a interrogação onipresente dos teus olhos,
sem a incompreensão cúmplice da tua voz.
Estás em mim e não há nada a fazer,
mesmo a meio da noite,
quando és um vazio cheio de pontas,
mesmo a meio da frase,
quando és um gole de ar no lugar do teu nome.
Tu és meu porque de ti sou feita
e negar-te a mim seria parir-me ao contrário.
Aceito assim meu ofício de habitar-me tu -
ainda que a mim nunca regresses,
mesmo que de mim jamais tenhas partido.
Atravessei contigo a minuciosa tarde
Deste-me a tua mão,
A vida parecia difícil de estabelecer
Acima do muro alto folhas tremiam
Ao invisível peso mais forte.
Podia morrer por uma só dessas coisas
Que trazemos sem que possam ser ditas:
Astros cruzam-se numa velocidade que apavora
Inamovíveis glaciares por fim se deslocam,
E na única forma que tem de acompanhar-te
O meu coração bate...Tolentino de Mendonça
Falo contigo:
e tu ouves-me, não me ouvindo, como eu te ouço
sem saber se é o que eu quero ouvir que vem das tuas frases,
ou se dizes o contrário do que sentes
para que eu sinta a verdade do que nenhum de nós sente …
Como se o amor acabasse no meio do que não começou;
ou a distância pudesse apagar o que não tem fim.Nuno Júdice,
A Cartografia de Emoções
imagem em http://olhares.aeiou.pt/maluvik
A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai
O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu
Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada à covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma naçãoZec`Afonso
Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade
Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega
Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero
Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente
Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia.Fernando Tordo

Não digo que te amei por ter possuído o teu corpo, mas sim por ter roçado a tua alma.
Se pudesse estar apenas perto de ti, a ouvir a tua voz e a demorar o meu olhar sobre o teu, ter-te-ia amado na mesma...
Fiquei presa no que está para lá do visível; enredada entre as folhas da tua verdadeira essência.
Possidónio Cachapa
O tempo perde a noção
quando se trata de esperar-te
derretem-se-me os sorrisos
desfazem-se-me as forças
destroi-se-me a coragem
quando se trata de esperar-te
não há segundo que não doa demais a tua falta
não há minuto que não grite por dentro a tua falta
não há dia que não chore de noite a tua falta
o que há perde a noção
quando se trata de esperar-te
meu mundo desaba sem tua presença em mim
meu coração gela sem o teu abraço em mim
meu olhar baça sem o teu olhar em mim
o amor perde a noção
quando se trata de esperar-tea razão perde a noçãoquando pedes pra não esperar-temalu

Vem!
Toca a minha mão
não desistas...
prossegue,
ergue o olhar a novos horizontes,
contigo caminharei.
A minha mão está estendida
sente o calor na ponta dos dedos.
Vem
juntas caminharemos por entre as ortigas
onde os pés tropeçam...
No oásis vislumbro jardins de rosas amarelas.
Segura com força
aprecia...é a minha mão.
Vem!
Não olhes para trás
alto é o abismo vertiginoso.
Continua
estou aqui ao teu lado
deixa as lágrimas caírem
despoja a revolta e a amargura
leve voarás...
Sobe comigo esta escarpa
agarra a corda...
Vem!
só mais um pouco
as pernas teimam em cair
rasteja eu rastejarei contigo.
Contempla
o sol já brilha no firmamento onde juntas sorriremos
sentadas nestas pedras...
Num abraço glorioso de vitória.
Eu estou contigo,
hoje e sempre.Ana Coelho
(à minha mãe)
para sentir que nem só a mim me custa "respirar"
e, ao qual a minha alma tem "roubado"
uma espécie de identificação...

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.Todas as mortes gastei
para viver contigo.Mia Couto
O amor ...
é a droga que me corre nas veias
sem alguma vez ter sido injectado!
Quero-o mais que tudo… Porque sem ele morrerei presa a este meu mundo, que só eu entendo, que ninguém vê, onde ninguém sabe estar ou ser…
Sempre foi a minha ambição, a minha luta, o meu objectivo,
a resposta a todos os “porquês” da minha vida…
Sempre foi o meu sofrimento, a minha desilusão
nunca o tive como o dei ... nunca me amaram como eu amo
Sem o amor
Não entendo este mundo que me rodeia, profundamente triste…
E este sitio horrendo, que me rouba o sorriso mais genuíno e sentido
e no seu lugar deixa lábios secos sem expressão…
Sem amor
Já nem sei o que chorar!
Catarina Rafael (babyKate)
Quero pedir-te um favor:
recolhe as minhas palavras
e faz um monte com elas,
ateia o fogo em redor
até que brilhem estrelas.
E sem olhar para trás,
vira as costas à fogueira
e não as vejas arder.
Se disso não fores capaz,
corres risco de cegueira
e a alma vai-te doer!
Maria José Quintela
Se não me amas...não digas a ninguém
Não digas a mim.
Se não me amas
Não digas ao sol... e nem á lua,
que eles não saibam então.
Se não me amas
não digas ao vento que passa
nem aos pássaros que voam pelo céu azul...
Que ninguém saiba que não me amas...
Que eu não tenha certeza do que já sei.
Tereza Bólico
Sou inquieta, áspera
E desesperançada
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha
Feito farpa
Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho, mas no entanto continuo inquieta
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais
Corro perigo
Com toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado
Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida
(Clarice Lispector)
"Dividi a minha vida em partes
Construí muros altos
Paredes grossas
Selei hermeticamente portas
Para me dividir
Separar em partes
Ser só
Lembrar só
Aquilo que queria ser.
Mas a força que habita
Esses quartos
Hermeticamente fechados
Minou paredes
Construiu túneis
Invadiu os outros quartos
Que selei, para proteger.
E murmura-me ao ouvido
Ri do meu esforço inútil
E relembra-me a cada instante
Que a memória não se fecha
Não há forma de a apagar
Não há onde me esconder. "
Encandescente
Quero que saibas uma coisa.Tu já sabes o que é:
Se olho a lua de cristal,
o ramo rubro do lento Outono
em minha janela,
se toco junto ao fogo
a implacável cinza ou
o enrugado corpo da madeira,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz , metais,
fossem pequenos barcos que navegam para estas tuas ilhas que me aguardam.
Pois, ora, se pouco a pouco
deixas de me amar,
de te amar, pouco a pouco, deixarei.
Se de repente me esqueces, não me procures,
já te esqueci também.
Pablo Neruda
No amor também as palavras são necessárias.
Os gestos talvez não bastem.
Nem a chuva lá fora enquanto o amor se inflama.
Nem o sussurro nas árvores quando os corpos serenam.
Nem a melopeia das águas quando as bocas se esmagam.
Nem o fulgor dos olhos quando a paixão se impacienta.
Penso no amor e logo invento palavras
e logo as palavras se põem ébrias.
Penso no amor e logo as palavras
se soltam como fogosas aves
a que não pergunto o rumo.
Penso no amor e logo preciso
que as palavras digam
que amor é este em que penso e em que grito.
Fernando Namora
Espreitava em seus olhos uma lágrima,
e em meus lábios uma frase a perdoar;
falou o orgulho, o seu pranto secou,
senti nos lábios essa frase expirar.
Eu vou por um caminho, ela por outro;
mas, ao pensar no amor que nos prendeu,
digo ainda: porque me calei aquele dia?
E ela dirá: porque não chorei eu?
Por aqui fico...
Wassily KandinskyQue queres tu de mim
Que fazes junto a mim
Se tudo está perdido, amor
Que mais me podes dar
Se nada tens a dar
Que a marca de uma nova dorLoucura reviver
Inútil se querer
O amor que não se tem
Porque voltaste aqui
Se estando junto a ti
Eu sinto que estou sem ninguémQue pensas tu que eu sou
Se julgas que ainda vou
Pedir que não me deixes mais
Não tenho o que pedir
Não sei o que pedir
Se tudo o que desejo é pazQue culpa tenho eu
Se tudo se perdeu
Se tu quiseste assimE então , que queres tu de mim
Se até o pranto que chorei
Se foi por ti , não sei(bolero, 1964) - Jair Amorim e Evaldo Gouveia
Canção originalmente gravada por Altenar Dutra, e posteriormente versada por vários outros artistas da MPB, como Fafá de Belém e Simone